Mal estar na “civilização yoguica” brasileira

Atualizado: 30 de jul.


A maioria dos yogi(ni)s brasileires sentem um mal-estar, mas ainda não sabem identificar da de onde vem ou o que seja. E faz tempo que e esse ISSO ocorre.


Há uma organização tão bem construída pelas igrejas yoguicas que tornam seus yogi(ni)s|discípulos desconexos totalmente consigo mesmos; alguns até agradecem em suas práticas rituais, diariamente, por essa servidão voluntária que aconteceu em suas vidas.


Seus corposmentes perderam contato com a realidade e, estes yogi(ni)s-camelos (carregadores dos valores, língua, cultura e moral alheios), desaprenderam (ou nunca foram alfabetizados para a liberdade) a cuidar de si-mesmos - kaivalya a estes é sempre um libertar-se "do que", nunca "pra quê mesmo desejo ser livre?".


Foram “formados” (e o nome dos cursos de yoga hoje não poderiam ter uma denominação mais adequada) a obedecer e disciplinados a replicar modos de vida yoguicos alheios. Tiveram seus desejos por vida capturados: desejam apenas o que permitem eles desejarem.


Mas o corpomente não aguenta essa organização de fora e cria sozinho suas próprias rotas-de-fuga nômades. Desse modo, como reprimidas, elas podem revisitar em ressentimento, na falta, no “orgulho” de servir, discursos de ódio aniquilantes do diferente…


Mas o mal-estar está sempre ali, à espreita, buscando desorganizar esses corposmentes a todo momento: aquele ajeitar das costas depois de muito tempo sentado, a espreguiçada após ficar horas em pé parado, o bocejo de tédio quando o sono surge, mas há de se esperar acabar aquela reunião… Os corpos-sem-órgãos (os corpos não-organizados de cada um de nós) sinalizam de mil formas únicas que é preciso se mover, transformar-se, seguir seu caminho… devir.


Os asanas, pranayamas, kriyas, mantras e outros são técnicas desorganizativas yoguicas aos corposmentes capturados. No entanto, nas Igrejas Yoguicas, até estas técnicas foram organizadamente dispostas para construir desejos, vivências, experiências que se "precisa" desejar...


Quando Patanjali cria seu Darsana-Yoga, os Nathas inventam o Hatha-Yoga, Vivekananda seus rolês yoguicos modernos são todos yogis em devir, “nomaditizando-se”! Desorganizando corposmentes yoguicas de suas épocas as Igrejas consensualmente dominantes de suas cartografias yoguicas.


Dito mais simples, os yogas que existiam em cada um desses períodos históricos tão díspares, criaram yogas para seus contextos singulares.


Houve mal-estares yoguicos que exigiu de Patanjali no séc.II aC, Matsyendra por volta do séc.VIII dC, assim como Vivekananda já no séc.XX que uma rota-de-fuga fosse criada para responder aos problemas sociais, econômicos, religiosos que dessem conta de solucionar contradições yoguicas da época.


A via nomádica dos yogas surgem (como ondas e seus tubos temporais) resolvendo os ISSOS do seu tempo; faz nascer os yogi(ni)s-leões contra os yogi(ni)s-camelos.


Foi preciso desorganizar yogas que já existiam, ajeitar novas posições estabelecidas, espreguiçar ideias enraizadas apodrecendo, bocejar tediosas interpretações e comentaristas sabem-tudo… transformar consensos e ideologias yoguicas dialogando e ventilando novos yogas de ser. Os yogas cuidando de si-mesmos.


Toda linha-de-fuga yoguica, então, é nomádica; por conseguinte, são criadouros de yogas singulares gestados do presente em que vivem, solucionando problemas de coletividades. Algumas dessas linhas-de-fuga yoguicas coincidem suas estéticas e filosofias com coletividades específicas e, seus intelectuais orgânicos e tradicionais, imprimem formas e matérias: suas expressões coincidem e um yoga surge organizando e dando vida a uma filosofia nova do yoga.


Mas, como tudo, há sempre um momento (sempre em devir) que essa hegemonia yoguica, que surgiu do caos dando respostas a certos coletivos yoguicos em dado momento histórico, geográfico, social, religioso e cultural (uma latitude e longitude na cartografia nômade yoguica) se desagrega na base abrindo diálogo a novos yogas surgirem. Fechamento e abertura de novos ciclos yoguicos. Vivemos hoje uma transição de ciclos yoguicos: há uma nova estética abrindo espaço a uma filosofia yoguica jovem. Uma aldeia global nômade está acampada novamente, sentados, estes yogi(ni)s nomádicos em torno da fogueira à noite dançando, bebendo, amando e conversando sobre novas formas de yogar, meditar, amar e ser amado nos yogas que precisam abrir espaço a outro nascerem.


Entrementes, numa reação à desagregação eminente frente aos novos yogas, o sistema de pensamento yoguico, ora dominante, hegemônico e consensual, aperfeiçoa-se dogmaticamente, estabelecendo, para se conservar consenso, uma pedagogia própria da Necessidade: torna-se fé transcendental.


E, de filosofia yoguica nômade, pautada numa pedagogia da Liberdade, fecha-se. Ela, na verdade, não soube cuidar de si.


Agora, numa luta reacionária pequeno-fascista, aboli o diálogo, busca conservar-se por trás de seus sacerdotes e escrituras “perfeitas em si-mesmas”: de filosofia migra para teologia yoguica e precisa erigir muralhas para proteger-se das linhas-de-fuga nômades: igrejas Yoguicas e seu séquito realizam procissões rumo ao Além. Perdem o presente e vivem do passado, amaldiçoando o presente (sempre) “decadente”, anunciando o futuro sem os inimigos do agora. Sedentarizam-se!


Estas Igrejas Yoguicas se tornam a-históricas, portanto, metafísicas e começam a imaginar a realidade como um dado, que requer explicações fora - em uma realidade sem história, desconectada, transcendente, então.


Suas filosofias se transformam em teologias, seus yogi(ni)s, antes filósofes se se metamorfoseiam em sacerdotes e aqueles, antes, intelectuais orgânicos se tornam discípulos que, por não poderem viver agora, pois a-históricos, louvam mundos inexistentes: kaivalyas, moksas, céus-cristãos, nossos-lares, sociedades pré-védicas, condomínios cam