Diálogos com tradicionalistas

Atualizado: Nov 21

Olá Sr(a). Yogi(ni) X, Muito obrigado por me escrever.  . Tens todo o direito de solicitar que sua entrevista para meu doutoramento não seja exibida em YT e SC, e já os removi e agradeço muito que tenha participado de minha pesquisa.  . Entendo também o sr não concordar com os meus resultados de pesquisa, tens todo o direito de discordar, afinal, a ciência comporta isso tanto do público leigo quanto acadêmico. Entrementes, quanto ao método, do que se refere? O meu método de pesquisa qualitativo?  . Mas enfim, também não importa muito pois o doutorado foi revisto por meus pares e está publicado tanto em revistas acadêmicas quanto em livro e já debatido em diversos congressos e mesas redondas. Ainda assim, fico sempre a disposição para se assim o desejar, dialogar com o sr sobre algum ponto que deseja maior esclarecimento.  . Também percebo que o vosso tom é em relação a uma desavença do sr com um antigo professor em que teceu intensa relação com o sr no passado e isso acontece quase sempre quando introduzimos em uma pesquisa acadêmica objetos de investigação de um mesmo campo que divergem entre si, mas eu, como pesquisador, preciso buscar me manter isento de tais desacordos entre os agentes que disputam legitimidade pela "verdade" do Yoga no Brasil e em outros campos sociais em que o yoga atua modernamente. . Agora, minha resposta a vossa colocação pública no canal do YT se refere mais a minha curiosidade quanto a última parte de vossa descrição de desacordo.  . Primeiro, nunca coloquei o Vedanta, como filosofia (ou instituição espiritual) associada a "direita", mas há alguns agentes do campo social brasileiro yoguico como conservadores e ortodoxos ligados a uma vertente vedantina do RJ. O que soa deveras interessante é associar a vossa fala aqui fazendo eco a um certo posicionamento afirmativo de ortodoxia, quando diz: "um Yoga apócrifo criado no Brasil tem o mesmo valor que a Bṛhadāraṇyakopaniṣad". Esta é uma posição conservadora, e isso, reitero, não é um problema.  . E pq conservadora, pois é inegável pressupor que um yogi(ni) que afirma ser um yoga ou não mais verdadeiro (ou de mais valor) do que outro. É uma posição que se coloca como detentor(a) "imaculado(a)" de que sabe o que pode ou não ser denominado como tal prática verdadeira de yoga; e, perceba, não discuto isso. O sr é um agente atuante e referência no campo social e espiritual do yoga brasileiro e tem suas posições. Eu, como cientista, não vou negá-la ou afirmá-la, pois estamos em campos de conhecimento diferentes. Não atuo no seu campo.  . Mas no meu campo, o científico (e isso de forma alguma significa mais "verdadeiro", muito pelo contrário, pois se há um campo imutável em verdades é o do sr, o espiritual).  . E segundo ponto, quando diz: "Você está fazendo o jogo dos corruptos do Yoga que lucram com a espiritualidade. Eles devem estar adorando", o sr está absolutamente obtuso em tal posicionamento e colorindo o cenário apenas por vossas desavenças passadas e não compreendendo o todo. Se um yoga é apócrifo ou advém de uma tradição, isso foi absolutamente irrelevante para minha pesquisa, pois minha pergunta era outra. Eu não sou historiador do yoga e nunca me propus a isso. Se ler meu livro e tese verá que a investigação é sobre os klesas e não quem é mais verdade do que outro. Essas contendas históricas do yoga brasileiro realmente não me interessou.  . Vossa indignação é, talvez, ter sido disposto como um conservador, ao lado de vossa desavença, mas de forma alguma faço jogo com ninguém, muito pelo contrário. Não estou nem do vosso lado ou de outro. É até engraçado, pois o "outro lado" (que é o oposto do que o sr encontra o "mal" talvez, sendo, por correspondência, o sr, o "bem"?) também não concorda com minha pesquisa, e minha resposta foi a mesma que escrevo ao sr: sou apenas um cientista que li o campo social e espiritual do yoga brasileiro e fiz um recorte com os instrumentos da ciência e não com os vossos, do campo espiritual.  . Eu, especificamente, Roberto Simões, não lucro com nada do yoga. Produzo conhecimento científico, sou professor universitário e empresário em um ramo absolutamente afastado do yoga. Se há um "lado" do yoga corrupto no Brasil que lucra com espiritualidade e se beneficia com uma tese de doutorado perdida nos calabouços da biblioteca da PUC-SP que lança luz sobre a transplantação do yoga na sociedade brasileira e possíveis construções de novos mitos modernos entre os brasileiros (foco do meu humilde trabalho), eles são realmente gênios do marketing. E se me apontar do que se refere, ficaria grato por vossa colaboração. . Reitero para finalizar, eu não associo o Vedanta a nada, e muito menos o sr é "O" Vedanta, "O" yogi, "A" tradição ou qualquer representatividade de alguma coisa sobre o yoga ou outro indivíduo. No que se que se refere a nós cientistas que publicamos e investigamos o microuniverso yoguico nacional, o sr é apenas mais um participante (durante um tempo) do campo social yoguico brasileiro, mas há muitos outros com tanta ou menor relevância. . Ficarei sempre a disposição para dialogar com o sr e peço desculpas se o ofendi em algum momento, com todo respeito nunca busquei tal empreitada e nem investiria tanto para tal evento, pois não é minha preocupação e por que o faria?  . E sim, também discordo profundamente com o sr em diversos pontos de nossa entrevista e de vossas posições como yogi, mas sempre buscarei tratar o sr com todo o respeito possível e nunca iria escrever ao público, via mídias sociais, para remoção ou não de algum material a meu respeito. Mas lhe escreveria em particular. Mas esse sou eu. . Se era o contato que lhe faltava, agora o possui e estarei sempre a disposição. Pode me escrever em particular quando o desejar ou não. Se, pelo contrário, estava esperando uma espécie de "carta aberta" em resposta e mais e mais contendas inúteis ao universo yoguico do brasileiro - já superando um passado inglório e não tão remoto - recheado com tantas discussões midiáticas (algumas até que fiz parte e me arrependo). Nem o sr ou eu temos mais idade para tal perda de tempo. Cordialmente, Roberto Simões PS: Se há algo em que concordamos sem dúvidas, é com essa "direita genocida, patética, racista e burguesa que está aboletada no poder".


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Email do(a) Yogi(ni) Sr(a).X:

Não concordo com o que você fala sobre a história do Yoga no Brasil, nem sobre a minha trajetória ou a de outros colegas. Não concordo com o seu método. Para você, um Yoga apócrifo criado no Brasil tem o mesmo valor que a Bṛhadāraṇyakopaniṣad. Acho injusto e equivocado você associar o Vedānta com essa direita genocida, patética, racista e burguesa que está aboletada no poder. Você está fazendo o jogo dos corruptos do Yoga que lucram com a espiritualidade. Eles devem estar adorando. Obrigado(a). -----------------------------------------------------------------------------------------------------

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