Ensaio sobre a ordem e o kaos no ioga

May 25, 2012

 

 

Vivemos em um mundo caótico! Mas isso não tem nada de novo, e nem de moderno. Desde sempre o acaso e a necessidade é que tocam o barco por aqui. Para dar ordem a esse caos, surgiram alguns ordenadores de mundo, como as religiões, as filosofias, os mitos, as sabedorias populares, as artes e as ciências mais recentemente. 

 

No entanto, para ordenar algo precisamos criar regras, normas, éticas, moral, práticas... tudo para dar sentido à vida, ao mundo e sustentar a Ordem criada (e imposta muitas vezes) anteriormente. Isso tudo exige um esforço tremendo! Um esforço individual e de uma comunidade para dar plausabilidade a essa ordem, pois o caos clama constantemente pelo poder. Não está entendendo? Lembre-se quando algum ser vivo próximo de você morreu... Teve nexo, sentido para você na época? São os outros e as suas próprias experiências é que dão plausabilidade a ordem criada por sua religião, filosofia, mito ou qualquer outro conhecimento que você se identificou para explicar o mundo em que você habita. Sim, o outro e você mesmo. Imagine uma tribo isolada do de outras populações, ela criou o seu sistema de ordenamento do mundo, como por exemplo, a crença que dançar em torno da fogueira na primeira lua cheia do período do plantio traz uma boa colheita, ou praticar jejum em uma data específica tem o poder de purificar o corpo. Isso é repetido por milênios e não se questiona, pois todos fazem e desde sempre o fizeram e não tem porque duvidar, pois "dá certo", ora bolas!

 

Mas, imagine agora que um outro grupo de humanos faça contato com eles, com outro sistema de crenças sobre uma boa colheita e saúde; indivíduos com outras explicações sobre o mundo, sobre a ordem da realidade... com outra forma de pensar, explicar e dar ordem ao caos. Alguns membros da tribo podem começar a perceber a crença da sua tribo ser abalada por outras sabedorias. O que fazer? Pode-se sincretizar as explicações, pode-se acabar com as primeiras, pode ser que os indivíduos que chegaram abandonem as suas explicações e adotem a da primeira tribo, ou simplesmente eles podem matar uns aos outros por buscar legitimar a sua própria realidade, com o medo de o mundo no qual ele (e a sua comunidade) viveram por milênios não desapareça! Alguns chamam isso de perder a identidade ou a cultura. E não preciso gastar bytes para explicar isso, né? Bastar pensar em nossos índios...

 

Há, dessa forma, uma homeostase a se manter: o equilibrio do meio interno de uma dada comunidade, de uma dada biopopulação. Mas, como eu disse, a ordem é mantida tanto pelo outro, pelo meio, pela comunidade que vive aquela realidade quanto pelas experências do seu corpo. Veja bem, nós não somos uma folha em branco a ser preenchida pela sociedade em que nascemos. Possuímos também prédisposições inatas, herdadas geneticamente pela evolução da nossa espécie. Assim, muito dos nossos comportamentos, hábitos e héxis corporal advém do meio, mas também da nossa carne. Essa prédisposição genética pode ganhar vida pelo "gatilho" do meio em que estamos, é verdade, mas é uma característica nossa e de mais ninguém. Assim, é lícito supor que a nossa fisiologia exerce um papel importante na formação de quem somos; e com isso não quero reduzir um dado comportamento religioso a meros dados estatísticos ou neurotransmissores e hormônios. Não, eu quero é somar! Somar com o advento da biologia no entendimento da criação de Ordens específicas e Kaos dados!

 

Cada religião por exemplo, criando  o seu mundo ideal cria também comportamentos considerados "mais corretos" do que outros. Assim, preescreve o que deve ser funcional e o que é visto como disfuncional para uma dada biopopulação manter a sua homeostase sadia. Pensando na religiosidade do Yoga, manter-se, sob o ponto de vista psicofisiológico comportamental sadio, é desenvolver um viver menos possessivo, menos amedrontado com a morte, com uma ótima percepção do seu papel (menor orgulho) e maior atentividade sobre o momento presente (atenção plena). Isso são os klesas. A manutenção comportamental dessas variáveis para o Yoga, é o caminho para a "transcendência", a via para a liberação em vida, kaivalya. Mas, como obter isso?

 

A proposta é o asthanha yoga, a proposta soteriológica do Yoga, um caminho religioso pautado em 8 partes, onde condutas éticas e morais são preescritas, assim como práticas físicas e de atenção (a meditação propriamente dita) devem ser desenvolvidas diariamente. Isso garante a salvação dos nossos sofrimentos? Não, garante a possibilidade de um devoto ao Yoga, um indivíduo que decide crer na ordem criada pelo Yoga dissolva o seu caos. Entende? Isso pode não fazer o menor sentido a você, assim como não o fez para os primeiros britânicos que iniciaram a colonização da Índia. No entanto, existem infinitas outras formas de obter uma ordem para o caos do (seu) mundo, e isso (a adesão ou não às explicações criadas para afugentar a desordem do mundo) depende não somente do meio em que você nasceu, mas da sua predisposição genética para adaptar-se à biologia que dada religião, filosofia, ideologia exige dos seus adeptos.

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