Yoga e as Doenças da Alma Moderna

March 13, 2018

 

 

Introdução

 

            Vivemos em uma sociedade do cansaço. O tempo é escasso e ninguém se permite a perde-lo. Parece que se vive constantemente em apneia. A alegoria parece exagerada, mas a respiração curta, como reflexo fisiológico, acarreta menor captação de oxigênio do ambiente e a percepção é de total esgotamento físico. Não é coincidência também a resposta trivial a uma pergunta bastante proferida no dia-a-dia: Como é que você está? Está fazendo o quê? O seu dia hoje, como o sente? A resposta é quase (obrigatoriamente) sempre a mesma (e com certo orgulho em alguns núcleos sociais): Na correria!

 

            Com isso, estamos contraindo doenças manifestas não por agentes físicos, como um vírus ou bactérias, mas por agentes mentais ou subjetivos. Enquanto as primeiras podemos identificar com microscópios e outras máquinas da medicina moderna como ressonantes magnéticos e tomógrafos por emissão de pósitrons, agentes mentais ou subjetivos não há como combate-los mesmo com toda a tecnologia disponível. A ansiedade, a síndrome de burn-out (esgotamento ou “estresse”), o transtorno de déficit de atenção e a depressão ecoam fisicamente, não há dúvidas, por outro lado, é impossível aloca-las em um tubo de ensaio como o fazemos com o vírus da influenza dissipador da gripe. Desenvolvemos medicamentos para combater apenas os efeitos secundários (ecos corporais) destas mazelas metafísicas, mas o aniquilamento de algo não-material nunca poderá decorrer (definitivamente) via medicamentosa; ela requer uma resposta criativa, amorosa e da mesma natureza sutil de sua manifestação.

 

Mente-Corpo influenciando um a outro

 

            Para estas doenças metafísicas (ou da alma), a abordagem psicanalítica de Sigmund Freud revoluciona os tratamentos médicos quando inclui o diálogo como remédio. Freud para lidar com doenças não-físicas cria uma novo complexo de conceitos (igualmente metafísicos), como id, ego, super-ego e a ideia do recalque para combater os fantasmas da mente. Os recalques, como a própria psicanálise freudiana denomina, são defesas mentais contra ideias contrárias ao nosso eu; estes funcionariam como uma espécie de “autoproteção” ou o “sistema imunológico” do corpo mental. O problema é que os pensamentos recalcados podem voltar a superfície da consciência como doenças mentais (mesmo que manifestas no corpo e/ou comportamentais). A interpretação dos sonhos foi uma estratégia freudiana para acessar a esse recalques e ajudar seus pacientes a lidarem melhor com a suas próprias dificuldades na vida.

 

            Entretanto, é efetivamente com um de seus discípulos, W.Reich, que o corpo começa a ser ouvido e não apenas percebido como um receptáculo inerte dos conteúdos mentais. W.Reich põe o movimento corporal em dialética com as agruras de nossas almas. Ele percebe que se poderia abreviar anos da psicanálise exclusivamente verbal por abordagens corporais, quando incluído determinadas técnicas respiratórias, musculares e de relaxamento associadas com o direcionar da atenção para o conteúdo inconsciente advindos dessas manipulações fisiológicas. Ele observou que determinadas áreas corporais apresentavam-se, em alguns de seus pacientes, demasiadamente contraídas (ou crônicas) e, que quando relaxadas, traziam à tona os recalques, ou seja, as feridas da alma deslocadas para um espaço não consciente, pois “feriam” a constituição psíquica (imaterial/subjetiva) do eu daquele indivíduo. Ele denominou essas específicas áreas corporais/musculares, cronicamente contraídas, de “couraças neuromusculares do caráter”.

 

            A proposta psicanalítica reichiana sugeria identificar o problema que trazia o paciente até seu consultório, depois observar o caminhar, o respirar, os gestos e a postura em si deste indivíduo. Desta observação corporal identificava-se as couraças musculares e recomendava exercícios de “soltura” e relaxamento apropriados. Quando isto alcançado, se iniciaria o diálogo sobre o conteúdo advindo à consciência. O interessante desta perspectiva psicanalítica é a sua naturalidade. E exemplos não faltam.

