Proposta soteriológica do ioga

March 13, 2016

 

 

Soteriologia é um palavrão da filosofia que significa uma área que investiga a salvação humana. E cada religião ou tradição espiritual construiu a sua. Vejamos a do Yoga em linhas gerais, lembrando que de forma alguma julgo ser essa a proposta definitiva (muito menos os conceitos em sânscrito), pois como sabemos cada praticante ou yogue tem a liberdade de edificar a sua, mas isso não impede que possamos traçar um "plano geral" para quem inicia a sua história no vasto universo do Yoga.

 

O Yoga acredita que o contato dos nossos sentidos (indriyas) com o mundo (bhutas) produzem turbulências (vrittis) em nossa mente (citta). A mente afetada por essas turbulências pode nos levar inconscientemente a ficar presos a um apego excessivo ao que nos gera prazer, aversão a tudo e a todos que nos causam dor, um medo da vida e da morte (a única certeza absoluta que possuímos) e um sentimento egóico, de sermos os "últimos do pacote". Segundo o Yoga esses são os klesas, as causas da nossa ignorância, dor e sofrimento. Como nos livrar desse ciclo viciado? Eis a proposta salvífica do Yoga: por meio de preceitos éticos (yamas) e morais (niyamas), de posturas psicofísicas (ásanas), atenção a respiração (pranayamas - já que cada padrão emocional está ligado a um padrão respiratório também), o desenvolvimento de um senso de isolamento aos acontecimentos externos (prathyahara), graus de contemplação mais efetivos (dharana), a meditação propriamente diata (dhyana), podemos nos habilitar a experenciar uma comunhão verdadeira conosco, deus, deuses ou qualquer outra definição similar (samadhi).

      

Mas é isso? Não, isso é só o começo; e como é interessante notar como muitos parecem terminar por aqui somente, se maravilhar com experiências. Calma, antes que me apedrejem, não desmereço o samadhi, mas relembro que um grande sábio, o primeiro a sintetizar toda a sabedoria do Yoga ainda por volta do séc.II a.C., chamado Patanjali, escreveu em seu célebre livro (Yoga Sutras), 4 capítulos: Samadhi Pada, onde descreve o que é o samadhi; Sadhana Pada, onde esclarece o caminho do Yoga; Vibhuti Pada, que enumera os "poderes" que um adepto ao Yoga pode alcançar e, o mais importante e muito esquecido, o Kaivalya Pada. O que pretendo com isso? Apenas mostrar como é fácil se perder nos "milagres" que o Yoga pode proporcionar (descrito no 3º cap.) e esquecer-se do 4º capítulo.

    

O samadhi é apenas um estado no qual podemos vivenciar uma sabedoria discriminadora (viveka), livre das turbulências da mente (citta vritti nirodha), não é o fim do Yoga, o fim é ó Kaivalya, como bem Patanjali elencou em seus aforismos. Ainda há um árduo caminho entre muitos "samadhis", por assim dizer, até que a cada experiência integradora como essa ns proporcione novos "vivekas", novas sabedorias discriminadoras dispersando as névoas da ignorância vestidas de apego, aversão, medo e orgulho.

    

É, experienciar aquele "gostosinho" do fim de uma prática bem conduzida de Yoga não significa lá grande coisa se não conseguirmos cultivá-la pelas outras 23 horas do nosso dia. O Yoga não se limita ao nosso tapetinho. A prática é apenas uma tentativa de nos resgatar do profano dia a dia e abençoar-nos com o divino ou o sagrado que vive em nós. O que importa não é gabar-se da sua prática ser mais forte, lenta, antigravitacional, pura, como o seu animal de estimação, sincrética ou mais musical do que outras, mas o que ela muda em você. Longe do Yoga buscar acalmá-lo, diminuir os seus elevados níveis corticóides ou atuar em áreas do seu córtex pré-frontal ou seja lá qual região encefálica, o Yoga visa tirá-lo da sua zona de conforto habitual e de uma vida sem sentido e compaixão. O Yoga não objetiva nos tornar divinos, mas SER humanos.

 

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