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4. Método de Yoga Restaurativo de Miila Derzett



Biografia:

Miila Derzett é uma experiente yogini brasileira, psicóloga com foco na área da psicologia social e Esquizoanálise. Além disso, é jornalista, atriz com formações em diferentes métodos de yoga e atravessada pelo budismo engajado de um mestre vietnamita e teóricos da psicologia e antropologia social.


Podemos dizer, entrementes, que foi a partir de 2005, durante um tratamento de câncer, que “se cura” e seu yoga restaurativa vai ganhando forma, como ela mesma afirma em depoimento[1].


Já professora formada, se percebe acamada e os livros do Prof.Hermógenes e seu Yogaterapia criam fissuras que a despertam para outras formas de yoga. Neste mesmo ano (2005), busca formas de prática e filosofia yoguica com menor intensidade física e, além do yogaterapia conhece o trabalho da norte-americana Judith Lasater e seu Relax and Renew; um método de yoga inspirado no mestre Iyengar e na fisioterapia que prima por variações de uma mesma postura (asana) de yoga: a postura do morto ou savasana (DERZETT, 2015, pp.15).


Logo de após de reestabelecida de um tratamento bem sucedido contra o câncer, entre os anos de 2005-2010, se formou como a primeira professora autorizada do yoga de Lasater, a assistindo no curso Relax and Renew (DERZETT, 2016, pp.101). Foi um longo período de amadurecimento e incorporação das técnicas de Lasater, mas também de aprofundamento sobre as repercussões do descanso e do relaxamento no combate ao estresse crônico. Desse caminho, até elaborar o formato do Yoga Restaurativa, passou também pelos estudos com o Prof.Herbert Benson e Gregory Frichione da Universidade de Harvard, em Boston, Estados Unidos[2].


Em paralelo a sua formação em andamento de Psicologia, se matricula como uma espécie de aluna-ouvinte no Instituto Mente e Corpo da referida universidade norte-americana, entre os anos de 2008-2014 (DERZETT, 2016, pp.118). Atualmente é uma das representantes do Protocolo de Redução de Estresse do instituto Mente e Corpo no Brasil, aplicando junto aos usuários do Centro de Assistência Psicossocial (CAPS) em Florianópolis/Brasil, e desenvolveu um sistema próprio para redução do estresse, baseado no yoga que vem desenvolvendo, o Método de Yoga Restaurativo (Ibid., pp.180-188).


Em paralelo, Miila Derzett, desde 2008, vem estabelecendo uma relação mais próxima com a comunidade (sangha) zen-budista do monge vietnamita Thich Nhat Hanh - importante nome do que se denomina como budismo engajado socialmente. Essa aproximação se intensificou nos últimos anos, sobretudo na questão do afeto e criação de laços, que vem sendo incorporada em seu yoga, diferenciando sua abordagem (Cf. DERZETT, 2019). E, até hoje publicou quatro livros: Relaxe! (2015), Super Descanso (2016), Método Restaurativo em aplicação clínica (2018), Abrace! (2019) e Revolução Restaurativa (no prelo).


Influências:

Uma das primeiras e mais fortes inspirações da Profa.Derzett foi, como adiantamos, o Yogaterapia do Prof.Hermógenes que se reflete no empenho em pensar o yoga como psicoterapia e nos enlaces com a ciência, sobretudo durante o período do câncer na sua vida. Aqui, novamente, a relação da cura e espiritualidade é fortemente inspirado no movimento nova era. Outra forte referência, como já expomos, são as técnicas yoguicas da norte-americana Judith Lasater, autora do livro Relax and Renew. Na primeira fase do desenvolvimento do yoga de Derzett, é mais marcante a proposta de Lasater, sobretudo, onde apresenta uma prática de yoga fora do escopo do senso-comum de alongamento e força; se encaminhando, na verdade, ao oposto disso.


A partir disso, um dos grandes pontos de virada, além da sua experiência do cancer, que a aproxima dos yogas menos musculares, por assim dizer, está a experiência de aplicar seu yoga em grupos vulneráveis. Dessa vivência do descanso, o não-movimento do yoga, foi compreendendo a força psicoterapêutica e as respostas dos pacientes do Centro de Assistência Psicossocial no qual estagiou durante sua graduação em Psicologia. Houve, a partir desse processo lento e gradual de amadurecimento, uma busca natural pelos estudos acadêmicos dos estados psicofísicos que o relaxamento profundo parecia acarretar. Neste ponto, as pesquisas da equipe de Benson e Frichione, parece a ter ajudado a compreender os efeitos no corpo e na mente a grupos que vulneráveis e periféricos que não tinham conseguido a ter acesso ao yoga.


