Yoga, Espiritualidade e Cura

November 13, 2016

 

 

 

 

Introdução

 

O Yoga é um sistema de crenças vinculado em sua origem ao Hinduísmo, mas também por alquimistas muçulmanos, tântricos, budistas, samkhystas, nathas e outras religiões. Um congresso de medicina com temas como yoga, reiki e daime por exemplo, é bastante controverso, sobretudo pois muitos cientistas realmente acreditam conseguir investigar os resultados de suas pesquisas sem precisar levar em consideração os complexos sistemas de crenças das práticas ou “técnicas” que tomam emprestado de um complexo cultural. 

           

Parece-me a primeira vista, que o Yoga no Brasil ainda não foi totalmente “desencantado” e ainda se vê envolto entre o místico e o científico. Digo de partida que considero (e há sempre um misto de assombro e indignação quando me expresso assim entre colegas yogis e acadêmicos) o Yoga moderno como uma religião não institucional já desvinculado do Hinduísmo. No entanto (e agora para a minha surpresa), nunca há nenhuma reação de espanto ou heresia a nenhum yogi (ou acadêmico) quando um biólogo, por exemplo, apresenta dados em uma revista científica sobre os benefícios da meditação, dos ásanas ou dos pranayamas sobre asmáticos, depressivos, ansiosos ou portadores de HIV, melhor se os grupos investigados forem os do seu próprio “método yoguico de ensino” e ainda mais se o cientista em questão seja um de seus discípulos.

 

Nesta pequena palestra me deterei em descrever a ambivalência que gira em torno do ritual yoguico moderno e as suas relações com a espiritualidade e a saúde. Buscarei demonstrar o porquê e como o ritual yoguico veio se transformando ao longo de sua história antiga até a sua modernidade onde adquire o seu caráter mais eminente de cura pelo “relaxamento”, sustentado tanto pelo discurso biomédico ocidental quanto pelas escrituras redigidas por líderes espirituais do ioga modernos. De alguma forma e, por mais ambivalente que possa parecer, a ciência ocidental vem legitimando as crenças ioguicas modernas ao mesmo tempo em que profana os seus rituais.

 

A visão de mundo pelo Yoga e os perfis de yogis no mundo moderno e secularizado

 

No Yoga, é a partir das técnicas corporais que os valores são introjetados e são construídos no indivíduo em referência ao corpo. Não há como separar a construção do “corpo yogi”, da construção da “pessoa yogi”, pois o ser yogi é sempre corpo-referenciado.

 

O Yoga acredita que o contato dos sentidos humanos com o mundo produzem “turbulências” em sua mente/consciência impedindo-os de “ver” o mundo como ele realmente é, em outras palavras, ignorante ou alienado de si mesmo. Desta alienação espiritual surge comportamentos nefastos e que geram o sofrimento, como o viver apegado, orgulhoso, aversivo com os seres viventes e com medo da morte (esses são os klesas, o mal a ser combatido pelos iogues).

 

Como se livrar desses comportamentos nefastos? Pelo processo ritual ético e corporal do yoga. Os iogues chamam de yamas e niyamas a ética, que são na verdade, dez condutas ou preceitos a observar. E o ritual corporal é constituído de posturas, respiratórios, desenvolvimento (a partir dos anteriores) de uma maior aquisição de um senso de “isolamento” sensitivo aos acontecimentos externos e da meditação propriamente dita.

 

Esse processo ritual diário possibilita que se aumente o prana no corpo do yogi (uma espécie de energia mágica que circunda o universo e que mantém todos os seres vivos). É o livre circular de prana no corpo do yogi que o capacita a experienciar uma comunhão verdadeira consigo mesmo e, por consequência com Deus; estado místico este denominado de samadhi.

           

O samadhi, o oitavo estágio do ritual, seria um estado liminar entre o profano e sagrado, aonde o yogi, livre das “turbulências da consciência cotidiana” conseguiria acessar o equilíbrio energético dos seus corpos e vislumbrar a sua “verdadeira essência”.

           

O yogi então, muito antes do “bem estar” e do “relaxamento” reclamado pelas revistas populares de saúde, almeja samadhi. A saúde orgânica é um resultado secundário. Para os yogis modernos, o que os biomédicos revelam em suas pesquisas fisiológicas sobre os seus rituais são apenas ecos da sua alma. 

