Shiva e Zé Pilintra em equilíbrio: Uma Fábula


Nos primeiros dias do mês de abril do ano de 2016 os iogues no Brasil foram surpreendidos por um projeto de lei na câmara dos deputados federais buscando regularizá-los (e enquadrá-los) como profissionais terapeutas com carteira assinada e tudo. Imediatamente centenas de iogues da ala mais ortodoxa e responsáveis por resgatar a “essência do ioga no Brasil”, entraram com uma petição, convocando a todos a assinarem contra a regulamentação em prol do “Free Yoga”. Bem, a partir daí foi uma algazarra só. Estes alegavam que essa regulamentação estava sendo utilizado como estratégia de um mestre antigo visando arregimentar mais adeptos.

Por outro lado, alguns alunos (ou clientes?) se perguntavam: Mas, por quê não regularizar a profissão já que pagavam pelo “serviços espirituais” prestados no mercado religioso brasileiro? Outros tantos iogues, sentindo-se um pouco mais “livres” da ala mais tradicionalista queriam discutir o assunto, enquanto outros tentavam compreender o que era “petição” ainda... Havia tanta confusão no ar sobre que raios de papel o ioga teria na sociedade brasileira que nem se atentaram por meditar e orar neste momento em busca da “iluminação” da questão. E assim, queriam discutir abertamente a questão e não apenas seguir uma representação de uma outra linhagem (ou algo similar) – que por sinal não respeitavam tanto assim -, já que não se sentiam assim nem tão ortodoxos e, por isso, adoravam combinar as crenças do ioga com as da umbanda, do santo daime, do espiritismo kardecista, dos católicos e até dos evangélicos! Por quê não? Em seus altares acendiam-se velas e incensos tanto a Shiva como a Oxalá, algumas shalas – espaços ritualísticos da prática ioguica – possuíam até mesmo uma tronqueira – espaço sagrado das religiões afro para exús - na porta.

O que se criou foi um verdadeiro pandemônio e em poucas semanas ninguém mais se entendia. Desde 1950 mais ou menos que o ioga chegara no país e veio de carona de ordens ocultistas e sempre meio misturado com a magia e a alquimia. Para ganhar autonomia, o ioga foi aos poucos se afastando da magia e se aproximando da ciência biomédica, pois acreditava que a ciência poderia lhe empoderar com maior força e legitimidade do que os sacerdotes bramanes e gurus místicos do Hinduísmo, mesmo porque o Hinduísmo é uma religião que ninguém conhece no Brasil, não é mesmo? Pensava consigo mesmo. Assim, o ioga foi pagando o seu preço e se assemelhando mais como uma fonte de condicionamento psicofísico e terapêutico do que filosofia ou religião.

Mas agora a situação se agravara. Essa petição exigia que os iogues se posicionassem sobre quem e o que eram. Fora chamado o momento dos iogues declararem a sua verdadeira identidade: ou uma atividade laica e profissionaliza-se, esquecendo vossos deuses, ou assumia de vez toda a sua religiosidade mágica e retorna - de verdade - a sua essência sem aspas. Realmente o panorama fechou o tempo de repente ao microuniverso cósmico do ioga brasileiro. Foi tão avassalador e tão perturbador que os limites do que é ou não ioga desaparecia. Alguns sadhus riam, pois como já iluminados, percebiam a ilusão de se afirmar o ioga como laico, já que como caminho místico-religioso, ser iogue assume a sua porção de direito: de vocação e disciplina ritualística e não de profissão no mercado de trabalho. Mas, mesmo estes seguros de vossas realidades místicas sentiram-se surpresos com tamanha repercussão social, que julgaram ser necessário uma intervenção divina, pois se o ioga no Brasil não se autodenominasse com maior clareza, suas vidas de sadhus também correriam perigo; e o perigo dos mais baixos mesmo, pois estes eram sustentados por seus discípulos; e transformando-se em profissionais de ioga, seus devotos se tornariam em clientes e o ashram em uma empresa. Sendo empresa, poderiam vir a bancarrota e era isso que o futuro parecia prometer.

O ioga sendo esquecido como fenômeno espiritual não haveriam mais retiros para os iogues organizar, peregrinações à Índia ao qual ofertar aos adeptos irem e muito menos pagamento de workshops e aulas sobre como obter a tão almejada Bem-Aventurança em praias e resorts paradisíacos. E, com isso, os sadhus e todos os seus discípulos precisariam voltar as suas úmidas cavernas, escritórios ou à casa dos pais.

