Um Comportamento Ético no Yoga Existe

March 13, 2019

 

As investigações com o Yoga hoje em dia concentram-se, sobremaneira, em seus benefícios para a saúde (uma forma laica de praticar e vivenciar o Yoga), ou de suas repercussões experienciais místico-religiosas (dos chamados "neuroteólogos"). Contudo, ambos, não levam em consideração a sua doutrina religiosa/espiritual. Assim, pouco se sabe das reais interlocuções acontecendo (você gostando ou não) entre Yoga e a sociedade, a cultura, a economia e, obviamente, aspectos comportamentais do brasileiro e a sua religiosidade. Acredita-se, por exemplo que, mesmo praticado em ambiente laico, mais de 40% dos praticantes de meditação desenvolvam uma certa religiosidade/espiritualidade (R.CARDOSO, em seu livro sobre meditação, 'Um médico ensina a meditar'). Essa é a terceira via de investigação do Yoga contemporaneamente em pauta.

 

E qual a Ética do Yoga? Leia-se sentido de vida! O Yoga acredita, por exemplo, que o aumento da "atividade mental" ou do estado de "desatenção" (citta vrttis), e de mais 4 comportamentos (de apego, de aversão, de medo perante a morte e de orgulho ou falsa identidade de si-mesmo) conhecidos como Klesas seriam frutos da Ignorância espiritual (Avidya) que, por sua vez, seria o motivo de todo o sofrimento humano (Dukha). A consequência de Dukha é a geração de mais Ignorância, mais desatenção e mais comportamentos nefastos, fechando-se um ciclo vicioso de sofrimento ou Samsara. As práticas psicofísicas do Yoga e a sua doutrina religiosa/espiritual focam-se, dessa forma, na ruptura desse ciclo vicioso (roda de Samsara ou ciclo reencarnatório) por meio de um caminho óctuplo (asthanga yoga): yamas, niyamas (10 'códigos' de conduta ético/moral), ásanas e pranayamas (posturas e 'respiratórios'), prathyahara (estado consciencial de menor percepção e resposta autônoma dos estímulos sensoriais externos), dharana e dhyana (meditação propriamente dita) e samadhi (experiência místico-religiosa/espiritual com o sagrado). A Ética do Yoga estaria centrada em arrefecer o "turbilhão da mente" para se livrar da Ignorância de seu espírito.

 

O conhecimento (realidade) do yogue, segundo os seus textos, advém não somente da leitura de sua doutrina ou de práticas isoladas, mas sobretudo ao longo das suas vivências rituais corporais diárias. Religião, por seu lado, não se baseia em crenças mas do que seus integrantes constroem, mantém e criam socialmente (seu Habitus). Ou seja, da observação do comportamento desse grupo e sua influência na sociedade em que está inserido, conhecemos mais de sua religiosidade, de seus costumes, de seus comportamentos. Em outros modelos sociais, como as sociedades primitivas ou as despóticas-imperiais, havia uma religião dominante e qualquer outra que surgisse como um fluxo "anormal" era, ou absorvida (como o Yoga o foi como "darsana hinduísta" em tempos imperiais do séc.II a.C na Índia), ou sumariamente expulso (como o budismo na mesma Índia histórica). Nas sociedades capitalistas, pelo contrário, todos fenômenos religiosos serão sempre absorvidos/institucionalizados e vão servir ao mesmo "sentido" ético que permeia esse modelo social: o lucro, "reverenciando" ao Capital. Mas a religião em modelos sociais também podem se  manter "nômades", subversivas, revolucionárias e gerando mais fluxos não-codificados para o "culto ao Capital". E o Yoga surge como uma nova religião na modernidade de sociedades capitalistas com forte cariz de nomadismo/subversivo/revolucionário. Não obstante, desenvolveu-se éticas yogicas ora institucionalizadas, ora marginais na modernidade - assim como o Hatha-Yoga entre os Nathas medievais. 

 

Sabe-se muito bem que a elaboração do conhecimento (realidade) religioso vai sendo construído pelo meio social e por nossa corporeidade (leia ESPINOSA, P. BERGER; P. BOURDIEU; A. DAMASIO; LAKOFF & JOHNSON). Dessa forma, parece lícito supor que o desenvolvimento do conhecimento (realidade) yoguico acompanha modificações psicofisiológicas juntamente a mudanças comportamentais. Os neurotransmissores serotonina (5-HT), dopamina (DA) e beta-endorfina já se sabe, estão envolvidos nas sensações de bem-estar, diminuição da dor e do medo, aumento da euforia e no sistemas neurais de recompensa; já o hormônio cortisol, durante as práticas yoguicas (se pensarmos que a base da prática ritual yoguica é a meditação - seja ou não em movimento) está envolvido com menor ação do eixo do estresse, devido ao arrefecimento dialógico de certos estímulos externos nefastos (relacionados a despolarização do tálamo), assim com aumento de um profundo relaxamento por relação do hormônio melatonina. Há inúmeros estudos que associam estes neurotransmissores e hormônios à prática do Yoga (ler "Neurobiologia e Filosofia da Meditação" de M.Danucalov e R.Simões). 

