Yogas Brasileiros Sem Motriz Indiana, e agora?

Atualizado: 30 de jul.



  1. Yoga como Terapias

O yoga compreendido no Brasil como prática e/ou filosofia espiritual de cura ou complementar a terapêuticas depende bastante dos esforços nas primeiras décadas dos anos de 1960 ao Prof.Hermógenes. Em sua autobiografia é extensa a busca por legitimar o aspecto terapêutico do yoga, que teve início com o pioneiro do yoga no país, o francês Léo Costet. Algo que tanto Hermógenes, mas também Janderson Oliveira Prem Baba o realizou, aliando o yogaterapia hermogeano, a pajelança afro-ameríndia brasileira, como também a religião do Santo Daime, como expomos.


Atualmente, o Método de Yoga Restaurativa da Profa.Miila Derzett envereda por esse campo a partir de suas investidas no CAPS/Florianópolis onde trabalha como psicóloga social, ao lado dos mais científicos protocolos do Instituto Mente e Corpo do norte-americano Herbert Benson, mas também de elementos do engajamento social budista. A Profa. Tainá Antonio e suas técnicas do Yoga Marginal, mesmo com fins mais focados na educação infant-juvenil, não deixa de estabelecer encontros igualmente terapêuticos, de certa formam como ela mesmo afirma. E, obviamente, todo o trabalho de Janderson Oliveira Prem Baba e seu Awaken Love Yoga, como dissertamos, está todo baseado no aspecto de cura do corpo e da alma de seu adepto.


O eixo central dos yogas brasileiros em seus aspectos psicoterapêuticos (Yogaterapia, Awaken Love Yoga, Restaurativa Yoga e o Yoga Marginal) podem (e devem) estar atrelados a elementos novaeristas de cura e salvação. Mas a salvação aqui empregado, não como algo redencionista católico com vistas a uma geografia metafísica apenas ou reduzido a fins orgânicos da biomedicina. O novaerismo que o yoga brasileiro carrega dialoga com a imanência e intenções a resolução de seus problemas sociais (Cf. SIMÕES, 2015, pp.130-160). Mesmo díspares em suas populações de alcance e construções narrativas sobre yoga, visam, em última instância, resolver questões da realidade em que vivem.


As religiosidades brasileiras (nativas ou sincretizadas como o yoga aqui descrito) estreitam laços psicoterapêuticos e de “reencantamento do mundo”; pois desde a pajelança amerindía, passando pelo espiritismo kardecista, as religiões ayahuasqueiras, o próprio catolicismo e, atualmente, os neopentecostais, estabelecem, de seus jeitos, certa “psicologização” em suas narrativas (DUARTE & CARVALHO, 2005). E o yoga, como mais um fenômeno religioso em formação no Brasil, não está sendo diferente.


2. Yoga e a sua mercantilização


Se há algo de novo aos yogas que nasceram e sobreviveram modernamente, seja no Brasil, Índia ou qualquer outra parte do mundo, não reside em suas novas doutrinas, mestres ou massificação de práticas corporais. O que os diferenciam, realmente, como pertencentes ao período histórico moderno do yoga, é a sua transplantação a sociedades regidas pelo modelo capitalista neoliberal (Cf. JAIN, 2014).


Desde o Yoga-Sutras de Patanjali, um sacerdote hinduísta, pertencente a casta dos brâmanes ou, os atravessamentos que fizeram surgir o Hatha-Yoga medievalista, todas estas manifestações yoguicas surgiram num modelo de organização social imperialista ou despótica (SIMÕES, 2020, pp.103-104). Desde 1897, com a visita de Vivekananda no primeiro Parlamento Mundial das Religiões nos Estados Unidos da América, todos esses yogas ditos modernos e tantos outros que surgiram (e muito por causa disso), precisaram aprender a conviver sob a égide de sociedades capitalistas e, com elas, muito mais cosmopolitas, seculares e laicas (Cf. SIMÕES, 2020; JAIN, 2020).


Essa mudança de estrutura social à comunidade yoguica influenciou seu jeito de se viver os yogas sob o dossel religioso hinduísta para uma pluralidade infinita de novas espiritualidades, como as que vimos nos Brasil. Aqui, quem soube fazer essa leitura com mais precisão (do yoga sendo inserido num novo modelo de sociedade: capitalista e de consumo, portanto), foi Luiz Derose, muito antes dos modelos californianos e indianos chegarem entre os brasileiros só por volta dos anos de 2000.


Em 1964, como apresentamos, Luiz Derose abre sua primeira filial de escolas que se espalham nas décadas seguintes em todo o Brasil e, atualmente com ramificações na Europa e América do Sul. Fatos estes, que podem estar trás das disputas de legitimadade narrativa que reinou (ainda hoje) entre Hermógenes e Luiz Derose (Cf. SANCHEZ, 2004). Mesmo criticado sob este aspecto mercantil do yoga deroseano, quase todos os yogi(ni)s das gerações posteriores herdaram (ou absorveram) esse aspecto capitalista neoliberal em administrar suas marcas de escolas ou métodos yoguicos.


Essa convergência aos problemas de sociedades cosmopolitas, seculares, laicas e sob ordem capitalista neoliberal, novos bens simbólicos de salvação/libertação espirituais yoguicos foram (e estão sendo erigidos) no Brasil, como por exemplo: estresse como um mal a ser combatido, “produtor do turbilhão da mente”; relaxamento assumindo papel espiritual; e certa divinização do estado de homeostase (SIMÕES, 2017). Assim, a estrutura social que sustenta os yogas no Brasil, são regidos sob 4 tópicos econômicos que mantém as instituições yoguicas brasileiras:


1. Espaços ou estúdios de yoga que vendem aulas regulares (ao vivo ou em lives pós-pandemia);


2. Escolas de formação de novos professores de yoga do método, escolas ou instituição referida;


3. Viagens ou peregrinações a locais sagrados ao yoga, que hoje se expandiram para além da tradicional Índia, obviamente, como Machu Pichu, templos budistas no Japão e Europa e até Jerusálem como alguns exemplos;