O ioga medieval e suas influências modernas

 

 

A disciplina na execução das posturas, da relação entre as técnicas de respirar, das vocalizações e das mentalizações por longo tempo, além da atitude devocional ao corpo são muito mais evidentes nos textos ioguicos do período histórico medieval dos hatha-iogues do que o anterior de Patanjali. O corpo (e a sua ascese) adquire uma natureza divina; o corpo se transforma em “templo” para o hatha-iogue. Diferente do iogue clássico, o corpo não é visto agora como um estorvo para a transcendência, mas um meio para a felicidade eterna e fim da ação dos klesas. Se os klesas podem ser traduzidos por venenos, as práticas corporais no HI transformaram-se em rituais para a purificação/desintoxicação dos efeitos nocivos dos klesas. Em suma, na eliminação dos “efeitos” intoxicantes dos comportamentos/emoções de apego, aversão, medo e orgulho.

 

A própria palavra corpo também vai adaptando os seus significados ao longo das cosmologias hinduístas. Em sânscrito, por exemplo, corpo pode ser designado tanto por deha, derivado do radical dih, que ao mesmo tempo em que pode significar “macular” ou “estar manchado” (ainda indicando uma forte imagem do corpo contaminado ou empecilho) ou “ungir”, como “aquilo que é untado ou investido”. Há outra expressão para corpo bem mais antiga e resgatada entre os hatha-iogues medievais, que é sharira, do radical shri, que significa “sustentar” ou “apoiar”, evidenciando que o corpo pode ser também concebido um “meio pelo qual o Self  pode vivenciar o mundo” (FEUERSTEIN, 2004, p.164-165). Ghata, é outro termo para corpo, literalmente pote ou “unidade psicofísica” segundo alguns iogues (IYENGAR, 2001, p.243) e especialistas modernos em ioga (SOUTO, 2009, p.257-258).

 

Os textos de natureza não-dual desenvolvidos por Shankaracharya, especificamente do Vedanta Advaita, é popularizado entre os hatha-iogues. Os iogues medievais, na busca por desvencilhar-se do seu principal veneno, o klesa-Ignorância/alienação, percebem o corpo refletindo a Plenitude da alma e não a obscurecendo. Os hatha-iogues, por valorizarem mais os ritos purificatórios do que as escrituras, se impressionam menos com a compreensão “lógica” dos tratados filosóficos bramânicos e mais com a “poesia” sensorial do mundo. Eu concluo que com fase espiritual hatha-ioguica, a moral das escrituras diminuem seu valor em detrimento aos benefícios mágicos das ritualísticas corporais que eles desenvolvem em maior volume do que qualquer outro período histórico do ioga.

 

Essa é uma reforma espiritual importante desta etapa ioguica, pois enquanto os iogues clássicos edificaram uma ética religiosa pautada em rígidas condutas morais, os ioguesmedievais transformaram as sensações corpóreas na referência para uma boa vida. Como tudo é divino, o corpo também o é, e compreender a corporeidade significa também descobrir a espiritualidade no corpo (FEUERSTEIN, 1998, p.461-463).

 

Os (hatha)yogins estabeleceram que o corpo humano é homólogo ao Universo, assim, nomearam os nadis e os chackras como rios, montanhas etc. A ideia era buscar a verdade dentro de si mesmo. Se Deus está no Universo, também podemos buscá-lo dentro de nós mesmos (SOUTO, 2009, p.26).

 

Eliade (2001) corrobora com essa tese. Ele afirma que em certa época, talvez entre os séc.VII-XI, ocorre “uma nova revelação” entre os tântricos, os budistas, os alquimistas, os hinduístas e os hatha-iogues. Era uma revelação que não proclamavam algo de original, “mas apenas reinterpretavam as doutrinas atemporais segundo a necessidade do seu tempo”, numa espécie de síntese dos elementos religiosos em comum (p.252). Encontrar Deus agora poderia ocorrer fora dos templos e dos rituais secretos da elite sacerdotal. Há uma clara crítica ao poder centrado emu ma única casta, talvez por influência budista e muçulmana que neste período já exercia alguma força na sociedade indiana.

