Hermógenes e DeRose: fantasias, amor e gozo no imaginário do yoga brasileiro
- PhD. Roberto Simões

- 10 de fev.
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Resumo
Este ensaio propõe um passeio psicanalítico ao campo do yoga no Brasil a partir de duas figuras centrais de sua história pré-digital: o Professor José Hermógenes de Andrade Filho e o Mestre DeRose. Defende-se a hipótese de que ambos operam menos como indivíduos históricos e mais como suportes fantasmáticos que organizaram o desejo do praticante brasileiro. Argumenta-se que Hermógenes encarna a fantasia do amor (quase)religioso ou um yogar como promessa de reconciliação e sentido em um Outro mundo; enquanto DeRose sustenta a fantasia do gozo fálico-capitalista, centrada em desempenho, técnica e controle. De mãos dadas com a psicanálise, com ênfase em O triunfo da religião, ensaiamos demonstrar como essas duas posições, embora distintas, convergem na tentativa de tamponar o real da falta. Em contraste, propõe-se a recuperação de um terceiro discurso do yoga, anterior à moralização religiosa e à tecnificação moderna: um yogar como arte da existência, sustentado pelo vazio e pela falta, exemplificado nas figuras dos siddhas e/ou "yogues feiticistas" ou siddhizeiros: aqueles que visam siddhis e não moksa. Conclui-se que possa co-existir no campo yoguico brasileiro, além das ofertas de respostas terapêuticas ou performáticas, uma outra (híbrida e mestiça) que tenha sustentação de suas práticas, buscando habitar o mal-estar sem metafísica compensatória.
Palavras-chave: Yoga no Brasil; Psicanálise; Fantasia; Amor; Gozo; Siddhas.
Introdução
Antes de Hermógenes e DeRose, antes mesmo da consolidação do yoga como religião, filosofia, terapeutica nova era ou técnica disciplinar do corpo, há um yogar mais antigo, subterrâneo e estruturalmente esquecido: o "yogar dos siddhas", feiticeiros, alquimistas e marginais à ordem védica. Trata-se de uma forma de prática e discurso do yoga anterior à sua hegemonização bramânica, marcada não pela salvação, pela moral ou performance neoliberal, mas pela experimentação do corpo como campo de forças, pelo risco, pela transgressão e sustentação dos siddhis ou "mediunidade".
A figura do siddha, tal como reconstruída por Mallinson (2017) e Gordon White (2009), permite compreender Hermógenes e DeRose não como polos opostos, mas respostas modernas a um mesmo ponto de angústia: um yogar que não oferece garantias simbólicas. O yogue-siddha não promete salvação, nem eficiência mas opera no risco, no excesso e na indeterminação. Hermógenes transforma essa indeterminação em amor universal e reconciliação espiritual, reinscrevendo o yoga na função religiosa descrita por Freud (1930/1996). DeRose, por sua vez, captura a potência corporal e a excepcionalidade do yogue numa lógica fálica de técnica, disciplina e desempenho, afinada com o capitalismo tardio. Em ambos os casos, o yogar feiticeiro é mantido como fonte, mas recalcado como discurso.
Estudos históricos e filológicos contemporâneos têm mostrado que grande parte das práticas que hoje reconhecemos como “yoga” emergem de contextos não védicos, frequentemente aborígenes, xamânicos e anti-institucionais. James Mallinson (2011; 2017) demonstra que muitos dos primeiros yogues descritos em fontes sânscritas e vernáculas eram ascetas errantes, associados a poderes ambíguos, práticas corporais extremas e técnicas de feitiçaria, mais próximos dos siddhas do que dos brâmanes. David Gordon White (1996; 2009) reforça essa leitura ao mostrar que o yoga, em sua genealogia mais antiga, estava profundamente ligado à magia, à alquimia sexual e à manipulação de forças invisíveis, e não a uma ética de purificação ou libertação espiritual.
Mircea Eliade, no capítulo 8 de Yoga: Imortalidade e Liberdade, descreve aquilo que chama de “yoga aborígene”, um conjunto de práticas corporais e extáticas anteriores à sistematização filosófica védica, nas quais o corpo não é obstáculo à libertação, mas o próprio lugar do acontecimento do sagrado. Esse yoga não busca um Outro mundo nem uma redenção metafísica, mas opera no limiar entre vida e morte, forma e informe, sentido e excesso. É um yoga sem garantia simbólica, sustentado pela falta e pela experiência direta do real.