 

Considerando, sob a perspectiva do conhecimento científico, que a religião é um constructo humano, portanto, pertencente tanto ao meio social, psicológico-cognitivo, semântico-semiótico (elaboração de cosmovisões) e neurofisiológico dos seres humanos (segundo teoria biocultural da religião de AM Geertz), é totalmente plausível pensar aqui que estas substâncias neuroquímicas descritas acima (serotonina, dopamina, melatonina, beta-endorfina e etc) estejam também associadas ao comportamento específico de seus adeptos. Há uma íntima relação entre corpo e mente que no complexo Yoga nos permite perceber essa tomada de consciência aos cientistas da religião que se preocupam com esse mote de pesquisa. 

 

A minha hipótese é que a vivência do Yoga (práticas, comunidade, experiências e doutrina - e não só as "posturas") predispõe o seu adepto a um estado psicofísico de vivenciar o mundo com menor temor, maior desapego frente as suas vicissitudes, realizações e ideias (que poderá ser verificado pelo menor secreção de cortisol, aumento da serotonina e dopamina, por ex., assim como testes psicológicos e análises qualitativas), mas também em sua percepção intuitiva de relação com outros corpos e mentes. Mas isso não significa a garantia do seu "sucesso" no Yoga, ou seja, o alcance da "iluminação", de Kaivalya (lit.libertação) apenas realizando corretamente posturas, respiratórios e técnicas meditativas. Isso pelo simples motivo que não há nada a ser conquistado no Yoga, pois na ética yoguica não há falta, como na ética dos cristãos, por exemplo. A ética do Yoga está na imanência e não na transcendência (leia a aproximação que se faz da filosofia de Espinosa com o Hinduísmo no artigo de Noah Forslund). A vivência do Yoga, portanto não possui uma ideia de construir uma realidade específica que propiciará ao seu adepto viver o "mundo do Yoga" (como uma outra geografia religiosa, como o céu cristão ou o nosso lar espírita), com a esperança, a fé ou a graça (de/com Isvara/Deus)". 

 

Pelo contrário, a ética yoguica, primeiro visa desconstruir a certeza de universais por meio de uma maior "sabedoria discriminadora" (lit.Viveka) para que o seu adepto alcance a liberação do "mundo Ignorante/Alienado" (conquiste assim, certa alteridade espiritual) em que vive como certeza absoluta, e vá conquistando (a cada Viveka) sua própria Singularidade Criativa de Vida. O fim do sofrimento, da alienação, de Samsara ou da Ignorância espiritual não significa aniquilar a Ilusão (lit.Maya), mas o da Espera(nça) de um Outro Mundo e a convicção que a Plenitude está em "Samsara" como potencial de criação e destruição da vida em constante transformação. Não é por pura coincidência que Shiva seja considerado (ainda hoje) o deus patrono do Yoga, pai de Ganesha (deus da sabedoria) e consorte de Durga (deusa encarnação do feminino e da energia criativa), pois todos são signos representativos da Ética do Yoga (seu sentido de vida); e isso, muito mais do que suas posturas, respiratórios e ainda menos da ressignificação "apressada" dos Yamas e Niyamas como os "10 mandamentos do Yoga". Esse tipo de interpretação é fruto da colonização imperial britânica subjugando a cultura e a religião de seus colonos  indianos (igualmente realizado entre os ameríndios brasileiros pelos católicos que tornaram igual Tupã a Deus, e modernamente, Oxalá a Jesus Cristo na Umbanda).

 

Por outro lado, será mesmo que o Yoga nos liberta ou nos aprisiona se considerado uma Religião? Não seria melhor mantê-lo sob égide nebulosa do "Espiritual, mas não Religioso"? 

 

Vejam bem, as religiões possuem, todas, o poder tanto de nos alienar quanto erigir alteridades ao mesmo tempo. Nenhuma religião surgiu, entretanto, como reacionária e fascista (de vigor autoritário). Pelo contrário, as religiões e seus porta-vozes foram revolucionários e subversivos em seu início: Jesus, Buda, Maomé e os próprios hatha-yogis medievais indianos se revoltaram contra o status quo dos modelos sociais em que viviam. E quando a religião aliena? Sempre que as religiões se institucionalizam e agregam-se ao poder. Dessa forma, pensar o Yoga portador de uma Ética (um sentido de vida) de base filosófica religiosa não é considerá-lo menor cognitivamente, mas elevá-lo ao seu patamar de igualdade de importância de transformações sociais. Manter o Yoga como Espiritualidade é rebaixá-lo e tirá-lo do jogo. É permitir que haja uma dissecação da sua ética em prol de uma economia liberal. 