 

Uma vez o corpo saudável e forte, o hatha-iogue dá início ao despertar de uma energia suprassensível adormecida, a kundalini: descrita pela sua fisiologia sutil como uma “serpente” enrolada na base da coluna vertebral. A ascensão dessa energia sutil surge com mais ênfase nos textos medievais e, segundo as escrituras hatha-iogues, os devotos avançados conseguiriam adquirir uma gama de capacidades transfisiológicas que os qualificariam a alcancar kaivalya: a libertação espiritual final do ioga. A influência da mística sufista e budista se evidencia nesta fisiologia religiosa mais evidente entre estes iogues, pois não apenas os hatha-iogues revelavam tal descoberta religiosa, mas outras tradições como o Budismo também possuem descrições fisiológicas extraordinárias (ver USARSKI, 2009, p.43- 44).

 

O último sutra do tratado mais importante do HI medieval, o Hatha-Ioga Pradipika (HIP), afirma:

 

Hatha-Ioga Pradipika (HIP): IV.114 - Enquanto o prana não entrar em sushumna (middle channel), penetrando o Brahmarandhra [lit. porta de Brahma ou Isvara], enquanto o bindu [fluxo vital masculino] não ficar estável por pranavata (controle do movimento de prana) e a mente (citta) sob controle em meditação (contemplação), a Suprema Realidade (Brahman ou Isvara) não aparece com um estado natural da mente [citta], e falar de Jnana [conhecimento religioso] é apenas hipocrisia sem fundamento (PANCHAM SINH, 1914, p.63; SOUTO, 2009, p.238).

 

Os antigos manuais hatha-iogues, como na citação acima, evidenciam que o conhecimento religioso (Jnana Ioga) só poderia advir do controle do corpo. Sem a devida ascese espiritual do corpo não há conhecimento espiritual moral. Este não advém da repetição das escrituras, mas do controle fisiológico sutil. E quando digo fisiologia sutil, não me refiro aos órgãos físicos, mas energias de origem divina que transpassam os corpos do iogue. É uma crítica, repito propositadamente quase como caráter pedagógico, explícita ao clero bramânico, preso a exegese das escrituras, ao que os hatha-iogues denominam no texto de “hipocrisia sem fundamento”. Assim, não se trata de “horizontalizar” a religiosidade ioguica no plano material, mas alcançar kaivalya de forma “vertical” ou direta, assim, por outra via de libertação; sem dúvidas os iogues medievais resgataram, talvez, a parte mais hermética e mística do ioga, sem a necessidade de sacerdotes para intermediar suas ligações (“verticalizadas”) com Deus/Isvara.

 

O HI desenvolve, sob esta ótica mística e verticalizante do caminho ioguico, um número elevado de limpezas transfisiológicas (kriyas), posturas (ásanas), controle da respiração (pranayama), gestos e contrações musculares específicas (mudras e bandhas), inibição sensorial (pratyahara), concentração (dharana), meditação (dhyana) e êxtase ou experiência mística (samadhi), como marca da evolução na senda ioguica (FEUERSTEIN, 1998, p.471-482). O sistema de castas na Índia, segregava o alcance à kaivalya. Não é coincidência que os hatha-iogues medievais elevassem as práticas e experências corporais/pessoais em detrimento às escrituras erigidas e mantidas pela alta casta sacerdotal indiana. Mais do que ler em sânscrito ou repertório sofístico, os iogues medievais valorizavam e compreendiam as repercussões psicocorporais como ecos da alma Perfeita e Imaculada. E se esmeram na elevação moral e espiritual por esta via “mais corporal” do que intelectiva.

 

É sempre importante relembrar, se ainda não ficou evidente, que o ioga do sacerdote brâmane Patanjali concebia kaivalya apenas por nascimento, drogas ou educação religiosa adequada (ELIADE, 2001, p.205-209; SOUTO, 2009, p.46-50). É apenas com os iogues medievais que a fisiologia suprassensível assume papel central no êxito de seus devotos. Mesmo um indiano de casta inferior poderia iniciar um indiano de família brâmane por exemplo. Sem dúvidas este fato é uma inovação e tanto em uma sociedade estratificada.

 

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