Ioga Postural Moderno

August 13, 2018

 

 

 

Podemos dizer que, historicamente, o ioga moderno tem início em 1757 com o início da colonização britânica na Índia; e desembarca no Ocidente, oficialmente, em 1893 com o swami Vivekananda (1863-1902) em Chicago, nos Estados Unidos. A sua visita foi, por convite do primeiro parlamento mundial das religiões, como representante do Hinduísmo. Para Vivekananda, iogue discípulo de Ramakrishna (um dos líderes religiosos que lideraram o movimento nacionalista indiano), o ioga é considerado como um ideal de religião universal (VIVEKANANDA 2007)4. Com ele, mas não por causa dele exclsuivamente, o ioga inaugura o seu período moderno.

 

O ioga apresentado por Vivekananda é o de uma tradição religiosa voltada ao ser humano alcançar a sua verdadeira liberdade e manifestar a divindade interior. Vivekananda, e não iogues ocidentais, dão início a desvinculação do ioga como um darsana hinduísta (lit. perspectiva filosófica-religiosa do hinduísmo), para a concepção de uma nova e singular religião (DeMICHELIS, 2004, p.248-260; NEWCOMBE, 2005; JAIN, 2014, p.95-129) assimilando os ensinamentos espirituais ioguicos com os da ciência (NANDA, 2007; STRAUSS, 2008, p.64-65; VALLE, 2008, p.200). O seu discurso ficou bastante popular, o que lhe possibilitou fundar organizações ioguicas por cidades do mundo inteiro, tendo o seu pensamento, em relação à religiosidade ioguica e à ciência, formado a base intelectual e ideológica de uma geração de iogues que veio depois dele5 (DESIKACHAR et.al., 1980).

 

O ioga moderno, assim como em outros tempos históricos que expomos anteriormente, tece relações híbridas com a cultura e sociedade no qual se encontra; neste momento, as cidades urbanas ocidentais. O caráter do iogue renunciante do mundo de tempos passados, abre espaço para um iogue asceta, mas que dialoga com o mundo (STRAUSS, 2008, p.64). Os iogues indianos modernos, a exemplo de Vivekananda, desenvolveram discursos retóricos que os autorizaram a participar das sociedades ocidentais. Eles inclusive denominam a si mesmos de monges samsari, pois são ascetas que vivem no samsara; ao contrário dos iogues ascetas de outrora que se retiravam do convívio social mais intenso nas cidades indianas.

 

Samadhi, kaivalya e a ação nociva dos klesas serão vivenciados agora no jogo da vida e não fora dele. Será necessário elegantes desenvolvimentos filosóficos para sustentar tal readequação social do ioga:

 

Consideremos agora a diferença entre um yogue-asceta e um monge samsari (que se propõe a participar do jogo exterior de maya). Diga-se desde já que o “samsari” não precisa jogar obedecendo ao ego. Com efeito, é grato por Deus e muito útil ao desenvolvimento espiritual participar do jogo divino sem recorrer ao ego, em vez de procurar envolvê-lo no processo. (KRIYANANDA, 2007, p.241)

 

 

Os iogues modernos entenderam rápido que, longe da tutela de uma religião moralizante (como o Hinduísmo), encontrariam mais competitividade no mercado religioso. Em outras palavras, enquanto na Índia clássica ou medieval, os iogues não precisavam disputar discípulos com muitas outras religiões, haja vista uma comunidade dividida por castas, aonde os sacerdotes estavam no topo da pirâmide social. Em modernas cidades seculares e privatizadas religiosamente, os iogues concorrem com pastores, padres, pais-de-santo, xamãs da Amazônia, terapeutas holistas e, recentemente, com educadores físicos, médicos, psicólogos, físicos quânticos, psicólogos e coaches. Esta passagem histórica de renúncia necessária ao mundo e agora, de participar dele de forma mais proselitista, se configura uma das características mais marcantes do ioga que se conhece atualmente segundo Sarah Strauss (2008, p.63-64).