 

A luta (mesmo inconsciente) por manter o Yoga uma "espiritualidade" ou "laico" em sociedades capitalistas contribui muito mais para o culto ao Capital, do que a difusão de sua 'ética do desapego' em uma sociedade de consumo. Os yogues que lucram com os seus cursos de formação, peregrinações à Índia e comercialização de produtos não suportam a ideia de perder mercado, alunos e dinheiro. Pensa comigo, o professor que ministra aulas as terças e quintas as 20h no seu "estúdio/shala" vai matricular mais ou menos alunos com o Yoga sendo compreendido como religião? Como religião os yogues precisarão disputar com pastores evangélicos donos de emissoras de TV, padres cantores e monges budistas palestrantes de auto-ajuda. Não obstante, aos que desejam pensar o Yoga (e praticá-lo) de forma séria (sem se perder com mais ou menos likes do Instagram para o próximo curso), precisarão realmente estudar o seu "método"/escola/linhagem que criou ou se filiou e "reinventar-se" mais uma vez. Quem está disposto a começar praticamente do zero? Alguns já percebem a mudança em processo, e já se caracterizam como "mentores" ou "líderes espirituais" igualzinhos aos padres, pastores e monges - ou só eu percebo isso?

 

O que observo também é um caminho inevitável (que já está em andamento) ao Yoga moderno, ou seja, a sua institucionalização (Awaken Love, Swasthya Yôga, Iyengar Yoga, Sivananda Yoga são apenas alguns exemplos mais óbvios) compreendidos entre os cientistas da religião como "igrejas". Mas há também outras denominações yoguicas ainda não institucionalizadas, só assistir as centenas de "fluxos descodificados" de Yoga que surgem a todo momento e como estas são massacradas por fundamentalistas e autoritários do yoga. Estes, além de temerem perder mercado religioso, alimentam o microuniverso yoguico com a crença de um suposto Yoga longínquo "incorruptível" - que no fundo é uma estratégia de marketing para venderem seus produtos como "originais" em face aos outros yogas, que seriam apenas "falsificações" do yoga raça pura.

 

E no jogo no próprio tecido social religioso de uma sociedade, os yogas (igrejas e fluxos descodificados/inclassificáveis) vão surgindo, adaptando-se e desaparecendo; aquele Yoga que saiu da cena fez aparecer um novo fluxo yoguico descodificado (que não existia antes); este fluxo yoguico novo, por sua vez, poderá vir a se institucionalizar (hierarquizar-se, burocratizar-se...); enquanto aquele Yoga institucionalizado de outrora, pode ser acometido por um escândalo de grande repercussão midiática, que deslegitima o carisma do seu líder religioso, permitindo assim, surgir mais duas ou três dissidências. Enfim, o Yoga é um organismo vivo, assim como toda religião. Mas quando algum desses "fluxos" ou "igrejas" estiver atrelado em uma Ética que já não faz mais sentido ao núcleo social onde está inserido, morrerá. 

 

E o que podemos ler da descrição acima para o comportamento yogi no Brasil? Sempre que você perceber discursos de ódio e aniquilação do tipo: "Esse Yoga não é Yoga", saiba que está diante de um yogi (ou grupo de yogues) reacionários e fascistas que estão lutando para manter a Ética/Verdade deles 'intocadas/imaculadas'. No fundo, há um medo de perderem espaço para outros no campo social religioso em que vivem, pois no fundo, desejam dominar sozinhos o campo, por isso temem o desigual, o plural e o híbrido no yoga. São fracos e estarão sempre buscando "resgatar" uma essência do Yoga que só existiu na narrativa deles mesmos. Por isso se preocupam mais com a pronúncia sânscrita à experimentação dos mantras como vocalizações com o potencial de liberar fluxos novos no Yoga. Os "yogues nômades" são um tipo "esquizofrênico" que abraçam o diferente e o esquisito, pois não se acovardam como Arjuna diante da guerra da vida e compreendem muito bem a diversidade como signo da própria natureza de Deus/Isvara. Carregam consigo a verve revolucionária que toda religião em "essência" possui: perseverar por mais existência com a potência transformadora do social e do comportamental dos núcleos humanos em que se integram, afetam e são afetados.

 

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