 

Enquanto aqueles yogis antigos abandonavam o convívio social e dedicavam a sua busca religiosa retirados em ashrams e cavernas isoladas[5], os yogis modernos capilarizam a sua espiritualidade e adquirem a preocupação de difundir os seus ensinamentos para o mundo. Esta passagem histórica de renúncia necessária ao mundo e agora, de participar do mundo e difundir as suas ideias a sociedades secularizadas, laicas e “desencantadas”, se configura um dos desafios mais marcantes do Yoga que se conhece em sua história (Strauss 2008, p.63-64).

 

Assim sendo, o Yoga atual precisou aprender a lidar com os novos acontecimentos principalmente os advindos do nacionalismo indiano, do ocultismo ocidental, da filosofia Neo-Vedanta, dos sistemas de cultura físicos modernos (DE MICHELIS, 2008, p.20), do islamismo, do cristianismo primitivo, da ciência moderna e do movimento Nova Era (LIBERMAN, 2008, p.100-117). Este é o novo pano-de-fundo que configura o Yoga que se conhece atualmente. Em outras palavras, o yoga não é uma prática “física” e muito menos “petrificada”, mas um rico complexo religioso e, como tal, sempre em transformação. Aplicar as suas práticas rituais retirando-lhe a compreensão de sua lógica espiritual é, desculpe-me o clichê, jogar a agua com o bebe.

                      

Não é coincidência que todas as organizações fundadas por aqueles yogis modernos nunca se furtaram de divulgar em seus sites, páginas de facebooks, livros, palestras e DVD’s, os dados psicofisiológicos publicados em revistas científicas sobre os benefícios orgânicos das práticas rituais yoguicas, pois em uma sociedade secular e privatizada religiosamente, qualquer espiritualidade com características “científicas” são melhor recebidas, e os iogues sabiam disso.

 

Para Iyengar (2001) por exemplo, um dos yogis modernos mais populares e conhecido por incluir utensílios que auxiliem as posturas do Yoga se encaixarem aos corpos enrijecidos, ansiosos e estressados dos ocidentais, “a pessoa indisciplinada é alguém sem religião; a pessoa disciplinada é religiosa; a saúde é religião; a doença é falta de religião” (p.38). No Brasil, o Prof. Hermógenes foi o dos nomes mais carismáticos do ioga nacional e se destaca pelo Iogaterapia e direcionar o seu ioga para “nervosos”. O interessante aqui é o apelo à “saúde” que o Yoga apresenta agora[7].

 

Houve (e ainda está processo) uma ressignificação acontecendo com a doutrina yoguica de outrora (antiga e medieval) e com ela um possível deslocamento do seu sentido de vida transcendente, base de qualquer religião, que descrevemos a pouco.

 

O que pretendo deixar evidente é que as religiões, a ciência, a sabedoria popular, os mitos, as artes e as filosofias são sistemas simbólicos ou de significados, e a cultura, como um texto não formado apenas por palavras, funda-se sobretudo na própria vida “vivida” e incorporada em si.

 

Para os yogis assim, o estresse, a ansiedade e a angústia do ocidental moderno são resultados dos seus desequilíbrios energéticos advindos de comportamentos associados aos klesas (apego, aversão, medo e orgulho) que os tornam deficientes em prana (a energia cósmica que circunda o universo e circula em seus corpos); e não simplesmente a ação do hormônio cortisol que torna crônico o eixo do estresse e faz diminuir o seus sistemas imunológicos. Saca a ideia? A visão do mundo é diferente da que possui um enfermeiro, psicólogo, médico obstetra, assistente social ou educador físico criado sob a tutela do paradigma científico estrito. Esse é o ponto que quero chegar aqui. São perspectivas de realidade que não irão se encontrar no infinito, mas que não impede – não que se tolere – mas que se respeitem.

 

A doença manifestada no corpo pode simbolizar tanto um feitiço lançado por um mago rival, um desequilíbrio homeostático quanto uma prática ritual ioguica realizada de forma incorreta. Não são superstições ioguicas que os “mocinhos da ciência” precisam vir avisar a esse povo menor (do ioga no caso). O que diferencia a “explicação” (e a resposta, tanto física quanto psicológica) é a qual contexto cultural você vive e acredita. E, se você pretende aplicar rituais corporais advindos de outro contexto cultural e espiritual, espera-se que, ao menos, você respeite-os. Mas sobretudo, compreenda que a sua visão de doença e cura pode não ser a mesma do seu paciente. Sacou?