A hipótese central deste artigo é que tanto o yoga-religião do amor, exemplificado por Hermógenes, quanto o yoga-técnico do gozo fálico e do desempenho, representado por DeRose, são formas modernas de recalcamento desse yogar-feiticeiro. Ambos se alimentam, paradoxalmente, dessa fonte arcaica (o poder do corpo, a promessa de transformação, a exceção ou siddhis) mas a tamponam por meio de fantasias distintas: no primeiro caso, a fantasia do amor universal e da harmonia espiritual; no segundo, a fantasia do domínio técnico, da performance e do gozo regulado.
Ao retomar a figura dos siddhas como operador conceitual e histórico, este artigo propõe deslocar o debate sobre o yoga no Brasil de uma oposição entre religião e técnica para uma questão mais fundamental: o esquecimento estrutural do yoga como arte do vazio, da falta e da não-sutura. É nesse ponto que a articulação com Freud e Lacan, especialmente com a noção lacaniana do “Triunfo da Religião”, torna-se decisiva para compreender as fantasias que ainda organizam a alma do yogar brasileiro contemporâneo.
Hipótese e objetivos
A hipótese central deste trabalho é que Hermógenes e DeRose operam, no inconsciente do campo yoguico brasileiro, como suportes de duas fantasias fundamentais: (a) Hermógenes como figura do amor que cura, onde o yoga aparece como via de acolhimento, sentido e reparação do sofrimento; e (b) DeRose como figura do gozo disciplinado, onde o yoga se apresenta como técnica de potência, controle e exceção.
O objetivo principal é demonstrar como essas fantasias estruturaram o campo do yoga no Brasil e continuam operando, ainda que de forma fragmentada, no contexto contemporâneo. Como objetivos secundários, busca-se:
Analisar falas e escritos de ambos os mestres que sustentam essas posições fantasmáticas;
Articular tais posições com conceitos freudianos e lacanianos, especialmente amor, gozo, fantasia e religião;
Investigar o que mudou e o que permanece no yoga brasileiro após a massificação digital e a pandemia;
Apontar impasses e aberturas para o futuro do campo.
Metodologia
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica e interpretativa. Foram mobilizados, conforme metodologia consagrada em estudos sobre yoga moderno e religião (DE MICHELIS, 2004; SINGLETON, 2010; SARBACKER, 2005), autores que permitem situar Hermógenes e DeRose no interior do processo global de modernização, medicalização e disciplinarização do yoga, evitando leituras isoladas ou excepcionalistas do caso brasileiro.
Textos autobiográficos e obras de divulgação escritas por Hermógenes e DeRose;
Produções acadêmicas sobre a história do yoga moderno e sua recepção no Brasil;
Textos fundamentais da psicanálise freudiana e lacaniana, com ênfase em religião, fantasia e gozo;
Leitura discursiva das posições subjetivas oferecidas por cada mestre.
Não se trata de uma análise empírica estatística, mas de uma investigação conceitual e clínica do discurso, entendendo o yoga como prática cultural e simbólica.
Discussão
Hermógenes e a fantasia do amor
Hermógenes frequentemente descreveu o yoga como um caminho de reencontro consigo mesmo, de pacificação interior e de harmonização do corpo e da alma (ANDRADE FILHO, 1976, 1980). Em Yoga para nervosos, o autor afirma que “o yoga não é ginástica, é um caminho de reconciliação do homem consigo mesmo” (ANDRADE FILHO, 1976, p. 18), indicando explicitamente a função amorosa e integradora atribuída à prática. Em Autoperfeição com Hatha Yoga, escreve ainda que “o sofrimento é um mestre severo, mas profundamente educativo” (ANDRADE FILHO, 1980, p. 42), reforçando a leitura do mal-estar como passível de sentido e reparação. Nesses textos, o yoga aparece explicitamente como resposta amorosa ao sofrimento, no qual a dor corporal e psíquica é resignificada como oportunidade de integração e sentido, sustentando a fantasia de um Outro cuidador capaz de acolher e reparar o sujeito. Em suas obras, é recorrente a ideia de que a doença e o sofrimento são convites à transformação e ao autoconhecimento, e que o yoga atua como força amorosa capaz de restaurar a unidade perdida do sujeito.
