Yoga, Espiritualidade e Cura


Introdução

O Yoga é um sistema de crenças vinculado em sua origem ao Hinduísmo, mas também por alquimistas muçulmanos, tântricos, budistas, samkhystas, nathas e outras religiões. Um congresso de medicina com temas como yoga, reiki e daime por exemplo, é bastante controverso, sobretudo pois muitos cientistas realmente acreditam conseguir investigar os resultados de suas pesquisas sem precisar levar em consideração os complexos sistemas de crenças das práticas ou “técnicas” que tomam emprestado de um complexo cultural.

Parece-me a primeira vista, que o Yoga no Brasil ainda não foi totalmente “desencantado” e ainda se vê envolto entre o místico e o científico. Digo de partida que considero (e há sempre um misto de assombro e indignação quando me expresso assim entre colegas yogis e acadêmicos) o Yoga moderno como uma religião não institucional já desvinculado do Hinduísmo. No entanto (e agora para a minha surpresa), nunca há nenhuma reação de espanto ou heresia a nenhum yogi (ou acadêmico) quando um biólogo, por exemplo, apresenta dados em uma revista científica sobre os benefícios da meditação, dos ásanas ou dos pranayamas sobre asmáticos, depressivos, ansiosos ou portadores de HIV, melhor se os grupos investigados forem os do seu próprio “método yoguico de ensino” e ainda mais se o cientista em questão seja um de seus discípulos.

Nesta pequena palestra me deterei em descrever a ambivalência que gira em torno do ritual yoguico moderno e as suas relações com a espiritualidade e a saúde. Buscarei demonstrar o porquê e como o ritual yoguico veio se transformando ao longo de sua história antiga até a sua modernidade onde adquire o seu caráter mais eminente de cura pelo “relaxamento”, sustentado tanto pelo discurso biomédico ocidental quanto pelas escrituras redigidas por líderes espirituais do ioga modernos. De alguma forma e, por mais ambivalente que possa parecer, a ciência ocidental vem legitimando as crenças ioguicas modernas ao mesmo tempo em que profana os seus rituais.

A visão de mundo pelo Yoga e os perfis de yogis no mundo moderno e secularizado

No Yoga, é a partir das técnicas corporais que os valores são introjetados e são construídos no indivíduo em referência ao corpo. Não há como separar a construção do “corpo yogi(ni)”, da construção da “pessoa yogi”, pois o ser yogi é sempre corpo-referenciado.

O Yoga acredita que o contato dos sentidos humanos com o mundo produzem “turbulências” em sua mente/consciência impedindo-os de “ver” o mundo como ele realmente é, em outras palavras, ignorante ou alienado de si mesmo. Desta alienação espiritual surge comportamentos nefastos e que geram o sofrimento, como o viver apegado, orgulhoso, aversivo com os seres viventes e com medo da morte (esses são os klesas, o mal a ser combatido pelos iogues).

Como se livrar desses comportamentos nefastos? Pelo processo ritual ético e corporal do yoga. Os iogues chamam de yamas e niyamas a ética, que são na verdade, dez condutas ou preceitos a observar. E o ritual corporal é constituído de posturas, respiratórios, desenvolvimento (a partir dos anteriores) de uma maior aquisição de um senso de “isolamento” sensitivo aos acontecimentos externos e da meditação propriamente dita.

Esse processo ritual diário possibilita que se aumente o prana no corpo do yogi (uma espécie de energia mágica que circunda o universo e que mantém todos os seres vivos). É o livre circular de prana no corpo do yogi que o capacita a experienciar uma comunhão verdadeira consigo mesmo