           

Todos os indivíduos assim, vivem, interpretam e escrevem a cultura de forma dinâmica e as respostas psicofisiológicas advindas do ritual também podem ser chaves de interpretação que reforçam valores, símbolos e o conteúdo deste “texto” ou paradigma em que vivem. A secreção de hormônios e neurotransmissores que produzem relaxamento, diminuição da dor, aumento do êxtase, estados “alternativos” de consciência, deprimem a respiração e outras correspondências corporais sentidas no processo ritual podem refletir cognitivamente no indivíduo que participa dele, como uma forma de elaborar o significado simbólico da sua própria realidade (FULLER, 2008).

           

Os yogis modernos, por exemplo, utilizam-se hoje da biomedicina e da neurofisiologia científica como uma espécie de sistema de “crenças” ao lado das suas escrituras. Eles estão ressignificando, adaptando e deslocando as suas crenças da vida que vale a pena ser vivida para fazer sentido dentro de seus próprios dramas pessoais modernos. E, quando você for indicar o seu paciente para praticar meditação/yoga porque assistiu aqui uma palestra observando todas as benéficas repercussões dessas práticas para ele, este irá praticar com um professor de ioga que recebeu formação e as transmite ao seu paciente sob o paradigma da tradição dele. A qual paradigma seu paciente se sentirá melhor? O da ciência ou do ioga? Ou o que ele fará de sincretismo destes a partir de suas próprias experiências?  Think about?

  

 

O ritual yogue revisitado pela biomedicina moderna

 

     Em recente artigo (JAIN, 2010) a autora percebeu que o corpo no Yoga investigado, torna-se uma “sutil metafísica somatizada”, utilizando-se da compreensão biomédica para localizar e identificar as funções de partes do corpo mágico (ou “sutil”) e as suas respostas fisiológicas. Para a pesquisadora, esta reinterpretação não substituiu apenas a simbologia transfisiológica de outrora pela científica moderna, mas a reinventou. É lícito supor assim, que tanto a doutrina yoguica moderna quanto os seus rituais e proposta espiritual de boa vida também tenham sofrido “reinvenções” e ressignificações.         

                              

 

(...) Quando um ásana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparacem. Isso é reconhecido como o repouso na permanência, reflexão durante a ação. Quando os ásanas são executados dessa maneira, as células do corpo, que tem sua própria memória e inteligência, mantém-se sadias. Quando a saúde das células é mantida sadia por meio  da prática precisa dos ásanas, o corpo fisiológico se torna sadio e a mente se aproxima da alma” (Ibid.).

 

    

Acima, o trecho ilustra como as escrituras modernas do Yoga ressignificaram-se a partir desse panorama desenhado pelo encontro dos yogis antigos frente a uma cultura ocidental secularizada. Fica muito evidente a relação íntima que esses yogis fazem entre a saúde, a cura e os seus rituais. E, outra vez, se a sua mente insiste em julgar essas transformações em crenças, peço que esvazie a sua xícara, e pense por quê você se sente “superior” a este modelo de compreender o mundo? Por quê não há modelo certo ou errado, bom ou ruim, mas apenas modelos. E, você como profissional da saúde, deveria humildar-se e substituir a sua arrogância pelo amor.

 

Yoga, saúde e cura

 

A ligação entre saúde e cura é algo bastante evidente e constante nos estudos sobre religião. Assim, é lícito pensar que mudanças no conceito de saúde de uma sociedade também influenciem na compreensão que os religiosos fazem de suas próprias crenças e na configuração de seus rituais.

           

Não é novidade assistir ao Yoga envolto em processos de cura, pois desde o período medieval indiano a sua medicina tradicional, o Ayurveda, sempre fez parte dos seus textos também. A diferença com o período atual está em que a medicina Ayurveda nunca foi laica e a sociedade indiana neste período não era secularizada. Além disso, a medicina tradicional indiana (e acredito que haverá alguma palestra aqui sobre o tema ayurveda) nasceu no mesmo contexto cultural do que o ioga, ao contrário de nós.

