Yogis são os Curandeiros Modernos?

April 13, 2018

 

Segundo Marcel Mauss, a magia pode ser definida por um complexo social e espiritual que envolve agentes, rituais e representações. Os feiticeiros, por seu turno, são todos aqueles atores principais dos rituais mágicos.

 

Os rituais mágicos, por sua vez, são atos que pertencem a uma tradição e se repetem; assim a sua eficácia mágica depende que todo o grupo social acredite nos feiticeiros de suas tribos, e no mitos narrativos erigidos ou mantidos por eles.

 

Todavia, não é qualquer um do grupo social que seja ou possa vir a ser considerado um feiticeiro. Há uma série de características hereditárias, comportamentais, físicas, prescrições dietéticas, além de outras, que podem e vão definir os feiticeiros autorizados pela tradição do grupo social.

 

Um feiticeiro, portanto, é uma pessoa extraordinária. O seu corpo nasce ou adquire, igualmente, uma fisiologia extraordinária (MAUSS, As técnicas do corpo, p.399-422).

 

Bastantes vezes, é exatamente [o mago] porque deixa de o estar [em seu estado normal] que se encontra em posição de atuar com bons resultados. Observou interdições alimentares ou sexuais, jejuou, sonhou, executou este ou aquele gesto preliminar, sem contar que, nem que seja por um só instante, o rito fez dele um homem diferente.

 

Os elementos de uma sociedade secreta [de magos], pelo fato de se terem submetido a uma iniciação, podem também sentir-se dotados de poderes mágicos. (Id., p.62-63)

 

Um feiticeiro, através de suas práticas rituais corporais desenvolve poderes que transcendem o funcionamento dito natural (são trans-fisiológicos): como viajar para o mundo dos espíritos ou curar doenças.

 

Quando alguém doente é levado ao feiticeiro, este - seja por ingestão de alimentos, beberagens, inalações ou jejuns, gestos e/ou danças, confecção de amuletos para proteção e/ou emanação de energias, cantos e/ou músicas rítmicas - almeja, em objetivo último, restaurar a saúde, portanto, a (trans)fisiologia do paciente (orgânica e espiritual) a níveis ótimos.

 

Em outras palavras, a eficácia mágica da cura se dará apenas quando o feiticeiro – dentro da cosmologia do seu grupo e tradição - transformar ou manipular os corpos do enfermo na remoção do que o aflige - seja um espírito da floresta que provoca febre alta ou a má circulação energética de prana pelos chackras.

 

Pense em um ameríndio distante que nunca viu um "homem-branco". O indígena dança em torno da fogueira há séculos (por tradições) na quinta lua cheia após o solstício de verão para melhorar a sua colheita (sei lá, inventei isso). E as vezes esse ritual, guiados pelo xamã da tribo, não produz uma boa colheita aquele ano; mas, explica o feiticeiro para tribo, que havia uma virgem no seu ciclo justamente no dia da oferenda ou houve a violação de qualquer outro signo que não poderia. Mas pense que um dia um engenheiro chega a tribo e explica a eles que a chuva não ocorre por dançar em torno da fogueira, mas pela condensação da água (e até a Maju veio para explicar o efeito El Nino). Essa tribo tem 3 possibilidades: 1) mata o engenheiro e com ele toda a outra cosmologia contrária a deles; 2) destrói a sua própria tradição e adota a narrativa explicativa do mundo do estrangeiro; ou (a favorita dos brasileiros) sincretiza tudo e cria uma nova ordenação da realidade.

 

Pois bem, até aqui a maioria de quem está lendo entende a visão cosmológica dos indígenas como ultrapassada e a do engenheiro como verdadeira. Os ameríndios brasileiros, como outro exemplo, entende que todos os seres vivos existentes são humanos, mas alguns vestidos de humanos enquanto outros de onça ou macaco, mas todos são humanos. É sem dúvidas uma perspectiva do mundo bem diferente da minha ou da sua, mas como você pode "provar" que a sua é correta, ou seja, que somos animais conscientes e um macaco é um só um macaco mesmo e não um humano consciente, literalmente, vestido com pele de outro animal?.  

 

Tudo bem, entendi, mas e daí com os yogis? Bem, se você acha que essa história não vigora é apenas uma parte da história "primitiva" dos seres humanos, entenda que ela age agora. Quando os yogis indianos da virada do século XIX para o XX resolve transplantar o seu yoga (uma filosofia religiosa do hinduísmo, portanto, embebido até a alma da cosmologia hinduísta), precisou encarar outros "ordenadores de realidade" (como o indígena do nosso exemplo com o fictício engenheiro). E os yogis indianos do período histórico moderno adotam a "malandragem" brasileira e sincretizam sua visão de mundo com a dos "ocidentais". Em outra palavras, o yoga flerta com a biomedicina.

 

Quando um praticante/yogi moderno realiza posturas, com respiratórios específicos, canta mantras para divindades fora do escopo espiritual cristão (portanto, pagãs), realiza oferendas para mestres yogis indianos com limpezas que visam obstruir canais energéticos não visíveis pela anatomia orgânica, sem dúvidas denota estar envolvido por uma "nova" perspectiva da realidade.

 

E qual o foco das práticas rituais de yoga modernas se não aumentar o prana/energética transfisiológica para sanar e/ou se proteger de doenças? As doenças para os yogis (haja vista o discurso de Hermógenes e outros) é mais do que um corpo físico infectado por um vírus ou bactéria. A própria pneumonia ou um câncer ganha o status de "elevação espiritual" para o yogi moderno. Dessa forma, eu lícito pensar nos yogis modernos como "curandeiros modernos", pois eles atuam na sociedade/tribo ocidental de forma bastante contundente trazendo possibilidade de cura que está além da visão biomédica convencional. Ele se mescla (sincretizado espiritualmente mesmo, assim como o espiritismo e a umbanda, ou mesmo o Santo Daime, todos religiões terapêuticas) com a perspectiva da biomedicina criando uma nova cosmologia, a cosmologia yoguica moderna.

 

 

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