O MEU YOGAR É IGUALZINHO AO SEU




Vou tentar aqui cartografar meu yogar pra você. Irei atravessar, passo-a-passo, minha dança com o yoga. Ele é igual ao seu, mas difere. Semelhante nos estratos mas diferente nas composições.


(1) Parto sempre do plano da imanência e não da transcendência. Essa minha impostura amplia as dobras yoguicas por aliança e não por filiação. Me aliando horizontalizo, filiando-me verticalizo. Meu yogar, portanto, se insere na natureza|corpos traçando relações com a cultura, por isso seu afundamento é no perspectivismo - não relativismo ou absolutismo.


(2) Toda minha práxis (teoria praticada ou prática teórica: ética, enfim) enche a cara de existência no supranatural, longe do sobrenatural. Somos xamãs ameríndios e não sacerdotes asiáticos. Estão mais próximos da magia dravidica do que a letra ariana.





(3) Samadhi  (e suas intensidades: gunas) são afectos e não estados. É nessa transa metamorfoseada que gestamos um corpo-sem-órgãos-yogi (CsO-yogin), ou seja, um corpo não organizado. Todo esse esforço (tapas) para fazer (sentir) passar yoga ou qualquer outra coisa. Yoga é parça, não caminho moral.


(4) Antes do encontro com O espelho (Purusa), entrementes, há que se desterritorializar para abrir espaços por onde o yoga deve passar. Desterritorialização é abrir uma fresta e perceber o que antes passava despercebido (ou nem passava): corpos porosos nada fica, corpos duros bate e volta e corpos anestesiados, até passa, mas não sentem (avidya).


(5) Por aqui, no yogar selvagem (não-domesticado) e nômade (sempre em devir), o conceito de maya é amoral. Ele se configura como feitiço ou demanda que distrai e impede de ver a realidade como um estrato. A verdade está dada, é a natureza. Mas como somos partes da natureza, ou modos do real, seremos sempre inacabados. Yogar é uma quebra de feitiço feito nas encruzas da vida.


(6) Cada prática yoguica é um sacrifício do maya em que se está em voos místicos criadores de linhas-de-fuga. Promovemos um banquete ritual devorando maya, mas inventado outros numa eterna inconstância. Não almejamos des-ilusão mas se ligar em qual estamos sendo para {pensar certo}, salve Paulo.





(7) O processo yoguico selvagem e nomádico é rizomático, nunca arborescente em busca de algo. Somos plenos no inacabamento, por isso cessa a busca. Tudo é sertão aqui; por isso Patanjali, Matsyendra, Hermógenes e Guzman são personagens de um conto roseano sob a pena de Clarice.


(8) Mas há uma operacionalidade do ritual sacrificial canibal. Não é qualquer coisa numa roda de samba. Independente da tecnologia a serem dispostas rumo ao item 3, esse mergulho temporário (e temerário também, pois pode não dar certo) para fora de nossos planos de imanência (ou maya), é um programa: autogestão, relaxamento, escolha da âncora, técnica bem definida e os loopings que virão, salve xará. Há que se buscar um lugar adequado e aliados. Tudo pra fazer passar intensidades. Isso exige muita prudência, por isso o programa.


(9) Recapitulando: (a) iniciamos, como todos, capturados na primeira margem, absolutamente alienados (avidya) do que estamos sendo, pois imaginando já ser. (2) rumando a segunda margem ou samadhi, à beira de Purusa ou espelho, somos travessia, essa canoa instável em cima de mat. (3) agora tomamos ar e afundamos para terceira margem do rio, escura, lodosa e fria sem saber o que iremos encontrar.