 

O antropólogo Luís Duarte (1998) em Pessoa e dor no ocidente desconstrói a arraigada percepção de uma "naturalidade das experiências do sofrimento, do adoecimento e de suas terapêuticas", abordando através da antropologia médica que o corpo sempre está no primeiro plano das experiências do indivíduo, não como organismo natural determinante mas como entendimento que serve de palco ativo da experiência ou vivência dos sujeitos. Ele opõem-se ao "reducionismo biomédico" e as experiências do adoecimento e das suas terapêuticas (p.13-28). 

 

Langdon (1997) em Cultura e os processos de saúde e doença apoia a ideia de Duarte, quando repensa a relação saúde/cultura e propõe um modelo alternativo ao da biomedicina para entender o processo de doença. Segundo ela, a biomedicina distingui-se de outros sistemas de cura por ter um enfoque principal na biologia humana como processo físico/material e no dualismo entre corpo e mente, além da sua perspectiva etiológica como processo único entre causa, patologia e tratamento (p.91).

           

A nova abordagem da antropologia médica, dessa forma, questiona a dicotomia cartesiana presente no modelo biomédico ocidental e concebe saúde/doença como um processo psicobiológico e socioculturais. Nesta abordagem, a doença não é vista como um processo puramente fisiológico, mas como também resultado do contexto cultural e da experiência subjetiva de “sentir-se mal”, quase como uma angústia.

 

Kleinman (1980)[9] questiona a visão positivista de que os processos da doença são limitados aos processos biológicos manifestando-se universalmente e independentemente à experiência da doença. A antropologia médica entende que a divisão cartesiana entre corpo e mente não é um modelo satisfatório para se compreender os processos psicofisiológicos de saúde e da doença satisfatoriamente[10].

           

Tendo em vista o deslocamento sofrido pelo ritual yoguico, de ascetismo transcendente dos iogues antigos nem uma Índia medieval, para o de ritual de cura, sobretudo pelo “relaxamento” no combate obsessivo até do estresse, percebe-se conjuntamente uma relativização da biomedicina e da perspectiva da doença fazendo parte da experiência do indivíduo. O Yoga moderno parece fazer essa tangente ao lado de outras terapias “espirituais” como o reiki, o tai-chi-chuan, a acupuntura e o mahikari que proporcionaram – ou facilitou - à medicina ocidental (ao menos uma parte dela – e vocês são essa “parte”) a repensar o papel da cultura na doença dos seus pacientes, e assim incluir a discussão da espiritualidade e de novas formas de saber terapêutico e curativo.

           

A doença, dentro desta perspectiva antropológica, é sempre interpretada pelo ator, seja como causada pela ação de um vírus, bactéria ou, por ação de um espírito obsessor ou de um mago inimigo(?). A interpretação e escolha do ritual ou tratamento para cura do mal/doença assim, depende também da cultura do doente e do "curador", seja ele um médico, xamã ou yogi, pois o significado dos eventos, seja doença, cura ou outros problemas emergem das ações concretas tomadas pelos participantes e esta visão reconhece que a inovação e a criatividade também fazem parte da produção cultural (ver LEVI-STRAUSS, 2003, O feiticeiro e a sua magia, p.193-214). Não temos tempo aqui mas lendo Strauss você compreende a “aculturação” – leia-se compreensão – de uma nova técnica de cura/terapia ligada ao contexto cultura do doente – e, obviamente, da sociedade. Entretanto, importante ressaltar antes de fechar esse parênteses, quando me refiro a contextualização de um dado doente, não me refiro aos aborígenes da Austrália ou uma tribo do Xingu, mas e sobretudo, da vovozinha que você atende no seu hospital universitário ou em qualquer outro posto de saúde brasileiro. Você realmente conhece o sistema de crenças deles, pois ele já sabem que o seu sistema de crenças está baseado no das ciências. Não que a ciência seja um sistema de crenças, mas que alguns cientistas fazem uso dela como os seus isso é plausível de se supor. Pensem em Amit Goswami e a cura quântica por exemplo. E você?  