Essa posição encontra ressonância direta no que Freud descreveu como a função consoladora da religião (FREUD, 1927/1996), segundo a qual sistemas simbólicos oferecem sentido e amparo frente ao desamparo estrutural do sujeito, operando como resposta imaginária ao real do sofrimento. e, mais tarde, no que Lacan identifica como a oferta de sentido diante do real do sofrimento. O amor, aqui, funciona como véu: ele promete que nada é em vão, que toda dor pode ser integrada a uma narrativa de crescimento.
No imaginário do yoga brasileiro, Hermógenes sustentaria a fantasia de um Outro benevolente (seja o corpo, o mestre ou o próprio yoga) que cuida, acolhe e protege. Trata-se de um amor que busca evitar o confronto com a falta, substituindo-o por sentido.
DeRose e a fantasia do gozo
Em contraste, DeRose construiu um discurso centrado na técnica, na disciplina e na excelência (DE ROSE, 1982, 2000). Em Métodos de Yôga, sustenta que “o progresso no yoga depende exclusivamente da correção do método e da disciplina do praticante” (DE ROSE, 1982, p. 27). Já no Tratado de Yôga, afirma que “não há evolução possível sem excelência técnica e controle rigoroso do corpo e da mente” (DE ROSE, 2000, p. 91), o que pode evidenciar a centralidade do domínio e da performance como eixos do discurso. A ênfase reiterada no método, na precisão e no desempenho corporal desloca o eixo do sofrimento para a superação técnica, configurando uma fantasia de domínio do corpo e do desejo, na qual o gozo é administrado e elevado à condição de valor. Suas falas frequentemente enfatizam o domínio do corpo, a clareza mental, a força vital e a possibilidade de uma vida extraordinária por meio do método correto: "a melhor versao de si mesmo".
Aqui, o yoga não aparece como consolo, mas como ferramenta de potência. O sofrimento não é escutado; ele deve ser superado. Essa posição se articula ao que Lacan conceitua como gozo (LACAN, 1997), entendido como uma satisfação que excede o princípio do prazer e se organiza em torno da repetição, da exigência e da exceção, permitindo compreender o yoga técnico como promessa de acesso a uma forma regulada de excesso. uma satisfação que não passa pelo amor, mas pelo controle e pela exceção.
A fantasia sustentada é a de que, com técnica suficiente, é possível escapar da falha, da dependência e da inconsistência subjetiva. O yogar se imagina capaz de governar o corpo e o desejo, mantendo-se funcional, produtivo e admirável.
Amor e gozo como duas faces do mesmo impasse
Embora frequentemente apresentados como opostos, Hermógenes e DeRose sustentariam soluções complementares para o mesmo mal-estar. Um oferece amor onde há dor; o outro oferece técnica onde há angústia. Ambos evitam o ponto central destacado por Freud e Lacan: a impossibilidade de eliminar a falta.
Nesse sentido, confirmam a tese lacaniana do Triunfo da Religião (LACAN, 2005), na medida em que o yoga, enquanto discurso espiritual moderno, passa a oferecer soluções simbólicas prontas - seja pela via do amor, seja pela via do controle - para o impossível de resolver do real. a religião, e aqui o yoga enquanto discurso espiritual moderno, triunfaria quando oferece respostas prontas ao real, seja sob a forma de sentido, seja sob a forma de domínio.
O que mudou e o que permanece
Com a internet e a pandemia, essas figuras perderam centralidade pessoal, mas suas fantasias se dispersaram. O amor hermogeano reaparece no discurso do autocuidado espiritualizado; e o gozo deroseano, na performance corporal e no empreendedorismo espiritual. O que permanece é a recusa estrutural em sustentar um yoga que inclua a falha, a frustração e o não-saber como parte constitutiva da experiência.
