A Subversão do Ioga

November 29, 2015

 

 

Desde Ramakrishna e depois com seu discípulo Vivekananda que ouvimos, lemos e repetimos - muitas vezes como uma verdade axial - que a doutrina do yoga traz a mesma “mensagem” e bens de libertação do sofrimento de outras religiões, com a diferença do yoga não ser dogmático, mais ecumênico e onde nenhuma luta por dominância de capital social e econômico se manifestaria.

 

Em outro ensaio, sem muitas pretensões academicistas, argumentei que no subcampo religioso ioguico essa luta por poder também ocorre, e neste abordarei que se há algo em comum entre o yoga e as religiões - além de serem conservadas e subvertidas por homens e mulheres - está na crença da existência de um mundo ideal ou transcendente a este - como kaivalya, moksa, nirvana, Nosso Lar ou o Paraíso.

 

Os idealistas, como denominarei, creditam ao mundo transcendente como O perfeito, onde reinaria uma vida sem sofrimentos e ignorância à nossa espera em contraposição a este que vivemos. Em outras palavras, antes de ser iniciado às técnicas de yoga e sua doutrina, a realidade é profana, ilusória e passageira. Podemos então distinguir dois grupos: os idealistas, metafísicos dualistas e os materialistas, não-metafísicos ou não-dualistas. Os materialistas são os que creêm no mundo como ele é. Mais simples, se houver alguma libertação, estará na sua imanência e não em um outro transcendente a este. O idealismo por sua vez, compreende o universo ordenado cosmicamente, onde tudo nasce predeterminado por uma força exterior ao ser humano, seja Deus, a natureza, vidas inteligentes extratrerrestres ou dharma. Sendo assim, para os idealistas, tudo o que é sentido pelo nosso corpo seria apenas uma aparência ou uma sombra, pois o Real existiria na essência de cada objeto ou pensamento que tenhamos, como no pensamento platônico-cristão.

 

Há, portanto, um mundo dual por “natureza”. Para alguns iogólogos, os textos seminais do yoga teriam essa compreensão do universo também, interpretando purusa (a parte imaculada do Ser e imperecível, que sempre existiu e sempre existirá) e prakrti (o corpo de uma forma geral, que se “contamina” pelo mundo maculando nossas consciências pelo e perecível ou transitório) como distintos. Isvara seria outro exemplo, compreendido tanto como Deus ou um yogue ideal, estaria no patamar das essências universais de um iogue a ser alcançado. A infelicidade, o sofrimento, o pecado e a ignorância em que vivemos imanentemente, acreditam estes, seriam frutos de uma vida humana fora da ordem cósmica. Nasceríamos então com um projeto de vida pronto desde o nascimento, cromossômico por assim dizer. Como as peças de um relógio, teríamos uma posição a ocupar no plano cósmico, e mais alegre seria aquele que compreendesse e vivesse o quanto antes segundo o papel designado pelo universo, um mestre brâmane, pastor, Papa ou Deus a ele; muito parecido com o conceito de dharma ou na ideia que as suas agruras de hoje seriam "algo a resgatar" de karma, um substituto oriental para o pecado original cristão. Caberia a nós então descobrimos qual o destino que nos foi estabelecido por uma força exterior, ou pior, suportar viver carregando um fardo cósmico como penitência das impropriedades que realizamos em outras vidas - que não lembramos -, o bem conhecido de nós investigadores da doutrina e das práticas do yoga. O ioga contemporâneo, como uma interpretação de acadêmicos e teólogos europeus ao lado de sacerdotes hindus, de um ioga antigo à luz da vida moderna.

 

Mesmo que tenhamos nascidos em uma casta social não tão digna como a de um brâmane por exemplo, isso seria obra não das classes sociais dominantes que lutam por manter a sua hegemonia no poder e subjugar os menos abastados como eles que nasceram de “sangue azul”, mas de propriedades divinas ou extrahumanas que, ordenadas por forças de sabedoria superior, e nos caberia apenas seguir a moral, a ética e os valores concebidos desta ou outra cultura, como nos klesas ioguicos que visam desnuviar a ignorância humana pelo hábito inverso do apego, da aversão, do medo da morte e do orgulho.

 

Perceba, que tanto na Índia antiga - antes da influência inglesa/européia - como na Índia no final do séc.XIX, o ioga estava como uma espirituaidade de libertação, mas de quê para o quê?