Com isso em mente – a ideia de encontrar uma maneira segura do ioga viver em harmonia dentro da cultura brasileira, já que em outros países deu-se o jeito deles e na Índia, há séculos encontraram o deles juntando o samkhya com a entrada de Isvara e transformando a religiosidade mística ioguica em darsana ou sendo incorporado por outras religiões como o Tantra, o Budismo e outras. Era um enrosco tamanho que só os indianos entendem, assim como só eles também sabem quando é o momento certo de desviar a 100km/h o ônibus na autoestrada da frente de outro veículo na mesma velocidade no último instante a colisão.

Os sadhus, gurus e brâmanes brasileiros se reuniram para invocar então a presença de seus deuses com as divindades da religiosidade genuinamente brasileira para se consultarem e saber qual o melhor jeito de resolver a situação. Deste modo, Brahma, Visnu, Shiva e seu filho Ganesh foram até um terreiro de Umbanda solicitar respostas as suas mais profundas angústias em terras verde amarelas. Afinal, o Brasil era um país promissor na proposta expansionista para a soteriologia ioguica. Resolveram pela umbanda, pois mesmo o kardecismo ter se iniciado na França, o acharam mais católico do que qualquer outra coisa. O Cristianismo não era brasileiro e se impôs a força, igual ao Hinduísmo, mas na Índia foi outra história. O candomblé estava crescendo bastante até mais que a Umbanda, mas só ela havia se infiltrado e crescido de forma autenticamente brasileira e era hábil e experiente em se livrar tanto da perseguição dos capitães do mato, depois da polícia estatal e hoje dos evangélicos que continuam os hostilizando.

Não eram problemas como esses da Umbanda que o ioga sofria agora, mas talvez uma ajudinha de dividades que chegaram aqui a mais tempo poderiam ser de grande valia, ao menos foi isso que o prudente Visnu pensou. A pergunta mesmo que Shiva e Brahma queriam fazer era o contrário dos deuses africanos, pois estes brigaram para serem reconhecidos como religião e, de quebra, ainda ganharam o direito de exercer a sua magia freelancer, mas não conseguiram na época por um mercado religioso dominado pelos cristãos. E os iogues agora, o que buscavam? Pasmem! Se queriam ou não continuar com os seus deuses. Sim, pois perceba, se o ioga se declarar laico, científico e/ou filosofia – como alguns iogues pensam -, seus deuses serão esquecidos e deportados do país.

Sei lá - pensavam os deuses ioguicos -, quem sabe um banho de ebó de forma coletiva em todos os iogues brasileiros mais propensos a secularizarem o ioga não os dariam uma visão mais clara que nós - Shiva, Visnu, Brahma e Ganesha - precisamos de menos ciência biomédica e mais manipulação mágica de prana e devoção ritualística em seus altares para que consigamos ajudar nossos devotos a se comunicar “melhor” conosco, não daria conta do recado? Poxa – se perguntavam - por quê alguns espaços sagrados de prática e estudo ioguico no Brasil não possuíam nenhuma imagem deles ao menos? Orra, falta de respeito e consideração, resmungava Ganesha, tentando conter seu pai da ira. Shiva, por seu lado, queria destruir todos, inclusive seu filho que não conseguiu proteger ninguém e, muito menos, trazer sabedoria aos iogues brazucas que só pensavam em levar mais e mais turistas para Rishikesh – sem contar cidades que não os cultuavam, como Machu Pichu e Tókio!? Que raios é o ioga no Brasil!? Logo atrás de Ganesha, Brahma mantrava o Om, sempre que lembrava da marca de cerveja da Ambev com seu nome. Que país mais doido esse que deixamos trazer o ioga. Sempre disse que não deveríamos ter cruzado o Equador.

O ioga brasileiro estava sendo mal administrado, as lideranças ioguicas se esqueceram ou foram engolidos pelas altas somas de dinheiro que giravam em torno dos cursos de formação de mais iogues comerciais. Shiva puto, em nataraja,, já tinha até mesmo feito falir a principal revista especializada em ioga no país. Como a umbanda também estabelecia serviços mágicos, mística forte e cura espiritual, além de seus consulentes não necessitarem afiliar-se, os deuses iogues viram na umbanda o melhor exemplo de sua empreitada de expansão soteriológica em terras latino-americanas dar certo e organizaram essa reunião num terreiro ao qual o pai-de-santo também praticava ioga antes das giras. Dessa forma, os deuses teriam um intermediador - pai-de-santo iogue - mais experiente e “poliglota” religioso, por assim dizer, entre essas duas “linguagens” religiosas místicas e mágicas.

Visnu sempre preocupado, chegou primeiro, todo organizado com uma pauta de assuntos a seguir; enquanto isso, Ganesha lá fora se recusava a entrar pois afinal, era o deus da sabedoria e da proteção e decidiu ficar na porta; nem se deu conta – como pudera -, mas estava parado, como um dois de paus, ao lado da tronqueira dos exus, mas isso eu conto mais tarde. Shiva “chegou chegando” e a Pomba Gira de cara, bateu o olho nele e grit