O Problema da Verdade

January 13, 2019

 

Muitos afirmam que vivemos no Brasil em um momento polarizado. Mas acho que não, enfrentamos de forma nítida duas realidades de encarar a existência. E vou tentar aqui demonstrar isso de forma simples (na medida do possível) e correlacionar com o microuniverso do Yoga BR.

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De uma forma geral, podemos separar essas "polaridades" yoguicas em homens e mulheres que percebem (ou se "ligaram" agora) o mundo de forma "ideal" e outros em "construção".

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Pois bem, os “idealistas" acreditam que a Verdade é uma só, única e absoluta. Já os “construtivistas" creem na verdade como relativa, pois depende do contexto social, espiritual e psicobiológico em que está inserida para existir. Existe uma terceira via explicativa? Talvez sim. Mas o que é preciso ficar claro desde já, é que para os yogues "construtivistas", a verdade dos idealistas também existe; não obstante, para a verdade idealista/essencial viver, é necessário um esforço tremendos dos idealistas em conservar a sua verdade intocada, portanto, as verdades construtivistas precisam morrer para as idealistas continuarem a ser absolutas. Dito de outra forma, a verdade idealista não é única se outras viverem, mas o yogue construtivista só entende a sua verdade existir na pluralidade (que abarca, por lógica, a verdade idealista, mas nunca absoluta).

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É incontestável que a verdade seja percebida de formas diferentes em cada cultura. Um ameríndio amazônico não interpreta a realidade como um parisiense moderno. Mas será que eles constroem verdades diferentes ou narrativas sobre uma mesma verdade? Aquela frase: "Falam da mesma coisa mas maneiras diferentes"?

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Não há uma resposta incontestável a essa pergunta. Yogues idealistas e construtivistas possuem versões diferentes que assentam os seus argumentos. Entretanto, um outro fato é incontestável: por sermos animais, biologicamente, finitos e cientes disso (ao contrário de passarinho curió), a tragédia e a crueldade do mundo se mostram na força da morte a cada exalar, pois cada suspiro guarda em si a ansiedade de (poder) ser o último. E isso amedronta.

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A verdade inexorável da finitude, atrelado a fragilidade de nossos corpos orgânicos, nos dota (todos seres humanos, evolutivamente) de uma poderosa arma que nos ajuda a sobreviver neste mundo imanente ocupando, pasmem, ao topo da cadeia alimentar, pois fomos dotados (ou criamos?) a possibilidade de antecipar perigos e, com isso, um potencial criativo imenso em elaborar estratégias singulares e/ou narrativas explicativas de sentidos aos terrores e alegrias do viver.

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Mas aqui voltamos a mesma questão: construímos “ordenadores de realidades” diferentes para uma mesma Verdade que não se altera a contextos culturais diversos, ou organizamos um “vazio gigante” de sentido em que vivemos (portanto, sem verdade alguma fixa) para nos “curar” do medo de um mundo sem sentido (sem Deus, deuses e gnomos) transcendente?

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Mas há mais uma verdade "absoluta" (a terceira até aqui) que legitima o pensamento dos idealistas em se imaginar inteiros/plenos/completos, que é a necessidade vivermos de forma gregária. Sozinhos, talvez até vivêssemos, mas não como nos compreendemos hoje.  E nesta gregaridade passamos a adotar o modus operandi de vida destes. Vivendo com lobos, elefantes, macacos ou um lindo coelhinho branco na floresta, a regra é simples: matar para comer, matar por um abrigo seguro e quente, e matar para acasalar e transmitir seus genes (e a "verdade do mundo") adiante - alguns vão chamar de "legado" ou "tradição". Mas para fugir disso, criamos as sociedades humanas: sociedades primitivas, sociedades despóticas e sociedades civilizadas em que habitamos hoje.

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Se há algo inato em você e em mim (ao menos à luz da psicobiologia), entretanto, é  a resposta de luta-fuga em momentos que identificamos como perigo de vida. Seja um selvagem, um bárbaro ou um capitalista, assim como a resposta do estresse, o relaxamento se manifesta em nossa psicofoisiologia quando nos sentimos acolhidos e protegidos. Sabemos por exemplo, que a fome, a dor, a raiva e o medo são os gatilhos físicos e emocionais do disparo da resposta do estresse (mesmo que apenas se imagine). O estresse nos prepara para o pior, a certeza indubitável da morte física eminente nos espreitando a cada passo, a cada pulsar genético. Você pode nascer sem um olho, com apenas um rim ou parte do cérebro, mas sem a resposta do estresse e o relaxamento como seu antagônico, morre, pois esse par biológico inato em você o mantém alerta para o perigo a cada folha seca pisada na floresta, assim como descansar em momentos de paz e tranquilidade.

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Até aqui já podemos argumentar que a violência (lutando ou fugindo) e do amor/compaixão nasce/vive em você. Somos capazes de realizar as ações mais vis de selvageria e barbárie sempre que nos sentimos com medo, raiva, dor ou fome (em nome da civilidade muitas vezes); ou dos atos mais gentis e amorosos quando acolhidos e protegidos.