 

            Se observarmos meninos pré-púberes brincando nas quadras esportivas e pátios escolares é fácil constatar como um testa a força do outro, mas sobretudo, como é evidente a tentativa de superação da dor nas brincadeiras de socar o corpo do colega. As brincadeiras de luta são comuns entre os machos de qualquer espécie. Sempre que é previsto o impacto de um corpo no outro, o receptor contrai violentamente os músculos correspondentes ao impacto do oponente no intuito de sentir menor sensação de dor; na verdade ele antecipa a sensação de dor e contrai a região corporal do impacto. O grande triunfo está, por intermédio de estratégia combinada, atingir o corpo do oponente relaxado, em palavras mais simples, quando este não está esperando o impacto, pois é neste momento de alienação de si-mesmo, que as fibras musculares receberão a colisão descontraídas e relaxadas, percebendo e sentindo mais sentimentos advindos do mundo que o cerca.  

 

            Mas por quê relaxadas? Pois “relaxado dói mais”, responderá prontamente qualquer leitor do gênero masculino que já se viu trocando socos entre os machos de sua espécie. Quando contraímos os músculos sentimos menor a percepção de dor; “aguentamos” mais a violência que encontra nossos corpos. Sem dúvidas, contraídos sentimos menos o impacto do mundo sobre nossos corpos. Sentimos menos dor, sentimos menos frio, mas também menos carinho, amor e compaixão do outro.

 

            W.Reich percebe essa natural defesa orgânica e, com seus estudos mente-corpo, minimiza o hiato que havia entre o corpo, a mente e as doenças da alma (ou psíquicas). Ele demonstrou o quanto do inconsciente se mostrava no corpo e vice-versa. Algumas vezes, como recalque, guardamos o conteúdo psíquico que nos ameaça e que gostaríamos de “esquecer”; em resposta, contrações musculares inconscientes que, repetidas vezes sendo vivenciadas, podem vir a se tornar crônicas, transformando-se no que W.Reich denominou de couraças musculares do caráter. Em outras palavras, a antecipação da dor e do sofrimento de uma dada situação vivida ou, na sua maioria das vezes, apenas imaginada/criada, realizamos mini-contrações involuntárias tornando-as, pela recorrência, crônicas e guardando nestas tensões musculares os nossos mais profundos ressentimentos do mundo. Além disso, como adiantamos acima, essas regiões cronicamente enrijecidas, sentirão menos sofrimento, mas de igual maneira, se poupará dos momentos prazerosos da vida como afago da pessoa.

 

            E quando uma dessas doenças metafísicas nos atormentam a alma, tornando-se um empecilho para uma vida mais plena, podemos relaxar essas regiões musculares crônicas e acessar o seu conteúdo inconsciente “represado”. Trazido à tona não iremos curar essas feridas mentais, mas aprender como melhor manejá-las para conviver de forma mais benfazeja com nós mesmos e os outros. Dessa forma, o diálogo associado à técnica de relaxamento corporal como tratamento proposto pela psicanálise (pois não é coincidência que Freud utilizava um divã, o intuito é obviamente de indução ao relaxamento) é, atualmente, uma das vias terapêuticas para os males que afetam as almas que vivem nas contemporâneas sociedades do cansaço, da máxima informação e do nenhum diálogo verdadeiro. O corpo se tornou o objeto a ser exposto, consumido e jogado fora, e perdemos a concepção de nós mesmos integrados com quem realmente somos.

 

            De alguma forma é lícito supor que, mesmo não possuindo nenhuma moléstia física a tratar, o foco assertivo da atenção para os problemas que nos afligem, o diálogo e o relaxamento corporal possuem em si o potencial transformador em seres humanos melhores. 

 

Doenças da alma em sociedades do cansaço

 

            Afirmo isso sabendo que se você hoje, em um consultório de medicina, quando indagado pelo médico sobre o motivo da sua visita responder que “está bem”, mas o motivo da consulta é se tornar um indivíduo melhor, de duas uma: ou lhe indicam um psiquiatra (por acreditar que você não está “batendo bem das ideias”) ou encomendam uma bateria de exames com o intuito de encontrar alguma doença física a tratar. Se você visitar um fisioterapeuta, o mesmo: este profissional da saúde lhe exigirá que caminhe por cima de uma folha em branco no chão com os pés pintados de preto e fotografará você em diversos ângulos a frente de uma parede quadriculada; tudo na ânsia de se localizar desvios anatômicos a serem cuidados. Mesmo que se visite um psicólogo, ao ouvi-lo afirmar que você está bem mas quer se transformar em alguém melhor, o psiquiatra poderá surgir na conversa novamente, pois realmente não é comum tal pedido em consultórios de qualquer o ramo da medicina convencional. 

