Circulação Trans-Sectária do Yoga
- PhD. Roberto Simões

- 4 de jun.
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A noção de circulação trans-sectária do yoga é talvez uma das contribuições mais importantes que emergem das pesquisas de Jason Birch e de Giacomella Orofino para a história do yoga medieval. Embora ambos trabalhem com materiais diferentes (Birch sobretudo com manuscritos sânscritos de haṭhayoga e Orofino com fontes tibetanas budistas) suas pesquisas convergem para uma crítica de uma narrativa muito difundida: a ideia de que cada tradição religiosa possuía um yoga próprio, relativamente fechado e internamente coerente.
O que aparece nos manuscritos medievais é quase o contrário.
Quando olhamos retrospectivamente, tendemos a imaginar blocos estáveis: "o yoga hindu", "o yoga budista", "o yoga nātha", "o yoga tântrico". Porém, entre os séculos IX e XIV, as fronteiras eram muito mais porosas. Técnicas, textos, conceitos e especialistas circulavam entre comunidades diferentes. Um asceta podia receber iniciação śaiva, estudar com budistas, utilizar técnicas associadas aos nāthas e compartilhar espaços rituais com grupos que hoje seriam classificados como pertencentes a religiões distintas.
Birch mostrou isso de maneira particularmente forte através de seus estudos sobre o Amṛtasiddhi. Durante muito tempo acreditou-se que o haṭhayoga teria surgido dentro de linhagens nātha ou śaivas. O problema é que o Amṛtasiddhi, provavelmente um dos mais antigos textos conhecidos a apresentar elementos característicos do haṭhayoga, parece ter origem budista vajrayāna.
Isso produz uma dificuldade historiográfica interessante.
As técnicas que mais tarde seriam consideradas "clássicas" do haṭhayoga (retenção do bindu, manipulação dos ventos vitais, controle dos canais sutis, reversão de processos corporais) aparecem antes em um ambiente budista do que em muitos textos haṭha posteriores. O que isso sugere não é que o haṭhayoga seja "budista", mas que as técnicas não pertenciam originalmente a uma única tradição.
Elas circulavam.
Orofino radicaliza ainda mais essa percepção ao estudar textos tibetanos relacionados ao Amṛtasiddhi e aos sistemas de yantra yoga ('khrul 'khor). O que surge é um universo em que exercícios corporais complexos, manipulações respiratórias, visualizações e práticas energéticas atravessavam redes de transmissão que conectavam Índia e Tibete.
Em vez de uma genealogia linear, ou seja, "primeiro o hinduísmo, depois o budismo" ou o contrário, encontramos uma ecologia de trocas. A palavra "trans-sectário" torna-se importante justamente porque evita duas ilusões.
A primeira é a ilusão nacionalista, muito comum em certos discursos contemporâneos, segundo a qual o yoga teria uma origem puramente hindu, homogênea e preservada sem alterações ao longo dos séculos. A segunda é a ilusão inversa, segundo a qual seria possível identificar um único grupo como inventor do yoga físico. Nem Birch nem Orofino parecem caminhar nessa direção.
O que emerge de seus trabalhos é um cenário mais próximo de um mercado medieval de tecnologias corporais e contemplativas. Técnicas viajavam mais facilmente que doutrinas. Um método respiratório podia ser adotado por budistas, reinterpretado por śaivas e posteriormente incorporado pelos nāthas sem que isso fosse percebido como uma contradição. Nesse sentido, talvez seja mais adequado falar em uma "cultura do yoga" do que em um "yoga de uma religião".
As práticas funcionavam como uma espécie de língua franca ascética.
Isso tem consequências importantes para a compreensão do yoga moderno, pois grande parte das narrativas contemporâneas tenta localizar uma essência originária do yoga. Mas os trabalhos de Birch e Orofino sugerem algo diferente: o yoga não nasceu puro para depois ser misturado; ele nasceu já como resultado de misturas, empréstimos, adaptações e traduções culturais.
Há aqui uma aproximação interessante com certas formulações antropológicas de Claude Lévi-Strauss e de Eduardo Viveiros de Castro. O que persiste não são identidades substanciais, mas relações e transformações. As práticas sobrevivem justamente porque podem ser apropriadas por coletivos diferentes.
Talvez a conclusão mais provocativa que se pode extrair de Birch e Orofino seja esta: o haṭhayoga não parece ter sido originalmente a expressão de uma ortodoxia religiosa específica. Ele surge antes como uma zona de contato entre tradições. Um espaço de circulação de técnicas corporais, respiratórias e contemplativas que atravessava fronteiras sectárias e frequentemente tornava essas fronteiras secundárias diante da busca comum por transformação do corpo, longevidade, poder ritual e libertação.
Essa hipótese tem um efeito desestabilizador sobre muitas disputas atuais de pertencimento. Se Birch e Orofino estiverem corretos, a pergunta "a quem pertence o yoga?" talvez seja menos histórica do que política. Historicamente, tudo indica que o yoga pertenceu, desde muito cedo, justamente aos espaços onde diferentes tradições se encontravam, disputavam, traduziam e compartilhavam práticas umas com as outras.
Referências Bibliográficas
BIRCH, J. The Meaning of Haṭha in Early Haṭhayoga. Journal of the American Oriental Society, Ann Arbor, v. 131, n. 4, p. 527–554, 2011.
BIRCH, J. The Amṛtasiddhi and the Origins of Haṭhayoga. In: MALLINSON, James; SINGLETON, M (org.). Roots of Yoga. London: Penguin Books, 2017. p. 100-111.
BIRCH, J. et al. Yoga in Transformation: Historical and Contemporary Perspectives. Vienna: Vienna University Press, 2018.
OROFINO, G. The Dawn of Physical Yoga: Dispelling the Hindrances of Immortality. Kathmandu: Vajra Publications, 2025.
OROFINO, Giacomella. The Dawn of Physical Yoga: Dispelling the Hindrances of Immortality. Debate com Jason Birch. [Vídeo]. YouTube, 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6lR2jJF-D2I. Acesso em: 6 ago. 2026.




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