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5. Yoga Marginal de Tainá Antonio


Biografia:


A Profa. Tainá Antonio é uma jovem negra nascida e criada na baixada fluminense do Rio de Janeiro – zona metropolitana e afastada da zona sul carioca, região nobre da cidade. Desde cedo percebe, como ela mesmo diz em algumas entrevistas, não havia negros nos estúdios de yoga por onde frequentava. Esse fato, associado a miséria brasileira, permeia a construção (em andamento) do seu próprio método de yoga, o Yoga Marginal, caracterizado, assim como no Yoga Restaurativa de nossa personagem anterior, de uma forte preocupação na inclusão da vida no yoga e não o oposto.


Profa. Tainá se forma como professora no curso Yoga e Educação numa escola de yoga localizada dentro bairro privilegiado e mais abastado da zona sul carioca/Rio de Janeiro. Esse contraste, entre o meio social onde nasceu, cresceu e vive ainda hoje e onde o yoga no Brasil, predominantemente, se expandiu e popularizou.


Essas circunstâncias de diferenças sociais, refletidas também no campo espiritual do yoga brasileiro, a faz perceber a própria sociedade marginalizada em que vive; e o yoga, ao invés de unir (lit. significado em sânscrito da palavra yoga), vem apartando indivíduos e sujeitando-os a modos de viver capitalista, colonial e formador de corpos dóceis e não libertos (lit. o foco do yoga, kaivalya, ou libertação). Ela mesma comenta como se sentiu quando começou a perceber o distanciamento social que os yogas promoviam no Brasil:

Era minha função estar lá dentro, aproveitar um pouco desse privilégio e depois retornar, de uma outra maneira, com uma outra metodologia, para a Baixada Fluminense, para as periferias. A ideia do Yoga Marginal surge nisso, de ressignificar os espaços de Yoga, os padrões de cor e o estereótipo que a gente cria das pessoas que fazem Yoga, que normalmente são pessoas brancas e ricas. Quando eu coloco o Yoga ao lada da palavra “marginal”, é um Yoga que parte das margens para as margens.[1]

Anos mais tarde de formada em yoga, e atuando como professora de yoga nas comunidades do Rio de Janeiro, conhece o Kemetic Yoga, um método de yoga estadunidense que encontra no Egito as origens ancestrais do yoga – antes da Índia, geografia tida como raiz do yoga. Atualmente, continua trabalhando com jovens moradores negros das comunidades periféricas do Rio de Janeiro, mas sobretudo, no durante e pós-pandemia em aulas ao vivo online por mídias sociais.


Influências:

Podemos pensar em três grandes influências ao Yoga Marginal (em desenvolvimento) da Profa. Tainá:


1. O poder do yoga como veículo de conscientização social e pedagógico;


2. O Kemetic Yoga, idealizado pelo norte-americano Elvrid C. Lawrence (Yiser Ra Hotep), que inaugura uma inversão histórica da originalidade yoguica para a África e não Índia; teoria ainda controversa nos meios acadêmicos, mas que ganha adeptos por fortalecer a identidade negra e todo um discurso decolonial para dentro do campo social espiritual yoguico;


3. A própria cultura de gueto brasileira, sobretudo, do funk carioca e do axé baiano.


O poder sociopedagógico que o Yoga Marginal vem revelando, assim como o Yoga Restaurativa da personagem anterior, um papel do yoga no Brasil que até ainda não havíamos presenciado. Mas com a Profa. Tainá essa questão se intensifica, pois é a primeira vez (ou ao menos com maior contundência) que uma moradora de zonas urbanas periféricas, e não um professor de yoga outsider, voluntariosamente, vem trazer o olhar do yoga aos carentes; aqui não, é uma insider que se apropria realmente do yoga para inventar mais um yoga brasileiro, mas agora aos marginalizados.

Esse nome foi basicamente pra caracterizar a diferença desse yoga para o outro, que é o yoga que a gente conhece do mercado. As pessoas convivem muito bem com o yoga em espaços elitizados porque já é natural faz muito tempo. Quando a gente digita yoga no Google vemos as mesmas fotos, pessoas brancas, praticando com uma roupa específica, em um espaço extremamente limpo e silencioso, de natureza intocada, tapetes caríssimos.


Então um yoga é esse e ele não me atinge, não é pra mim. E muitas pessoas de onde eu venho, da Baixada Fluminense, poderiam ter a mesma ideia. Então o "Yoga Marginal" foi pra caracterizar que existe um yoga que está à margem para essas pessoas que estão à margem.


A ideia do "Yoga Marginal" é ultrapassar essas margens que podem ser visíveis ou não. Pode ser visível por uma parede ou inviável a partir do momento que na sala não existe ninguém igual a gente. A ideia é caracterizar para as pessoas se sentirem mais atingidas por esse lugar que é delas também.[2]


A chegada do yoga que se afirma com raízes afrodescendente, o Kemetic Yoga, reforça esse background de legitimação do periférico ao campo social yoguico brasileiro, sobretudo a nossa personagem Tainá e seu Yoga Marginal. E, perceba, realmente não importa aqui, se há ou não respaldo histórico que autentique a veracidade de um yoga egípcio de fato. O relevante aqui, está no empoderamento e legitimação (autoridade inclusive) que o Kemetic Yoga trouxe ao yoga da Profa. Tainá a uma parcela negra de brasileiros, a maioria do país inclusive, em praticar o seu yoga e com elementos da sua negritude.