 

            Desde a década de 1960 a assim chamada Medicina Mente-Corpo se dedica a compreender os processos do pensamento a influenciar a saúde do organismo. As terapias que são tradicionalmente definidas como mente-corpo incluem biofeedback, hipnose, meditação, visualização dirigida, técnicas de relaxamento, yoga e tai chi chuan. Pelo seu baixíssimo custo, as terapias advindas deste modelo de medicina tem sido amplamente empregadas nos mais modernos centros de pesquisa e hospitais do mundo inteiro. Entre todas estas terapias, sendo dúvidas a meditação é a mais bem investigada. Herbert Benson nos anos de 1970 foi o médico que primeiro veio a compreender a benfazeja ação da meditação como resposta ao ritmo alucinante de nossas cidades e como esta aceleração afetava negativamente o organismo humano.

 

            Como se pode ler em outros textos aqui do blog, o estresse em si, sob a ótica estrita da biologia, não é nefasto aos seres vivos, muito pelo contrário. Entretanto, somente em sua terceira fase (a de exaustão), o estresse apresenta o seu lado deletério e perigoso à saúde. A terceira fase do eixo do estresse poderíamos resumir como a resposta do organismo a um agente estressor que não permitiu o retorno do corpo ao seu estado de equilíbrio (homeostase). A permanência nesta fase de desajuste, conduz o complexo corpo-mente em exaustão e doenças.

 

            Quando somos acometidos a agentes estressores físicos, como o calor, o frio ou um vírus da gripe podemos identifica-lo e combate-lo mesmo quando o organismo não dá conta disso, mas (como já adiantamos) quando o agente estressor é não-material - como uma conta no banco para pagar sem termos recursos ou uma situação de infidelidade conjugal -; mesmo com todas as possíveis ações a serem tomadas (de pedir dinheiro emprestado ou pagar a traição na mesma moeda), estas ainda não aplacariam a agonia de não ter o que fazer a não ser resignar-se. A angústia, ou o medo por algo que você não sabe nomear, é o perigo que faz espreita a todos os agentes estressores metafísicos desencadeadores da fase de exaustão do estresse. A fase de exaustão (ou crônica) do estresse poderia muito bem ser descrita como um animal, que depois de ter buscado inúmeras saídas para o“labirinto”que lhe acometera não consegue encontrar uma saída. O seu esforço é tamanho que este se entrega e pára de buscar respostas, se deprime e, literalmente, não encontra mais um sentido para a sua vida.

 

             Se testarmos os níveis de estresse de um rato de laboratório prendendo-o em uma placa de metal que emitirá choques leves de forma aleatória, no intuito de observar os três níveis do estresse (fase de alarme, adaptação e exaustão), conseguiremos compreender melhor o que buscamos descrever aqui.

 

            Na primeira fase (alarme) o ratinho rapidamente identificará o choque percorrendo o seu corpo e buscará de forma desesperada se livrar das garras em suas patas. Nesta fase ele chega até mesmo a se machucar como resposta de luta-fuga desencadeada pelo agente estressor. No estágio seguinte do estresse (adaptação), o animal buscará respostas e saídas para a o seu agente estressor. Em nosso caso, o ratinho buscará adivinhar o momento que a descarga elétrica será alijada na placa metálica e tentará saltar para que o seu corpo não encontre o choque. Mas eles serão aleatórios e impossíveis de ser prever.

 

            Todas as tentativas antecipatórias (de ajuste homeostático) do ratinho serão infrutíferas, podendo durar alguns minutos ou dezenas deles – pois cada ser vivo adquire, ao longo de sua existência, graus variados de resistência física e mental. Sem sucesso em seus tentames de aliviar o desgaste dos choques em seu corpo, o ratinho do nosso exemplo, adentrará no terceiro nível de estresse (exaustão). Agora nesta fase, depois de minutos intermináveis de busca por uma saída ao agente estressor que o atormenta sem parar, o animal se entrega e desiste da luta pela vida. Neste momento, pode-se soltar as garras que o aprisionam, mas ele continuará levando choques sem se mexer, inerte (ainda vivo), mas exausto e sem forças para reagir mesmo estando livre fisicamente.