           

Os indivíduos de uma cultura por serem atores conscientes e individuais, possuem percepções heterogêneas devido a sua subjetividade e experiência que nunca serão iguais aos dos outros. Dentro dessa perspectiva de cultura como sistema simbólico, os rituais de cura são motivados por dois objetivos: 1) entender o sofrimento no sentido de organizar a experiência vivida e, se possível, 2) aliviar o sofrimento e a dor ou “mal” e angústia existencial, refletida muitas vezes de forma orgânica ou somatizada.

O significado do que é adoecer ou do que é curar-se, portanto, emerge desse processo psicossociofisiológico entre percepção e ação, o que torna plausível o ritual do Yoga moderno existir (ou surgir) atualmente como um sistema de cura, aonde a cura seria maior do que apenas a orgânica.

           

O Yoga então pode adquirer o status de método de cura espiritual para um microuniverso específico brasileiro pelo “relaxamento” graças a um sincretismo de resultados empíricos da biomedicina (que investigou os seus efeitos e benefícios fisiológicos) associados às crenças antigas (prana, chackras, nadis, kundalini e etc).

 

O “relaxamento” produzido pelo ritual do Yoga moderno e o espírito do capitalismo       

 

Martins (1999) descrevendo processos rituais de cura de novas espiritualidades como o Yoga, acredita que:

                              

Através de exercícios, de práticas expressivas, o sujeito constrói um outro corpo para si mesmo. Um corpo que perderá as marcas, não só de sua origem de classe, como de pertencimento a qualquer grupo social, na medida em que o corpo natural é reencontrado (...) como a libertação das instituições sociais tradicionais, por um lado, ao qual se segue um ideal de libertação individual dos condicionamentos sociais, neste caso através do corpo.

 

Em um mundo globalizado e de inúmeras demandas diárias, a agitação do dia-a-dia e o sentimento de estar conectado o tempo todo, pode estar causando a uma parcela da sociedade brasileira um sentimento, que Christian Dunker descreve como uma espécie de mal-estar advindo da “lógica dos condomínios”. Os condomínios seriam um modelo que deveriam nos dar maior sentido de proteção e “tranquilidade”, mas que com o tempo torna-se mais um fator de estresse e vigilância, típico de uma sociedade líquida, como esclarece Bauman.

           

Assim, o “relaxamento” constituir-se o principal fator do ritual yoguico moderno o que retoma a nossa pergunta de título, essa “transformação” pelo qual o ritual e doutrina yoguica passou no seu encontro com a biomedicina ocidental se constituiu um desenvolvimento adaptativo da proposta de salvação do Yoga contemporaneamente.

           

A “espiritualização” do relaxamento visto no Yoga, segundo Singleton, é algo construído do seu encontro com terapias proprioceptivas, biomedicina, psicologia humanista e uma variedade de especulações esotéricas ocidentais e nada tem a ver com as suas práticas rituais, soteriologia e doutrinas antigas.

 

O autor explora o termo “relaxacionismo” (relaxationism) no intuito de oferecer uma oportunidade de interpretar modernamente o ritual do Yoga como uma terapêutica que nasce do seio do movimento religioso denominado Nova Era. O Yoga moderno se torna, continua o autor, uma nova religião que salva pelo “relaxamento”

 

Dessa forma Singleton, alicerçado por outros colegas, deixa claro que o relaxamento não deriva da tradição antiga do Yoga mas é uma criação conceitual da função e objetivo do ritual yoguico atual, ou seja, um constructo do momento histórico em que vivemos agora nas grandes metrópoles do mundo.

           

O Yoga que se conhece hoje e os seus rituais curativos por meio do relaxamento podem ter sido bem aceitas e incorporadas ao longo da sua consolidação nas modernas cidades pois, contribuem para uma cultura consumista, “estressada” e carente de espiritualidade. O relaxamento advindo do ritual corporal do ioga mais do que aumentar a eficiência individual do trabalhador, como se diz, “recarregando as suas baterias” após um dia estressante de labuta, amplia em seus praticantes um sentido vida no caos de nossas atribulações diárias.

 

Conclusão

           

Nunca me esqueço no final da defesa de doutorado de quase 5 horas do meu amigo Marcello Árias, argumentando o yoga como uma eficiente técnica terapêutica para cuidadores de pacientes com Mal de Alzheimer, ele diz: “Aonde e como estão os meus voluntários/pacientes que trabalhei ao longo desses 4 anos?”. Aqui ele se referia, ironicamente, que ninguém na banca havia se quer se perguntado como o “n” dele estavam agora?