 

"Não entendi!", anuncia meu leitor do fundão. Pois me siga, se você porventura “esquecer-se” de seguir o que foi estabelecido como o Mal, seja não seguir a sua vida pelos preceitos dos mandamentos de Cristo ou dos Yamas e Niyamas e subverter tais ordens; se pretender se aventurar a andar como alguém fora da sua casta, frequentar lugares que não lhe cabem socialmente ou comer carne de vaca, haverá sempre um “bom iogue” que lhe lembrará de sua gafe social-espiritual com um olhar, vestimenta de determinada cor, corte de cabelo, marca de bem de consumo ou valor e tipo de refeição. Tudo isso, para deixar bem claro que ali não é o seu lugar ou o que faz não está dentro das normas estabelecidas pela sociedade, por Deus, sua casta (leia-se status social) ou escola/tradição/método de ioga.

 

E o mais paradoxal - já que o ioga prega a libertação - outros com uma “posição cósmica desfavorável” tanto quanto você, estarão prontamente atentos às falhas “éticas” alheias e resignados com o papel menor que o universo lhe ofertou nesta vida dizendo a quem for: "que é assim mesmo e que em uma próxima vida a sorte será outra, se Deus quiser". Nunca lhe passará pela ideia, enquanto kaivalya significar sempre libertação dos valores errados nas "outras espiritualidades/religiões", mas nunca nas do ioga, pois os valores do ioga são universais. O mesmo discurso dos cristãos que serviram a Santa Inquisição.

 

A sua condição social pode ter sido imposta culturalmente e os valores e hábitos que você segue - mesmo os do ioga, e não apenas dos muçulmanos e judeus, podem ter origem social-econômica e não cósmica, transcendente em um Além-mundo, mesmo que seja a anunciada por rishis anônimos das mais longíguas florestas indianas. Mesmo que profetas, místicos, swamis, gurus ou rishis tenham lhe dito determinada “verdade” ao seu ouvido, essas palavras sempre terão sido interpretadas por estes, que são humanos tanto quanto você e foram construídos biopsicossocialmente como qualquer outro. Não existem fatos, apenas interpretações.

 

Os materialistas, por outro lado, creêm que a transcendência do Ser se dá na imanência do mundo e que somos apenas átomos em movimento no vazio. Essa posição nos reduz à uma condição bem mais modesta do que filhos de Deus além de ser bastante angustiante existencialmente, pois a vida não teria nenhum sentido a não ser buscar o que nos faz mais motivados a viver, em outras palavras, em mais alegria, em mais felicidade, em mais libido, em mais tesão de vida. Se essa motivação vier depois da prática diária as 4:30h de uma série de asanas, dialogando com seus alunos em uma sala de aula ou bebendo cerveja com amigos em um churrasco, por quê vou conduzir a minha vida para outra atividade, se é esta que me conduz hoje a vida que vale a pena ser vivida? E o melhor, como não sou predestinado a nada, não possuo karma algum a cumprir ou estou limitado por esta ou aquela alimentação, vestimenta ou modo de andar ou falar, pode ser o que eu quiser e mudar sempre que a minha motivação ou potência mudar também. 

 

Nasceríamos então um Nada ou um purusa - no sentido de vazio, nunca predeterminado - que vai Sendo ao longo de nossas experiências cotidianas de vida. É claro que temos nossos instintos inatos como algumas expressões faciais, atos mecânicos como sugar, gestos natatórios, o próprio respirar, dentre tantos outros mas eles, ao contrário de outros animais, não dão conta de nos manter vivos sozinhos, pois sem contato humano morreríamos ali mesmo aonde caíssemos depois do parto, inertes; mexendo bracinhos e perninhas mas sem, literalmente, sair do lugar até morrermos de fome ou servirmos de refeição para qualquer outro animal. 

 

Um gato nasce gato, tem instinto de gato e vive a vida inteira como ele só poderia viver, como um gato, já dizia Prof. Clóvis de Barros. Quando um gato ou uma zebra nascem é preciso poucos dias para se adaptarem ao seu meio e seus instintos os provêm de tudo o que eles precisarão para viver toda a sua existência de forma plena, feliz e sem úlceras.

 

Nós humanos não. Por nascermos Nada, um Vazio entre átomos (e células) em movimento sem nenhum sentido de vida cósmico prédeterminado ou de herança kármica, estaríamos condenados a viver livres a SERmos que quisermos, podendo mudar nosso Ser a cada instante, a cada amanhecer, a cada respirar.

 

Entretanto, qual sociedade humana prepara os seus para Ser liberto neste sentido? De quem é esse papel? Da filosofia, da religião, da ciência, das artes, dos mitos? Talvez o ioga, volto ao mote do nosso assunto, possa também fazer esse papel, mas resgatado sem uma metafísica que o sustente, LIVRE portanto, para que cada iogue, poeticamente, escreva a sua própria obra de arte de viver.