 

            Agora, ele estará aprisionado mentalmente. E esse mal-estar é ocasionado por um agente estressor não físico – seja o choque, a falta de grana ou a compreensão de ser corno. Em seres humanos podemos descrever esse mesmo quadro como depressão: quando todas as respostas ministradas para dar cabo ao agente estressor foram inúteis para se esquivar dele. Na fase de estresse crônico, a vida pode deixar de fazer sentido. Em toda depressão, angústia, ansiedade e déficit de atenção, guarda em si, um ódio sobre o que não se consegue vencer ou nomear, por isso que, invariavelmente, nestes casos o doente projeta a sua dor no outro. Mas quando percebe que o mal está instalado nele mesmo e ninguém pode ser culpado, este animal (um rato ou humano) entrega a passa a viver a acuado em um canto - seja este canto qual for: uma profissão que não deseja, um casamento falido ou outras inúmeras maneiras de não-vida. A busca por abreviar a sua existência pode ser a sua única e “lógica” saída que sobrevoa mentes atormentadas.

 

            Há muito a se mudar nos currículos e preparação dos profissionais de agentes de saúde, assim como muitas críticas podem advir dessas breves argumentações que visam unir o movimento e a saúde. Mas os primeiros passos podem já ter começado a serem dados a favor da mudança.

 

Yoga/Meditação   

    

            Há um generalizado equívoco com relação ao yoga e a meditação. É possível meditar sem ser yogi, mas impossível o seu contrário, ou seja, praticar yoga sem meditar. A meditação é, portanto, o cerne do yoga. Dessa forma, a inclusão das práticas do yoga como terapêuticas de cura acarretará também os benefícios meditativos.

 

           A definição clássica de yoga pode ser a des-identificação voluntária das modificações da mente. O yogi/meditador visa, portanto, por meio de suas práticas corporais “treinar” a consciência distanciar-se de seus próprios pensamentos (mente). Em momento algum é possível parar de pensar, pois a mente é um “órgão metafísico” (criado por filósofos e validado por psicólogos) desenvolvido para este fim. Dessa forma, o que se almeja com o yoga/meditação (seja qual for a linhagem, denominação, escola ou autor) é tornar-se um observador passivo do que acontece em sua mente/corpo quando não tem mais nada para acontecer. Esse exercício psicofísico, com o tempo de prática, nos conduz a uma percepção de como nos tornamos alienados das forças inconsciente que conduzem as nossas vidas; nos trazem à consciência de quantos comportamentos, hábitos (sejam físicos ou mentais) e gestos realizamos totalmente alienados de nós mesmos.

 

            Qualquer prática yogica/meditativa necessita que o relaxamento físico exista, pois como argumentamos previamente, as tensões musculares podem guardar em si conteúdos inconsciente recalcados. O relaxamento portanto, possui em si, a potência de trazer à luz nossos mais profundos medos, anseios, mágoas e ressentimentos. E, em toda prática de yoga/meditação há, em sua essência, o relaxamento como parte intrínseco do processo. Em poucas palavras, não há como meditar ou praticar yoga sem um nível ótimo de relaxamento. Entre os profissionais de saúde, não encontro outro que o educador físico, o mais qualificado para conduzir o outro a este estado.

 

            Além do relaxamento, o yoga/meditação exige que tenhamos bem definidos qual a “âncora” que utilizaremos em sua prática. Forme a imagem de uma embarcação solta em um mar revolto, sendo o mar a sua mente. Sem uma âncora a cada onda que atinja a embarcação, o lançará de um lado para o outro, podendo até mesmo se estraçalhar sobre as rochas. A âncora yogica/meditativa, assim, pode ser a chama de uma vela, uma parede em branco, a realização de uma sequencia pré-definida de posturas e respiratórios ou um mantra/oração/palavra específica verbalizada repetidamente.

 

            Outro ponto importante no processo é determinar a “técnica” yogica/meditativa a ser utilizada. Por exemplo, se a âncora escolhida for a do movimento, ou seja, realizando posturas com respiratórios. A técnica está a definir quais posturas e respiratórios se realizará? Tendo uma técnica bem determinada, se evita a dispersão do foco da atenção.

