Imposturas do Yoga BR (parte 3)

 

Perguntas da Pesquisa

 

Ainda na banca de defesa do meu doutoramento algumas perguntas surgiram, como por exemplo, como se deu a transplantação do yoga indiano a outras sociedades não-hinduístas. Trabalhos já haviam sendo realizados e artigos muito interessantes sendo apresentados em congressos pelo mundo. Entrementes, o caso dos países latino-americanos continuavam envolto em mitos pelos yogues formadores de opinião em blogues pela internet e livros autobiográficos muitas vezes, não respeitados por agentes religiosos do yoga opositores destes. A primeira grande questão que motivou esse trabalho de pós-doutoramento estava, primeiro, em identificar os reais atores sociais do yoga latino-americano e, em seguida, descrever a vida e obra destes. Entretanto, era preciso um marco teórico que nos auxiliasse na estruturação das fases dessa transplantação religiosa. Era de extrema importância respondermos quais as influências e sincretismos que o yoga precisou sofrer para que o possibilitasse tornar ético religiosamente essa população, ou seja, tornar o sentido de vida do yoga condizente aos anseios deste coletivo já socializado primária e secundariamente pelo cristianismo. Dito de outra forma, por quê uma dada população decidiria cambiar ou mesclar suas realidades subjetivas por outra tão distante das suas realidades objetivas?

 

Outra questão, decorrência da primeira, está em como a prática do yoga/meditação conseguiu obter êxito em desvencilhar-se da “nebulosa mística-esotérica” Nova Era e se constituir um novo fenômeno religioso? Digo isso, pois não deve ter sido tarefa simples aos atores sociais religiosos yoguicos delimitarem suas membranas identificatórias na porosidade que marca o movimento religioso Nova Era e todas as religiosidades que o permeiam. Houve (e há ainda e sempre haverá) uma tensão (sendo) travada entre os yogues mais híbridos e permissíveis e os yogues mais tradicionalistas que reagem a qualquer aproximação do yoga (suas experiências, comunidades, escrituras e práticas) a novas instituições, seja a da Ciência e/ou Religiões. Essa tensão é, ambivalentemente, o que diferencia e aproxima os yogues a identificar-se como fenômeno religioso singular modernamente.

 

Entrementes, não poderia deixar de salientar que sempre me interessou a dialética do corpo-mente/alma na forja dos sentimentos, experiências e comportamentos religiosos; mas também (ou em conjunto a isso) como os textos religiosos (sobretudo do yoga aqui em questão) estão embebidos de referências corpóreas e mais ainda, como a lógica corpo-percepção-hábitos religiosos integram as comunidades a perceberem realidades similares que os permitem identificar o que é ou não Yoga, por exemplo na sociedade em que vivem. Dito de outra forma, a realidade objetiva e subjetiva devem muito ao complexo corpo/alma-mente na consolidação de suas narrativas. É sabido que o yoga concebe as experiências corporais como algo muito importante. Tanto as suas práticas, quanto os seus textos estão embebidos de certo “corpo sem órgãos”, ou seja, de uma fisiologia “sutil” que os fornecem (aos yogues) um norte do bem e do mal, ou do certo e do errado; em suma, a ética yoguica é corporal em boa medida.

 

Quando essa fisiologia yoguica, desconhecida da sabedoria biomédica convencional, começa a ser aceita por coletivos distantes da sociedade indiana, é óbvio que sofrerá modificações. Contudo, esperava-se que essa fisiologia “sutil” (ou religiosa, aqui empregado ao yoga) em relação com a “lógica” científica, fosse enfraquecendo a coesão social de seus núcleos e sendo substituída absolutamente pela ciência. Mas não, a fisiologia religiosa do yoga indiano foi se ressignificando simbolicamente (isso significa, subjetivamente e objetivamente também) e, como “guia” para minha pesquisa, fui observando como a ciência biomédica legitimava e fortalecia o yoga como uma realidade aos atores sociais do campo social emergente religioso yoguico brasileiro. Em palavras mais simples, a ciência e o yoga sem modificaram, tanto ser possível (e eu relato isso na minha tese) ouvir um yogue-cientista afirmar que acreditava em prana, kundalini e toda sorte de elementos “sutis” da fisiologia religiosa yoguica. Ou seja, a realidade subjetiva de um funcionamento corporal yoguico foi se tornando (e é para toda a grande maioria da população yoguica) uma realidade objetiva na construção social da realidade yoguica em andamento no Brasil e demais países do mundo em que o yoga cresce.

 

Problemas da Pesquisa

           

O Yoga como fenômeno social está em expansão no campo religioso brasileiro. Enquanto entre os anos de 2013-15, período do meu doutoramento, encontrei três vias das “Igrejas”/Instituições do Yoga no país divulgarem a sua cultura (doutrinas e práticas): 1) Cursos de Formação de novos Professores de Yoga, 2) Viagens/Peregrinações a locais “sagrados” (da Índia, passando por Machu Pichu e até Japão), 3) Comercialização de Produtos (das tradicionais “aulas de yoga/meditação”, workshops até cd’s e dvd’s). Mas, ao longo desta pesquisa de pós-doutoramento me deparei com um quarto elemento proselitista do yoga moderno brasileiro, que denominei aqui de 4) Encontros Ecumênicos. Estes, são mais uma forma desenvolvida pelos agentes religiosos modernos do yoga que consiste em produzir por 3-4 dias, semelhantes as tradicionais “feiras” da Nova Era, mas com a diferença de ter apenas o Yoga como objeto de exposição (seja com música, dança, comidas, aulas abertas e etc). Esses encontros ecumênicos além de sustentar financeiramente as instituições de yoga moderno, fomentam a sua doutrina e ajudam a divulgar em mídias sociais o yoga como fenômeno social, atraindo novos possíveis praticantes/simpatizantes aos que frequentam esses espaços itinerantes.

           

Essa quarta “via proselitista” do yoga moderno tem agenciando as experiências do yoga para diversos setores da sociedade, desde grandes corporações até espaços públicos como praças e etc. O que se evidenciou nestas últimas duas décadas (2000-2019), e que presenciei em minhas pesquisas de pós-doutoramento, foi a visibilidade dos agentes religiosos do yoga disputando (não só entre si, como nas primeiras décadas de sua transplantação no território brasileiro), mas com outras religiões já estabelecidas. O yoga já disputa desta forma, com seus próprios bens de salvação (mesmo tímido) buscando fazer frente a outras propostas salvacionistas: arrefecimento do estresse, cura da ansiedade/depressão, promoção do relaxamento, aumento da performance psicofísica, dentre outros, são alguns exemplos das propostas modernas do yoga.

 

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