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Agora então, depois dessa digressão, podemos retornar ao início de nosso pensamento polarizado de mundo (cosmologias, ordenadores de realidade, ficções, singularidades criativas ou narrativas de mundo) entre os yogues idealistas e construtivistas. A nossa argumentação até aqui possibilita julgar que, se é impossível (ao menos por meio da nossa biologia) ter certeza se a verdade é absoluta ou depende do individuo que a interpreta, os idealistas tendem a se tornar mais reativos (estressados) à disposições comportamentais contrárias as suas. Pois, se a verdade para eles é inquestionável, qualquer um que pense diferente deles, está errado. Entre os yogues construtivistas, ao contrário, como pensam de forma relativa a(s) verdade(s), tendem, pela lógica aqui empregada, a respeitar posições antagônicas as suas, pois não há o certo ou errado absolutos, mas sempre contextualizados (dependentes de quem as cria). Entretanto, os construtivistas podem "perder a cabeça", se enfurecerem, portanto, por temerem ser cerceados da liberdade de pensamento criativo e julgamento do real por aqueles idealistas - absolutistas da verdade - que visam conservar o mundo em que vivem. Para ficar mais simples, pensar um yoga como moderno ou contemporâneo é totalmente fora de propósito, pois só acreditando em uma verdade, não há como existir outros yogas (interpretações) que não advenham de Patanjali, Goraksa, enfim, do próprio Shiva até.

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Dessa forma, viver como um yogue idealista é estar a todo momento com medo de assistir sua realidade ruir. Um individuo que percebe o mundo em constante mutação, pelo contrário, tende a se adaptar de forma mais confortável a criações da realidade em que vive. Assim, por consequência, a raiva/ódio se instalará com maior facilidade e força entre os yogues idealistas que reagem (muitas vezes com truculência) por fazer querer valer a sua versão única* da verdade. Para um yogue construtivista, que julga tudo relativizado, pensamentos díspares aos dele, podem (e devem) ser absolutamente comuns e verdadeiros também - já que somos singulares e dependentes do mundo que nos rodeia para desenvolver nossas potências criadoras (na verdade é bastante similar e apropriado a simbologia de Shiva ser evocada aqui e agora: deus da criação e destruição, consorte de Durga e pai da divindade da sabedoria e "removedor de obstáculos"). 

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Entre os yogues idealistas reside a tendência “natural” em conservar inalterado certos comportamentos morais, pois seriam estes, cruciais para manutenção inalterada do status quo coletivo em que vivem: o vedanta, os yoga-sutras e qualquer outras escrituras sagrada não é perfeita em si-mesma e nem passa pela cabeça de um yogue idealista/conservador supor que foi um ser humano que os escreveram, portanto, totalmente passível de críticas e inconsistências filosóficas e morais. Não obstante, viver como um yogue construtivista é carregar também um medo (uma ansiedade e, posteriormente, quiçá depressão) de que, por existirem uma infinidade de possibilidades de interpretação da realidade e de verdades* das mais diversas, um pessimismo/melancolia/ansiedade frente a vida recheada de um vazio insondável e da única certeza pesada demais em suportar: a verdade da brevidade da existência e de um mundo imanente sem olhos ao transcendente - um outro mundo. Com isso quero afirmar que a vida de um yogue idealista é mais “segura/confortável” e “confiável”, afinal só existe uma verdade, em tese ao menos.

Enquanto para os yogues idealistas se faz necessário manter uma certa "vigilância" para conservação da sua verdade infalível e realidade intactas aos “ataques” construtivistas; estes (os yogues construtivistas) se viverem na miríades de possibilidades de verdades que vão se erigindo sem cessar e, sobretudo, sem fixar-se em nenhum sentido de vida, a dor frente a incerteza trágica da vida pode o conduzir a um niilismo (pessimismo) que pode consumir suas almas e os matarem por des-ilusão. 

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Não é coincidência o suicídio ser um ato imperdoável (uma traição) à muitas causas moralistas entre os idealistas. Se a certeza da verdade é indubitável entre eles, abreviar a existência em des-ilusão, é duvidar. Mas a dúvida e o "incomodo" é o “inato” entre os yogues construtivistas, pois não desenvolvem a certeza de nada, a não ser da morte. Mas por isso, criam incessantemente novas formas de existir, enquanto os yogues construtivistas ressentem-se do viver que já foi e não mais é. Por isso vivem no resgate e conservação das suas tradições, enquanto os yogues idealistas subvertem e se recriam a todo instante.

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Qual a terceira via entre os idealistas e os construtivistas? Talvez uma geração de yogues que duvidem da verdade absoluta, mas mesmo assim, por livre iniciativa/intuição/poder criador de novos jeitos de viver, desenvolvem criativamente suas próprias moralidades e "tradições". Mas sempre com um ar de desdém, de não se levar muito a sério, caso contrário, se transformam rapidamente naqueles que, depois de inventarem seus métodos, escolas, "tipos de yoga" e etc, se transformam em ressentidos (aqueles que sentem sempre a mesma coisa: re-sentem e re-sentem de novo e de novo). A vida não ganha potência e morrem ranzinzas. 

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Um animal consciente de sua finitude e da grandeza infinita do universo (ou de Deus?), criativamente (como um artista) ousa escolher e/ou moldar um ordenador de realidade mutante/esquizofrênico ou "metamorfoseante". Um yogue novo (que não nasceu em sociedades primitivas como os primeiros yogues que alguns querem reviver como um bicho extinto do Jurassic Park; ou em coletivos déspotas como os de Patanjali e cia), deve viver a sua existência tão mergulhado na construção de sua própria “ficção curativa” do niilismo em que chegou em busca da liberdade de criar, que não disporá de seu tempo e espaço "liso" para se preocupar com as “ilusões absolutas” dos outros. Ele, esse yogue novo vive como um nômade e respeita todos, pois vive a sua sua própria forma de viver singular como um idealista*, mas que sabe a beleza infinita das verdades possíveis que podem e vão continuar existindo como um construtivista*.

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