 

        O último estágio é compreender que haverá loops, em outras palavras, existirá momentos em que o foco da sua atenção se desviará da sua âncora durante a realização das técnicas definidas (e isso é bastante comum e não deve ser motivo de desânimo); mas prontamente quando isso ocorrer, retorne a sua âncora e lembre-se da técnica utilizada. Um exemplo mais concreto é a do Método de Yoga/Meditação Restaurativa. Um dos inúmeros “métodos/técnicas” de yoga/meditação mas que se utiliza como “âncora” o mais profundo relaxamento. Nesta técnica não se emprega de nenhum tipo de postura que exija o mínimo que seja de contração ou distensão muscular. As posturas são construídas com utensílios como bolsters, mantas e toalhinhas para os olhos buscando o maior de conforto, quietude, atenção e compaixão consigo mesmo e o outro.

 

            Entretanto, independente do método, escola, linhagem ou técnica ou âncora escolhida (e existem diversas, apenas pois somos muitos), o relaxamento e o foco da atenção não podem ser negligenciados. Na verdade, manter a consciência restrita e atenta e o corpo estável e confortável são as únicas exigências, pois todas as repercussões psicofisiológicas após isso ser conquistado serão naturais e sem esforço algum.

 

Neurofisiologia do Yoga/Meditação

 

            O yoga/meditação não exige dons naturais e/ou tipos psicológicos específicos, na verdade, todos os seres humanos nasceram dotados de um circuito neurofisiológico para meditar. Mesmo a sua avó que nunca meditou, saiba, ela possui um caminho neuroquímico que a capacita e se beneficiar do yoga/meditação, assim como o Dalai Lama.

 

            Sempre que direcionamos a nossa atenção em alguma coisa que nos interesse (pode ser este livro em suas mãos por exemplo, ou quando avistamos um predador, uma presa ou parceiro(a) sexual aprazível) os neurônios do seu córtex pré-frontal se “ativam/funcionam”. Estes, por sua vez, fazem “entrar em ação” os neurônios de outra área cerebral próxima (como uma rede elétrica que vai se acendendo), o giro cingulado (GC). Quando o GC funciona mais ativamente ele, ao contrário do que descrevemos até agora, põe para “dormir” uma terceira região encefálica envolvida no processo meditativo, a porção límbica do tálamo.

 

            O tálamo é uma espécie de “correio sensorial” do organismo. É ele que recebe todas as informações sensoriais do mundo que encontra o seu corpo (luz, som, gosto, tato, pressão atmosférica e etc) e as retransmite para o restante do cérebro. Portanto, se durante o processo yogico/meditativo o tálamo diminui a sua ação - e a função dele é “informar” o impacto sensorial de outros corpo em você - se restringirá drasticamente o número das oscilações mentais. Por conseguinte, é lícito afirmar, que um reduzido número de possíveis agentes estressores agirão sobre o yogi/meditador. Podemos brincar dizendo que o yoga/meditação aumenta o pavio. Sim, pois há animais que nascem “sem pavio”, ou seja, o mais ínfimo agente estressor que sobrevoe a sua mente o faz “estourar”. Se a resposta ao estresse é acionada por agentes estressores sensoriais, e o yoga/meditação, como vimos, possui potencialmente o poder de arrefecer o impacto sensorial via tálamo, quem medita necessita aprende a combater a sua reatividade. Aqui neste ponto, a ancestralidade das escrituras yogicas/meditativas se encontram com as mais recentes investigações científicas, pois ambas afirmam o mesmo: as repercussões do yoga/meditação sobre os seres humanos são deveras interessantes e essenciais para a sua saúde física e mental, ainda mais quando vivendo em locais aonde o número de informações sensitivas incessantemente perturbam a nossa paz interior.

 

            E esse menor impacto do mundo sobre a mente yogica/meditativa produz um efeito benfazejo sobre a saúde do yogi/meditador que se reverberará mesmo após a prática. Na verdade, as respostas benfazejas do yoga/meditação sobre a saúde de seus praticantes são acumulativas. Quanto mais se pratica yoga/meditação, maior os benefícios reverberados no corpo/mente  e por mais tempo. Disso pode resultar, em seres humanos não mais calmos, mas com maior atenção, portanto, com maior tempo de reagir de forma mais adequada ao mundo que lhe apresente.

