Yoga Malandro: um "sul" aos novos yogins

Atualizado: 21 de jun.


Introdução


O malandro é uma personagem muito conhecida na cultura brasileira. Quase sempre anda no fio da navalha, entre o desonesto que se aproveita da ingenuidade alheia e a sapiência e vivacidade de quem aprendeu a viver uma vida que valha a pena, inventor de sua própria ética, que não a hegemônica. A própria etimologia da palavra malandro acompanha um "viver de um jeito outro". Malandre, palavra de origem francesa, designa o nome de uma sarna que acomete as juntas de cavalos, modificando o andar "correto" do animal. Há ainda o termo malandria, do latim vulgar, que refere a negro (do grego melas), pois é a cor da pele de doentes com hanseníase, afastados do convívio social. Todos estes, entrementes, se referem ao não trabalho, o ócio e, mais do que isso, de outras maneiras de "ganhar a vida", um "mal andar" ou "mau jeito", uma vida não-convencional (ver DaMatta 1997, posição 2408).


A expressão se incorpora ao contexto brasileiro, sobretudo, no período mais disciplinador da política populista, durante o governo do Presidente Getúlio Vargas (entre os anos de 1930-40), quando institui novas leis trabalhistas num Brasil em franco desenvolvimento de sua fase agrária, predominante, para a industrial. Segundo Dantas (2003), a malandragem pode ser associada ao caráter mestiço do brasileiro e a sua "debilidade" e "repulsa" ao "espírito moderno" do trabalho: "todo malandro é um mestiço que não quer trabalhar". Do mesmo modo como a personagem caricatural do indígena (e o próprio latino-americano em si) em filmes hollywoodianos são, "malandramente", preguiçosos e alheios à ética da prosperidade. O malandro habita o ethos limiar dessa lógica industrial e produtiva do explorador-explorado, que se consagra em sua ambivalência, entre os sambistas pretos e marginalizados dos morros cariocas, sobretudo a partir da clássica Ópera do Malandro (1978), do artista brasileiro Chico Buarque, peça ambientada nos anos de 1940. O malandro se pergunta: "se quem trabalha é quem tem razão, porque então vive sempre pobre (como eu) mesmo se matando de trabalhar?". O malandro é um questionador, cético e crítico à norma vigente.


A malandragem, portanto, desarticula a lógica ordenadora de corpos sociais, mais do que promotores da desordem, inventam novos jeitos de viver. Eles representam linhas-de-fuga possíveis frente à alienação de uma posta organização exterior de uma vida social, política e espiritual normativa (Deleuze & Guatarri 1995, p.16). O malandro é um artista, como consagrado na personagem dos sambistas periféricos, favelados, pobres e sem perspectiva de ascensão social; por isso buscam levar uma sua vida "sem se matar de trabalhar", vivendo da poesia, da música e de pequenos "bicos", mas sem se fixar numa "carreira profissional promissora". Aprendem a interpretar a dura realidade dos que estão à margem da sociedade. Essa postura malandra, de um viver nomádico, logo ficou associada a vadiagem, homens e mulheres sem caráter, todos os que mantém uma postura subversiva da promessa de ascensão social pelo trabalho, consumismo e meritocracia. É aquele indivíduo (não sujeitado) à espreita das engrenagens que movimentam as classes sociais, porém, ao invés de resignar-se a norma estabelecida, inventa outros modos de vida possível - sem infringir as leis, pois esse não é malandro, mas desonesto.


Yogis Malandros


A partir da virada do século XIX-XX, yogis indianos, sobretudo hinduístas, sob jugo do imperialismo britânico, reinventam seus yogas. Agora influenciados pela fisiologia biomédica sobretudo, ganham contornos "científicos". Nasce desse processo os Yogas Modernos (Alter 2004; De Michelis 2004). Estes yogis modernos, como Vivekananda, Sivananda, Kuvalayananda, Jois e Iyengar (dentre outros) transplantam suas perspectivas singulares yoguicas, pela primeira vez, a novas cartografias sociais, religiosas e políticas. Eles (aparentemente) se desvinculam do misticismo espiritual indiano (sobretudo hinduísta) e se aproximam à lógica e pragmatismo "ocidental", próximos ao espírito do capitalismo.


Os desvios promovidos pelos yogis modernos indianos tornam bem mais difícil classifica-los na tipologia "clássica" que acadêmicos europeus trabalhavam, inspirados pelo Bhagavad Gita. Onde "encaixar" o Asthanga Vinyasa Yoga de Pattabhi Jois? É um yoga devocional (bhakti), postural (hatha), meditativo (raja) ou tudo ao mesmo tempo? Os primeiros especialistas europeus e norte-americanos em yoga (George Feuerstein, Mircea Eliade e Henrich Zimmer) classificam, negativamente, todos os yogas nascidos da renascença indiana, como neo-yoga, por sua forte ênfase ao aspecto das posturas. Uma segunda geração de pesquisadores em yoga (todos europeus e norte-americanos ainda), inventam e legitimam-no como Yoga Postural Moderno, resgatando a dignidade yoguica dos "neo-yoguis" (Singleton 2010, p.208-209). Os yogis indianos modernos, por sua vez, transplantam seus yogas posturais para cartografias espirituais não-hinduístas. Seus yogas, portanto, passam por inovações e readequações, ou seja, desviam-se de seus desvios. Nasce desse processo (em andamento ainda), yogas de matriz não-indianas com sincretismos novos espirituais, sociais, políticos e econômicos.


Entre os latino-americanos, ao contrário dos norte-americanos e europeus, o yoga nos foi apresentado pelas mãos de yogis de matrizes espirituais não-indianas. São místico(a)s da teosofia, rosa-cruz, martinismo e maçonaria que nos apresentam à cultura yoguica (SIMÕES 2018; MUNOZ 2020). E demorou quase 60 anos para que um yogi postural moderno indiano nos visitasse, o que significa termos desenvolvido yogas bem particulares e de forte sincretismo (e hibridismo) com nossas próprias influências espirituais. No Brasil, especificamente, possuímos imbricações yogicas em terreiros de umbanda, onde pretos-velhos percebem o desencantamento energético no chackra da garganta de seus consulentes e assopram fumaças de seus cachimbos encantados para "reequilíbrio de prana". Do mesmo modo, já é comum a entoação do mantra Om ao final de um Pai-Nosso ou Salve-Rainha em igrejas do Santo Daime.


Esses desvios à tradição espiritual hinduísta do yoga no Brasil, não são descaracterizações destes ou "yogas exóticos", mas novos jeitos de se viver yoga, do mesmo modo que os yogis modernos surgiram na Índia com Vivekananda, Sivananda e outros, antes neo-yogis e hoje, posturais modernos. São malandragens yoguicas, jeitos novos para se firmar como possíveis de serem aceitos na cultura em que se aproximam.

Poderíamos citar algumas ordens espirituais yoguicas do período medieval indianos que, malandramente, desviaram-se do sistema de castas sustentadas pelas escrituras sagradas hinduístas, transf