 

Desde que o ioga se imbricou com o poder de sacerdotes, os iogues vivem uma vida determinda e ditada pelas regras de conduta moral e ética de dada cultura e sociedade, mas sobretudo das escrituras erigidas sob essas égides. E são centenas de novos discípulos que se empenham se cercear a criatividade de iogues em erigir seus sonhos. Apesar (ou por causa disso) da ausência da metafísica, é necessário sonhar mesmo sabendo que estamos sonhando.

 

Poucos se deram conta de que sendo Nada (purusa como vazio livre de sentido) podemos ser Tudo e, que talvez kaivalya, a libertação de que tanto fala o YogaSutras como meta final do ioga, seja compreendermos o Nada que Somos. Pois é muito conveniente para uma sociedade marcada pelas castas como na Índia de Patanjali, aonde um brâmane (sempre do gênero masculino) era o que ocupava a alta casta sacerdotal, pregar que a causa da ignorância humana (avidya ou maya) seja viver apegado, já que eles tinham tudo o que desejavam; ou esbravejar para ninguém desenvolver o hábito da aversão, pois qual dominante aprecia ver seus dominados sendo subversivos e lutando por direitos iguais; ser destituído totalmente de qualquer caráter de orgulho e contentar-se com o pouco que têm, afinal, parece ser um desígnio dos deuses ser humilhado por sua sombra cruzar a de um brâmane ou comerciante local; ou ainda não temer a morte já que se um indivíduo de uma classe inferior seguir esses preceitos acima sem questioná-los, quem sabe Deus ou a oderm cósmica não lhe confira uma pequena ascenção social em uma vida próxima? Quem sabe?

 

Mas como é angustiante nascer um Nada. Que tamanho esforço é realmente Ser. Muito mais fácil e cômodo é agarrar com todas as nossas forças o Ser de outro - como sonhar em ter o direito legítimo de desfilar com um diploma de "formado em yoga", um cordão branco de brâmane ou pronuncar corretamente um mantra em sânscrito ao invés de se dedicar a viver a liberdade de Nada com a potência de Sermos o que bem quisermos e mudarmos no instante seguinte sempre em busca do que nos dê maior potência/tesão de vida. Como é reconfortante acreditarmos que nascendo brâmane seja “natural” ou genético subjugar alguém de casta inferior ou por praticar ioga eu seja superior espiritualmente de um umbandista, católico carismático ou evangélico. Como é satisfatório e me promove uma falsa potência me sentir MAIS por realizar vinyasas ou me intitular MAIS calmo por praticar o "hatha-yoga clássico".

 

E, como gastamos as nossas forças e atenção em viver uma vida inteira imitando outros, mas sobretudo, ser abençoados com o Ser/potência/tesão de outro e não o nosso, vivemos uma vida ascética e sem VIDA própria. Daí, depois de aprendido viver por hábito o Ser de um guru ou de uma tradição (leia-se comunidade religiosa ioguica) quem ousará jogar fora esse capital social construído e admitir o seu erro e começar de novo? Somente um iogue, na acepção da palavra, fará isso.

 

Após de construído esse Ser alheio, até mesmo na forma de andar, falar, comer, olhar, respirar e pensar e perdido a sua natureza inata de Nada, luta-se para conservá-lo como se todos esses trejeitos estivessem vindo de uma experiência cósmica e não de um habitus social, e há de quem ousar e pretender também obter esse capital externamente ou criticá-lo. 

 

Mas quem almeja Ser verdadeiramente como promete o yoga, ou seja, construir o seu Ser sem subterfúgios fáceis de leis espirituais universais em 5, 7 ou 10 lições de livraria, quem almeja realmente buscar subverter a ordem social e humildar-se frente ao Nada que se É e sempre será, o que deve fazer? Está aí o grande paradoxo do caminhar espiritual de todas as religiões talvez, inclusive o ioga, pois quando se compreende o Ser em sendo Nada, muitos caem na tentação quase sempre mística ou profética de padronizar o caminho para que outros também o consigam como “dever espiritual”, mas lógico, com a insígnia deste primeiro “abençoado” ou de sua linhagem, tradição ou método. Mas, se somos Nadas condenados a Ser únicos não há caminho a seguir, pois sendo um Vazio podemos ser Tudo (qualquer caminho é válido, conquanto que seja trilhado por você conscientemente e poeticamente), e quando adota-se os passos de alguém Realizado ou Iluminado, ou seja, tudo esvai na mesma armadilha anterior, de ser a cópia de outro e não Ser original. 

 

Digo e repito, o caminho é árduo pois o candidato a Ser não pode contar com uma marca qualquer ou título ofertado por um outro, mesmo que seja de um Buda ou Siddha. Ele precisa aprender a Ser sozinho como todos que realmente construíram silenciosamente o seu Ser a partir do Nada. E, só assim ser denominado um iogue sem almejar que o sigam ou edificar tradições, escolas ou métodos.

 

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