    

Ao invés de vocês, profissionais de saúde, interessarem-se tão somente com as repercussões terapêuticas “academicamente” publicadas nas mais conceituadas revistas estrangeiras, por que não perguntarem-se qual o benefício que o nosso sistema de saúde ganha com tais aproximações com essas controvertidas práticas espirituais e compreensão de complexos sistemas de saúde-cura e salvação do sofrimento humano? Talvez, antes de mais conhecimento – como se fossemos progressivamente acumulando mais e mais sabedoria e nos tornaríamos em futuro próximo os mais inteligentes -, busquemos humildemente humanizarmos como profissionais da saúde.

    

Mais do que tolerância a outros sistemas de conhecimento e interpretação de saúde – e da realidade – busquemos atingir respeito por outras espiritualidades. Afastar a espiritualidade das pesquisas com saúde é não compreender nada de outras tradições, é julgar estar acima de outras culturas e, com isso, diminuir o amor entre os seus semelhantes.

 

Não reduzam o ioga e a sua espiritualidade para a saúde em determinadas áreas encefálicas, grupos musculares e hormônios benfazejos advindos da meditação por exemplo. Mas agreguem esse conhecimento ao contexto sincrético do brasileiro comum; que experiências isso tudo e vive a sua vida, assim como você, em busca de sentido para levantar da sua cama toda a manhã. Iogues e cientistas nunca verão o mundo sob a mesma ótica... Excelente, pois isso possibilita-os a viverem criando as suas próprias realidades de como ser feliz.

 

Referências

 

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Notas

[1] O que quero salientar com essa observação é que se passaram muitos anos e é natural que outras culturas se chocaram com o ethos yogi e o deslocou e ressignificou ao longo da sua história.

 

[2] Povo autóctone indiano.

 

[3] Povo que invade a Índia e traz consigo o que conhecemos como Bramanismo e o seu rígido sistema de castas e a ideia de reencarnação e carma.

 

[4] Lembre-se que ele é o primeiro yogi moderno que desembarca no Ocidente, sendo convidado a se pronunciar sobre a religiosidade indiana no auge da luta pela independência do seu país contra os ingleses que não respeitam o ethos e a visão de mundo do seu povo por considerá-la mágica, ritualística e primitiva comparada com o ideal asceta protestante dos ingleses.

 

[5] Ver sutra I.16 do Hatha Yoga Pradipika, uma das primeiras escrituras yoguicas medievais em SOUTO, A. 2009. A essência do Hatha-Yoga. São Paulo: Phorte Editora.

 

[6] Utilizo-me aqui do conceito de STARK & BRAINBRIDGE (2008).

 

[7] Para se entender o que permitiu esta configuração atual e que transformou (ou deslocou?) a religiosidade yoguica para uma “técnica” física e terapêutica é necessário voltar para o ano de 1750, período histórico em que o continente indiano inicia um processo que veio mais tarde ser chamado de “Renascença Indiana”, quando a cultura deste país principia um diálogo maior e aberto com o mundo ocidental (ver SIMÕES, 2011).

 

[8] Tanto por indivíduos em experiência prévia quanto por yogis experientes que se submentem a serem investigados.

 

[9] http://books.google.com.br/books?id=ZRVbw6-UyucC&printsec=frontcover&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

 

[10] Levi-Strauss (1975) em A eficácia Simbólica demonstrou isso na descrição de como um xamã Cuna conseguiu tranquilizar uma mulher com dificuldades no parto através dos cantos rituais para levar o parto a um final feliz.

 

[11] Digo isso, pois como se disse, ele pode ser praticado de forma laica e sem nenhum caráter “espiritual” hoje em dia.

 

[12] Coloco relaxamento entre aspas, pois é um modo de expressar algo maior do que apenas relaxar, mas de atenção plena ou mindfulness.

 

[13] Uma parte do do seu ritual moderno que se aplica invariavelmente no final do processo com a pessoa deitada no chão, olhos fechados e o corpo imóvel.

 

[14] Ver SOUZA (1999) a sua crítica ao discurso de Weber na comparação entre católicos, “orientais” e os protestantes frente aos modelos de capitalismo possíveis.

 

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