 

Segundo estudiosos modernos, o ioga precisou aprender a lidar com os acontecimentos, principalmente os advindos do nacionalismo indiano, do ocultismo ocidental, da filosofia neo-vedanta, dos sistemas de cultura físicos modernos (DeMICHELIS, 2008, p.20), do islamismo, do cristianismo primitivo, da ciência moderna (principalmente a fisiologia e a biomedicina convencional) e do movimento religioso Nova Era (LIBERMAN, 2008, p.100-117). Este será o novo pano-de-fundo que configurará o ioga que se conhece atualmente.

 

Elizabeth DeMichelis salienta os pontos-chaves que facilitam a compreensão do surgimento do ioga moderno. Segundo DeMichelis (2008), desde 1600, por intermédio da Companhia das Índias Orientais, que a Índia vem estabelecendo relação com os países da Europa e América, mas é a partir de 1750 que as sociedades ocidentais voltam o seu interesse para a economia, o sistema sócio-político e a cultura indiana. Com isto, de 1830 em diante surgem debates através dos movimentos de reforma sóciorreligiosa na Índia Britânica, abrindo-se um diálogo entre os intelectuais e as autoridades sobre a anglicização da colônia.

 

No início do século XX, presencia-se o surgimento do movimento Nova Era e a rápida modernização das religiões asiáticas, as quais dão início a um produtivo diálogo com outras crenças e culturas, fato que continua até hoje. Entre 1914 e 1945, devido às duas grandes guerras mundiais, a disseminação das ideias modernas do ioga diminui a sua influência, sendo retomada novamente a partir da independência da Índia em 1947. Por intermédio de iogues carismáticos e convidados pela onda contracultural que acontece nos anos sessenta do século passado, várias organizações modernas do ioga se popularizam por todo o mundo. É como se aquela verve de mudança religiosa dos hatha-iogues medievais se tornasse latente mais uma vez. Após um período de certa indiferença pelo ioga na década de 1980, nos anos noventa surge uma entusiástica aculturação por uma geração de praticantes e de devotos seguidores da sua proposta espiritual e de saúde (DeMICHELIS, 2008, p.21).

 

O ioga postural moderno, como DeMichelis denomina o ioga do atual período histórico, no início da década de 1990, se lança no mundo, principalmente por meio das escolas de alguns iogues (leia-se “pelo pensamento deles”), entre tantos outros, como swami Vivekananda, sri Yogendra, Paramahansa Yogananda, swami Kuvalayananda, swami Sivananda e Krishnamacharya (ALTER, 2004, p.73-108; FEUERSTEIN, 2005, p.53-55; SINGLETON & BYRNE, 2008, p.17-35; p.40-74). Os métodos ioguicos mais populares e praticados modernamente se devem aos iogues mencionados acima, tendo as suas ideias edificado algumas das inúmeras escolas, tradições e organizações ioguicas espirituais no mundo atual.

 

Pode-se afirmar que somente as organizações ioguicas que aprenderam a fomentar e a divulgar a sua proposta ética de libertação espiritual por intermédio de pesquisas fisiológicas encontraram maior retorno de um novo público interessado em uma nova forma de viver, seja por uma consciência que busca se afastar das promessas da felicidade pelo consumo, seja pela ilusão revolucionária da ideologia de planificação social marxista e “cientificista”. Algumas destas novas formas de ioga, inclusive, se orgulham de terem artigos publicados em revistas científicas sobre os benefícios das suas práticas para a saúde serem produzidas e divulgadas nas universidades norte-americanas e européias.

 

A ciência, sem dúvidas, auxiliou na proposta expansionista do ioga como caminho espiritual e promotor de saúde. Os iogues modernos aprenderam a dialogar com a biomedicina; mas a ciência – para espanto de acadêmicos desavisados que apostavam na secularização do mundo -, ao invés de desencantar o ioga, serviu-lhe de veículo proselitista.

 

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