Yoga Trágico

May 13, 2017

 

É bastante comum que a interpretação da ética ioguica (leia-se a vida que vale a pena no ioga) seja traduzida por seus contemporâneos (tanto os tradicionalistas, quanto os híbridos) como de esperança de um mundo melhor se todos meditarem e adotarem as dogmáticas ioguicas (não-violência, não roubar, não-mentir, ter a sua sensualidade, dedicar a sua vida a Deus, realizar rituais corporais específicos e etc). Está implícito nas narrativas de líderes, santos, comentaristas e iogues uma visão positiva da vida, pois já seríamos perfeitos em si-mesmos e o futuro é de nos reencontrarmos com a felicidade que já somos, mas não sabemos. Ao contrário da ética cristã que propõe um nascimento a priori pecador, os iogues creem no nascimento da alma imaculada mas que se contaminará no contato com vida. Enquanto cristão passa essa vida sofrendo na espera do paraíso eterno em outro mundo, o iogue nasce puro, mas sofre por ignorância. A esperança iogue é encontrar o "paraíso" na imanência (kaivalya) mas com vistas na transcendência, pois no final o iogue visa não mais reencarnar e sair da roda de samsara, que aqui mesmo aonde estamos agora. 

 

Mas essa perspectiva feliz da vida, na minha compreensão pode ser analisado de forma trágica (no sentido filosófico) lendo as escrituras ioguicas; e buscarei, neste pequeno ensaio, ressaltar três: o Nada que encontramos nas práticas meditativas, cerne do ioga; o confronto com a guerra, metáfora explícita da vida, no Gita, uma das narrativas míticas fundantes do ioga; e a ressignificação moderna das causas do mal no ioga (klesas: apego, aversão, medo da morte e orgulho) por indicadores fisiológicos espirituais.

 

 

O Nada

Há uma esperança do ioga como libertador das agruras do mundo. Meditar nas praças para abaixar níveis de violência, posturas para dor de cabeça, respiratórios para dormir melhor e a crença da sua filosofia tornar toda a humanidade feliz.

 

É de consenso também que a prática meditativa, constituinte basilar de qualquer tradição ioguica, nos confronta com o Vazio. No início da prática contemplativa são múltiplas formas e conteúdos que surgem no palco da consciência e o esforço do iogue é mais e mais ir diminuindo o número de objetos até fundir-se totalmente com ele. Seja um mantra, a chama de uma vela, a imagem divina ou a atenção passiva dos próprios pensamentos; o que se objetiva é não haver mais o objeto da meditação, mas sim a fusão (samadhi).

 

A própria definição do ioga nos conduz a essa afirmação: o ioga é a paralisação voluntária das modificações conscienciais (ciita-vrtti-nirodha). Quando essa experiência ocorre o iogue experimenta a sua verdadeira natureza, diz suas escrituras. A verdadeira natureza humana para o ioga é a que não mais se modifica pelas energias que o atravessa nos seus encontros com o mundo.

 

Os textos ioguicos esclarecem que a Perfeição que Somos é rompida quando nos identificamos erroneamente com os afetos do mundo. Mas interrompido os reflexos ilusórios do corpo-mente com o mundo, alguns comentadores dizem que vivenciaremos um estado aonde não sofremos mais. O sofrimento, continuam, advém da ignorância de não percebermos que somos uma alma imaculada, que não se contamina com as imperfeições do mundo.

 

Mas o que nos resta quando cessam os objetos conscienciais? O que permanece quando deixamos de ser afetados pelo mundo senão a experiência de um enorme Nada que somos? Um ser imperecível, que não se modifica. O Absoluto do ioga (equivalente a Deus) é um profundo silêncio.

 

Somos um Nada, mas sendo assim podemos nos esforçar para sermos só o que pudermos ser; ou melhor dizendo, compreendendo a "mecânica" das afecções do mundo em nós, imaculados por natureza (purusa), não deixaremos mais ser levados tão facilmente pelas oscilações de humor e emoções nefastas. Vivenciando a cada meditação (leia-se todo o complexo que circunscreve o ioga) compreenderemos mais e mais o que não somos (leia-se que não se deixa contaminar) e perceberemos a transitoriedade da vida, assim como os encontros que passamos e iremos passar. Tudo transitoriedade, tudo um instante.

 

Por isso que a postura do cadáver, o ásana final de qualquer prática ritual de ioga, dura menos de 30 segundos nas aulas por aí. Não é coincidência também que um dos klesas (ou causadores do "turbilhão da consciência" ou vrttis) seja o Medo da Morte, pois o que o ioga nos revela é a tragédia que a vida se revela a todos os seres humanos. Mas, abraçando com coragem o Nada que somos e superando a angústia existencial de se viver, alcança-se, para alguns poucos, o sentido que você deseja construir para si-mesmo ou apenas aceitar o Silêncio eterno que o constitui.