 

Considerações Finais

 

            Dentre tudo o que discutimos até aqui, deverá ficar evidente que há certo grau de urgência para com o atual situação de nossa sociedade pautada em um capitalismo de consumo pós-moderno. Não que acredito que houve um período histórico mais “equilibrado” e “sábio” que o nosso, pois penso que em cada estágio evolutivo dos homo sapiens e de cada cultura e sociedade erigida por nossa espécie enfrentamos agruras correspondentes. A atual sofre por seus próprios erros (como todo o sempre foi e será). Somos seres biopsicossociais, mais ainda, somos ambivalentes. Isso significa que sempre geraremos moléstias a nós mesmos e a outros, assim como descobrimos saídas.

 

            Os homo sapiens são fracos e seus corpos não foram adaptados as agudezas da natureza. Não sabemos voar, sob nossas pernas somos desajeitados (pense em um guepardo competindo com o nosso representante mais rápido dos 100m rasos), não produzimos venenos, nossas “garras” e dentes não conseguem ferir nenhum animal de médio ou grande porte que pudesse nos alimentar, nossos pelos não conseguem nos proteger do frio como a de um urso ou mesmo um poodle. Compare um filhote de rato com um de humano. Deixe-os sozinhos por 15 dias quando recém-nascidos. O bebê morre afogado em seu próprio vômito e o rato sobrevive - se não vier a se alimentar da própria carne humana. A imagem é forte, mas é proposital para lhe conferir a ideia de como somos indefesos e despreparados para o mundo. Entretanto, conquistamos o topo da cadeia alimentar e não apenas corremos ou lutamos contra bestas feras famintas prontas a nos atacar, mas as ensinamos truques como de deitar, rolar e dar tchauzinho como o fazemos com os tigres de circo e baleias em parques aquáticos. Como conseguimos isso?

 

        Fomos abençoados ao mesmo tempo que amaldiçoados pela consciência da finitude da vida. Nenhum outro animal “sabe” que vai morrer! Isso nos fez desenvolver três atributos comportamentais essenciais para a sobrevivência da espécie humana: 1) a antecipação de perigos (mesmo que eles não existam); em consequência disso, um poder extraordinário de 2) criar “ficções que curam” (religiões, filosofias, mitos, ciência, senso comum e as artes para nos configurar um sentido para a vida que não existe); e a mais importante, 3) o amor e a compaixão pelo outro, pois sendo fracos e indefesos, podendo ser mortos por um rato, aprendemos de forma inata (pense no amor dos pais à sua prole) que dependemos um do outro para viver e que a felicidade só será plena quando compartilhada.

 

        As doenças da alma que desenvolvemos ao longo do texto demonstra o quanto estamos doentes por nos afastar de nossos predicados que nos fazem humanos. A saúde que nos falta é da distancia que estamos estabelecendo de nossas almas com a de nossos colegas evolutivos. Práticas ancestrais como yoga/meditação e o movimento do corpo em consonância com as nossas mais criativas mentes, no seu poder natural de antecipar ameaças nos indicam o caminho certo.

 

         As criações em que nos enredamos (filosofia, religiões e etc) nos alertam aos fantasmas que nos assombram ao meio-dia, como as doenças metafísicas que descrevi. Contudo, o amor e a compaixão é o que nos une e as práticas físicas não podem ficar relegadas ao entretenimento e as distrações apenas como jogos corporais alienantes; muito menos nos servir como “carregadores de energia” para mais um dia de labuta no movimento irracional de produzir, consumir e jogar fora coisas.

 

        O nosso poder criativo anelado ao sentimento de estarmos vivos pelo amor de quem antecipou perigos quando ainda éramos indefesos, deve ser sempre relembrado e a meditação advinda do yoga, como prática psicofísica, pode ser um dos métodos de retorno ao eixo. Os nossos inúmeros cursos de formação existentes no Brasil em yoga/meditação, sem dúvidas, estão hoje abrindo caminhos para uma clareira no meio da floresta em que vivemos rumo a uma medicina multidisciplinar mais integrativa e complementar. Mas para isso, estes (e todos nós que atuamos como professores e formadores) precisamos também nos compreenderemos fazendo parte deste processo e não apenas “movimentadores” de corpos, mas, sobretudo, “integradores” de mentes.

 

 

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