Profa. Derzett chegou a cursar como aluna-ouvinte em diversas disciplinas da Antropologia e da Psicologia Social, na universidade da sua cidade. Portanto, autores como Deleuze, Guatarri, Pichon-Rivieri e outros ampliam a aproximação do seu Método Restaurativo de Yoga com as relações sociais (ou sua diminuição em sociedades capitalistas), que podem ser percebidos nos livros e artigos que publica. Mas, é a partir de um contato mais íntimo com o Budismo engajado socialmente, do monge zen vietnamita Thich Nhat Hanh, que a Profa. Miila Derzett envereda para a inclusão do diálogo e do afeto que, segundo ela, o yoga ainda estava longe de se permitir (DERZETT, 2019, pp. 53-54).

Atualmente não leciona mais aulas regulares, mas trabalha exclusivamente na formação de novos professores do método de yoga que criou, viajando pelo Brasil e Europa divulgando seu trabalho.


Repercussões e Legado:

É difícil pensar em repercussões ou legado de trabalhos que estão em ainda andamento. Ao contrário do Yogaterapia de Hermógenes e o Swásthya-Yôga de Luiz Derose que possuem mais de 50 anos no país, ou Janderson Prem Baba que estabeleceu sua própria instituição religiosa com diversos discípulos famosos, o Yoga Restaurativa da Profa.Derzett, assim como de nossa próxima personagem, são muito recentes, entrementes, já se ouve ecos.


O mais importante deles (que reverbera também com a personagem a seguir) é o aspecto de abrangência e preocupação social para grupos vulneráveis. O ineditismo aqui não reside na ideia de ser mais um “projeto social” que visa levar yoga à “comunidades carentes” do Brasil – isso já ocorreu e acontece bastante no país. Mas aqui é que está a diferença. O Yoga Restaurativa da Profa. Derzett não se apresenta a um público que necessita ser preenchido com o saber do yoga que lhes falta, mas dialogado junto.


Sem dúvidas, o yoga no Brasil é predominantemente branco, jovem e classe média e, até hoje, as experiências de yoga em favelas, hospitais, sistema único de saúde (SUS)[3], escolas periféricas ou em qualquer outro espaço público e de abrangência social, são de apresentar um yoga, invariavelmente, modelar e quase nunca de troca ou diálogo. Em outras palavras, é um professor formado ensinando a um leigo, quase como um não-iniciado se iniciando.


Só para exemplificar a mudança estrutural que essa abordagem yoguica de Miila Derzett provoca, podemos citar um extenso trabalho que analisou o impacto do yoga como prática não-convencional do SUS no Brasil. Nas considerações finais a autora, depois de elencar os resultados das entrevistas com professores de yoga neste modelo, como dieta vegetariana, aumento de vitalidade pelos respiratórios, consciência corporal, ritmo e autocontrole (musculares) pelos asanas e abstenção do tabagismo, alcoolismo e drogadição “que tem consequências daninhas para o corpo[4], mas não conseguiu identificar nenhuma contribuição social possível especificada pelos 18 professores-líderes de yoga entrevistados (SIEGEL, 2010, pp.187-188).


Se há algo que se inverte aqui, é o âmbito social na troca com esses públicos (sociais C e D), ou seja, a absoluta falta de diálogo. Por influência de experiência na psicologia social, cada processo ritual coletivo do método de yoga restaurativo tudo se abre ao conhecimento e um dos legados que se pode perceber, é a inclusão (ou o retorno?) do diálogo nas aulas de yoga. O yoga da Profa.Miila Derzett, inclui o tempo, o toque, a afetividade e o diálogo como base fundamental de seu método, pois segundo ela, formam as colunas para se atingir a dimensão e abrangência social que o yoga possui em potencial mas estava sendo negligenciado (DERZETT, 2016, pp176-179).


Assim, podemos pensar em duas repercussões, mas que outros trabalhos deverão corroborar:


1. A inversão do papel de professor de yoga de Instrutor (de técnicas, sobretudo, mas dos conceitos da filosofia yoguica), como vimos na pesquisa sobre o SUS e os “líderes de yoga” no Brasil, para o de Educador, no sentido pedagógico;


2. A inclusão da dimensão afetiva, mas sobretudo, o diálogo, ao final das práticas yoguicas.


Pode parecer pouco, sobretudo aos menos acostumados ao campo social do yoga, mas esse dois itens é uma revolução em andamento ocorrendo, como discutiremos com mais propriedade em conclusões.

[1] Cf. https://soundcloud.com/miila-derzett/como-o-cancer-me-curou-cap-ii-o-que-voce-quer-fazer-de-sua-vida, acessado 02/12/2020 [2] Herbert Benson é um dos pioneiros em pesquisas sobre a resposta do relaxamento, meditação e yoga. [3] O SUS, é o serviço social brasileiro que oferece cuidados médicos, psicológicos e odontológicos gratuitos a toda população do país que, começou também, a oferecer aulas de yoga e demais práticas médica integrativas e complementares. [4] Itálico meu, para sublinhar a dimensão exclusivamente física.

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