Considerações finais
A leitura aqui proposta conduz a uma conclusão específica: tanto o yoga hermogeano quanto o deroseano sustentariam, em registros distintos, fantasias que funcionaram como respostas metafísicas ao mal-estar moderno. No primeiro caso, trata-se da fixação no amor ou um yoga-religião que promete reconciliação, sentido e redenção em um Outro mundo, deslocando o conflito deste mundo para uma esfera espiritualizada. No segundo, trata-se da fixação no gozo fálico capitalista, onde um yoga-técnica que promete desempenho, excelência e controle, alinhando-se à lógica produtivista e meritocrática do capitalismo tardio.
Ambos os discursos, embora divergentes na forma, convergem em um ponto fundamental: operam como tentativas de tamponamento do real da falta. Seja pelo amor religioso que tudo explica, seja pelo gozo performático que tudo domina, o vazio constitutivo do sujeito é recoberto por fantasias estabilizadoras. Entretanto, a história mais ampla do yoga (frequentemente eclipsada no processo de modernização e moralização da prática) aponta para a existência de um outro yogar, muito mais antigo e radical. Trata-se do yoga vinculado ao discurso da arte, da feitiçaria e da experimentação do corpo como campo de indeterminação, sustentado não pela promessa de completude, mas pela convivência com o vazio e com a falta. É nesse registro que emergem as figuras dos yogues siddhas, dos ou feiticeiros, personagens liminares que operariam fora da lógica religiosa de salvação e fora da lógica fálica do desempenho. Esses yogues sustentam outra fantasia, a de continuar a existir sem garantias metafísicas. Seu saber não se organiza pela crença em um Outro consistente, mas pela manipulação estética, ritual e corporal do real, assumindo o risco da falha, do excesso e da transgressão. Nesse sentido, aproximam-se mais do campo da arte do que da religião ou da técnica.
O esquecimento desse yogar artístico e feiticeiro no Brasil revela o empobrecimento simbólico do campo yoguico, cada vez mais capturado por narrativas de sentido ou de desempenho. Recuperá-lo não implica idealizar um passado pré-moderno, mas recolocar em jogo a possibilidade de um yogar que não tampona a falta, que não promete redenção nem controle, mas que sustenta a abertura ao real. Se há uma tarefa crítica para o futuro do yoga brasileiro, ela talvez consista justamente em reabrir espaço para esse discurso do vazio e yogados que operem como arte da existência, e não como religião do amor ou tecnologia do gozo. Tal deslocamento recolocaria os yogues de volta ao jogo da imanência e não como resposta ao mal-estar contemporâneo, mas práxis capaz de habitá-lo.
Essas questões permanecem abertas, indicando que o campo do yoga brasileiro ainda está longe de se esgotar e que sua potência talvez resida, paradoxalmente, naquilo que ele ainda não sabe sustentar. Retomar o yogar dos siddhas, tal como descrito por Eliade no capítulo sobre o yoga aborígene, não significa propor um retorno arcaizante ou romântico, mas recolocar no centro do debate aquilo que foi estruturalmente esquecido: o yoga como arte sustentada pelo vazio e pela falta.
Diferentemente do amor religioso que promete um mundo outro e do gozo fálico que promete controle e desempenho, o yogar siddhizeiro sustenta a fantasia mínima de continuar a existir sem tamponamento metafísico ou técnico. À luz de Lacan (2005), pode-se afirmar que o futuro do yogar brasileiro depende da possibilidade de escapar ao triunfo da religião e de seu duplo capitalista, reinscrevendo o corpo como lugar de criação, e não de sutura.
Referências Bibliográficas
ANDRADE FILHO, José Hermógenes de. Autoperfeição com Hatha Yoga. Rio de Janeiro: Record, 1980.
ANDRADE FILHO, José Hermógenes de. Yoga para nervosos. Rio de Janeiro: Nova Era, 1976.
DE ROSE, L. S. Métodos de Yôga. São Paulo: Uni-Yôga, 1982.
DE ROSE, L. S. Tratado de Yôga. São Paulo: Uni-Yôga, 2000.
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SARBACKER, Stuart Ray. Tracing the path of yoga. Albany: SUNY Press, 2005.
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SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais. São Paulo: Cosac Naify, 2015.




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