 

 

A Batalha no Gita

Uma das cenas mais emblemáticas na narrativa mítica do ioga é a do início da batalha em que Arjuna conversa com Krishna no clássico Baghavad Gita. Nesta passagem, quando há os dois exércitos no campo de batalha prontos para a guerra e Arjuna se apequena e decide não lutar, Krishna literalmente pára o tempo e ensina os princípios do ioga ao seu jovem discípulo. O espaço que se cria por Krishna é de reflexão da vida. Podemos até mesmo pensar nos períodos melancólicos e de depressão que se acompanham a todos períodos de angústia existencial e amadurecimento em que todos passamos em uma ou mais vezes na vida e, no qual Arjuna representa. Diante de tanta bestialidade do mundo, aonde não encontramos mais sentido na vida, nos amedrontamos e deliberadamente não conseguimos dar mais um passo a frente e nos encolhemos, fechamos as janelas do quarto e percebemos a nossa potência de agir diminuída e os encontros infelizes se avolumando.

 

Essa pode ser a representação na parada no tempo nesta cena e a guerra entre os iguais, pois há parentes de Arjuna no exército inimigo que ele precisa travar uma sangrenta luta. Não faz sentido ao imaturo e moral herói, que é você, eu e todos os iogues que ele representa com o medo de se encontrar consigo mesmo e os infortúnios da existência, mas sobretudo, de enfrentar tudo o que ele acredita ser injusto lutar; diante disso, ele toma a decisão covarde de sair de cena, que pode ser aventado aqui como um período de depressão também, aonde não se tem forças de qualquer atitude. E a saída dada a Arjuna por Krishna não é outra a não ser matar e sofrer o risco de morrer, mas nunca de não prosseguir. Não houve soluções diplomáticas, palestras motivacionais de auto-ajuda ou disposições de valor; não, a decisão é se lançar a guerra, metáfora da própria vida. É óbvio que Arjuna vai magoar e sair magoado, é evidente que sairá ferido e machucará outros tantos, não há dúvidas que é sangue sobre sangue que amanhecerá manchando o corpo e a alma do nosso herói, pois na vida não há final feliz. Neste mito épico e crucial no entender do ioga, Krishna, figura que representa o iogue-ideal, o próprio Deus, não deixa dúvidas que viver perigoso, já dizia Guimarães Rosa. E no fim, a questão é aprender a lutar a guerra e não buscar uma saída pacífica aonde ninguém se fere. Não há guerra sem tragédia.

 

Causas modernas do Mal ioguico

O ioga em suas escrituras sempre deixou evidente que as causas do Mal é a ignorância, como já adiantamos na subseção primeira. A ignorância (ou ilusão se assim você preferir) é a mãe dos comportamentos nefastos de apego, aversão, medo da morte e orgulho ou egoísmo. Em outros textos, mas sobretudo na minha tese de doutorado, trato isso com maior propriedade (você até mesmo ouvir a tese inteira comentada por mim em podcast gratuitamente), mas de forma geral, entendo que a ignorância e suas consequências se ressignificaram na contemporaneidade quando a fisiologia biomédica se encontrou com a espiritualidade ioguica. Mas essa ressignificação com a ciência não desencantou o ioga, pelo contrário, deu maior legitimidade as suas escrituras. Hoje, a ignorância parece advir dos estados de estresse psicofísicos e, devido a isso (a uma referência empírica "confiável" e "verificável" pela ciência), ninguém mais se preocupa se vive apegado, aversivo, temendo a morte ou orgulhoso. Dito de outra forma, pode até se compreender que esses comportamentos podem ser nefastos, mas o ioga pensa os "controlar" com a prática de ioga aferindo níveis de estresse em si mesmo. O estresse no ioga vem ganhando um caráter espiritual por assim dizer, ele reflete as flutuações da alma em última instância. Quanto mais estressado ou ansioso tanto quanto pior para a alma iogue encontrar a sua paz interior.

 

Pois bem, essa análise fisiológica da espiritualidade ioguica nos permite utilizá-la como uma ferramenta sociológica e filosófica também do microuniverso ioguico contemporâneo. Sabe-se que tomando emprestado conceitos fisiológicos para explicar a espiritualidade do ioga moderno, podemos expandir para uma compreensão do funcionamento do corpo do iogue e suas implicações soteriológicas (palavrão da filosofia que designa a proposta de libertação espiritual de uma dada religião, no caso o ioga). Se os iogues contemporâneos cambiaram o termo klesa ou causa do mal no ioga para estresse, é evidente que essa mudança reflete transformações na sua perspectiva de vida também. Todas as religiões e espiritualidades no confronto com novas sociedades e culturas se ressignifica para continuar viva e a história é coberta de exemplos que me abstenho de elencar aqui por questões de espaço. Dessa forma, o que antes (klesa-mãe Ignorância) era uma categoria imperativa e determinativa para uma Índia de sociedade estratificada, portanto, de nenhuma mobilidade social; as variantes emocionais eram de certo grau menor e a resignação frente a vida era maior, ou seja, ninguém perdia muito tempo (na Índia do séc.II aC quando o ioga fora sistematizado pela primeira vez) pensando na vida que poderia ter sido e não foi por incompetência "empreendedora" sua ou de sua família. A vida era assim e ponto. Sem dúvidas a sociedade de castas indiana influencia na ética do ioga daquela época, como a nossa hoje, democrática-liberal de consumo influencia a do ioga dito moderno, pelo simples fato de existir como espiritualidade na era moderna (ou pós-moderna).