Na trama das influências que agenciam o Yoga Marginal, estão também as apropriações vem tecendo com o funk carioca e do axé baiano, que ajudam a moldar este yoga com uma verdadeira identificação com a cultura periférica do Brasil.


As danças e o movimento dos negros africanos escravizados se tornaram base para os ritmos dos tempos atuais, por meio da recriação e da transformação a partir do contato com outros povos. O corpo, no funk, se envolve com a música comandada pela batida e, como uma brincadeira, vive intensamente cada movimento (…) isso agencia corpos não determinados. O movimento do corpo no funk apresenta conexão com o ritmo, que é envolvente e estimulante, fortalecendo e firmando os valores identitários.


As questões identitárias do funkeiro na Baixada Fluminense, em específico, “refletem o mundo pós-moderno”, pois sua identidade sujeitada a docilização de corpos yoguicos com seus valores e padrões hinduístas, tradicionamente, a herança de quase todos os yogues do mundo moderno; aqui, no Yoga Marginal, resiste e não se deixa submeter as representações dos yogas dominantes; “é possível a ele [o funkeiro, representante do hip hop brasileiro] possuir identidades diversas em momentos diferentes, que atendam as suas [próprias] expectativas” (NOGUEIRA, 2013)[3].


Pois, semelhantemente ao que Janderson Olveira Prem Baba realizou com o swásthyá-yôga deroseano, psicoterapia nova era e o uso ritual da ayahuasca no Santo Daime; o Yoga Marginal aproxima-se do Kemetic Yoga e a religiosidade afrobrasileira, psicopedagogia e o uso ritual do gingado singular dos quadris dos bailes populares dos morros cariocas e do carnaval de rua baiano, para denominar de sarrayoga: uma técnica para liberação da energia sutil (transfisiológicas) kundalini.


Repercussões e Legado:


Mais uma vez na história dos yogas brasileiros, atravessamentos outros, cordiais e intolerantes, desterritorializam os yogas, não só invertendo um yoga das castas indianas para incorporá-lo a corpos negros e periféricos, mas também (ou por causa) se apropria da ginga brasileira, entrementes, mais do que certo horror das elites assistindo os “sagrados corpos” em posturas yoguicas se requebrando nos “profanes corpos” dos bailes funk da baixada fluminense e dos sambas-de-roda do axé baiano aos tapetes de yoga, está o deslocamento que o Yoga Marginal provoca no yoga entre os brasileiros. Profa. Tainá, provocativamente, denomina de sarrayoga esse quebrado dos quadris, em clara alusão o intercurso sexual aos mais desavisados e moralistas do campo yoga nacional.


Para o público distante da cultura brasileira, é importante ressaltar, que ambos estilos de música são considerados menores, sob a perspectiva erudita da música brasileira e da academia em geral. Um estudo sobre o funk carioca nos ajudar a compreender melhor o tamanho da heresia que a Profa. Tainá empreende quando aproxima a cultura africana do Kemetic Yoga e o funk carioca.

Em uma entrevista dia desses eu disse que o sarrayoga é um orgulho pessoal muito grande. A brincadeira cheia de fundamento, ciência e ancestralidade. E Teorizar sobre sarrayoga (por mais intelectual que eu seja, e eu sou) não faz jus à potencia que nosso corpo e nossa memória carrega. Que meu quadril seja. Viva sarrayoga e à batida preta sempre. Yoga e rebolado ativando a kundalini na mesmo proporção de cura.

A técnica do sarrayoga, extraído do funk carioca e combinado ao axé baiano, em que se combina movimentos rápidos do quadril em posturas específicas do yoga, visando a liberação da energia kundalini. Assim como os yogis indianos medievalistas o indicavam por outras técnicas yoguicas, mas da geografia indiana e religiosidade hinduísta medievalista (cf. SIMÕES, 2011, pp.43-44); hoje, jovens negros e periféricos do Brasil, visam o mesmo intento, mas por agencimentos singulares pertencentes a cartografia da cultura em que vivem.


Entrementes, muito mais do que esses elementos, aparentemente pitorescos, "folclóricos" e exóticos da “cultura brasileira” e/ou deturpações da “ancestralidade sagrada” dos yogas indianos; Profa. Tainá e o seu Yoga Marginal, revela, de forma original, uma abordagem de yoga apropriada pela população da periferia brasileira que só conhecia yoga das telenovelas, revistas elitizadas e espaços de yoga em bairros privilegiados dos grandes centros urbanos do país.


O Yoga Marginal, representa uma mulher negra e periférica-insider pensando o yoga no Brasil com os olhos, corpo e espírito de uma população, até então, invisível ao campo yoga ou, como dissertamos na subseção anterior, convidados a se adequarem aos yogas que lhes apresentam já prontos e acabados, invarialmente, por homens brancos alheios ao universo social em que se propunham divulgar o yoga deles. No caso do Yoga Marginal, está tudo em devir e sendo pensando em conjunto.

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