 

A transformação (em andamento ainda) do ioga contemporâneo, que percebe o estresse como causa-efeito ao mesmo tempo do Mal no ioga (leia-se o que causa o sofrimento humano), nos torna lícito supor também, mantendo a linguagem fisiológica de sua espiritualidade, que mais do que se buscar um estado eterno do fim do Estresse-klesa-Mal, há uma percepção mais real na tragédia da vida. Digo isso pois não há fim do estresse na vida, mas um jogo eterno de busca por equilíbrio dinâmico mas nunca estabelecido eternamente, que denominei de Homestase Divina. A Homeostase Divina como correspondente mítico-fisiológico contemporâneo de Kaivalya (ou Estado Último do ioga, uma espécie de "Nirvana ioguico") faz sentido se pensarmos em uma espiritualidade ioguica em dialética com a cultura pós-moderna e não monolítica como alguns teólogos ou iogólogos o compreendem. Em outras palavras, o ioga dos nossos tempos, período este de secularização, de descrédito as instituições religiosas e de privatização religiosa possibilitou aos iogues compreenderem o lado trágico da vida. Ao invés da busca pela felicidade eterna pós-Kaivalya, os iogues atuais visam compreender a dinâmica da vida, representada pela busca por uma Homestase Divina, que nunca tem fim, mas está em constante e dinâmico jogo de impermanência na luta contra o Estresse-Klesa-Mal, causador e causa das flutuações da consciência.

 

Considerações Finais

Ao invés de uma sociedade sem mobilidade social, portanto, mais previsível e ordenada; a sociedade líquida em que vivemos pode ter acarretado mais clareza da dimensão inexorável de tristeza da vida, e os iogues ao invés de buscarem a utopia de um mundo de 7 bilhões de habitantes felizes, mais maduros parecem se encaminhar para a coragem de assumir o Vazio e o Nada que são por "natureza". Um enorme Nada atravessado de energias que o movimentam ora para alegria, ora para tristeza. Essa é uma guerra que quem se apequenar morre inerte no canto como uma pedra sem coragem de levantar a cabeça e se erguer sozinho. A vida, já ensinara Krisnha, é um campo de batalha. A percepção do ioga contemporâneo frente a novos desafios do seu próprio contexto cultural, globalizado e com uma economia liberal e de consumo que, ao contrário dos tempos ioguicos de outrora com sua vida estratificada, compreende hoje todos iguais e não separados eternamente por distinções sociais e espirituais. Essa perspectiva igualitária pediu aos iogues transformações; ao invés de uma visão de vida com final feliz, o ioga veio se construindo (e ainda o está) como possível de momentos de alegria entremeados de tristeza (homeostase, lit. a busca por um equilíbrio sempre rompido por agentes estressores). O ioga, portanto, carrega em si também uma versão trágica da vida, de impermanência, de vazio e Nada.

 

Por mais afastado, eu sei, da versão positiva e feliz que o ioga moderno exorta, as narrativas ioguicas também podem revelar um cenário mais pessimista, mas nem por isso de menor valor ético e apequenador da potência humana. Muito pelo contrário, a possibilidade de uma visão trágica no ioga pode produzir pessoas menos iludidas e esperançosas de soluções prontas que este ou aquele iogue oportunista pode se autodeclarar portador. Quando estes perceberem que o ioga não promete o fim do sofrimento mas um caminho espiritual de conviver com os seus próprios demônios (lembrando de o diabo são os outros como já anunciava o filósofo), numa luta constante e dinâmica em busca de um equilíbrio benfazejo dos afetos que nutre com o mundo, mas sem falsa esperança de que em 5, 6 ou 10 passos alguém, além de você mesmo, possa lhe restituir a beatitude perdida.

 

A perspectiva passa longe da felicidade eterna, do fim do sofrer, mas mergulha de cabeça no abismo trágico da vida. Essa perspectiva não contempla um final feliz pois o mal e o bem sobrevivem e não há nada que se possa fazer para sanar essa equação. O fim é a morte e não a vida. Não há como promessa um mundo mais feliz com pessoas abraçando árvores e salvando baleias enquanto comem alface, seja aqui ou em outro mundo. O ioga nos revela o lado trágico do existir como parte imanente da existência e não como algo possível de estar liberto. Kaivalya não é o fim do sofrer, mas a tomada de consciência deste. O fim da ilusão, no fim revelada pelo ioga, é o da busca do paraíso.

 

Quando confrontado com o Nada e o Vazio que somos, não há promessa de vida feliz eterna como se propaga os mais ilustres mestres e líderes do ioga, mas da aceitação do jogo de afetos do mundo em nós e com os outros. Por isso que muitos fogem da meditação sem floreios e cânticos que podem muito mais trazer uma aura de fuga do que introspecção para o Silêncio profundo que somos. Por isso que todos ficam obsessivos com as posturas circenses e os resultados estéticos (no sentido físico, pois se fosse o filosófico até que seria bacana) e se "esquecem" da contemplação. Pois contemplar si-mesmo é angustiante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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