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yoga contempor​âneo

February 13, 2020

Perguntas não respondidas

           

Como adiantado no início da seção anterior, a área de investigação do yoga/meditação fora do âmbito terapêutico e “exegético” de suas escrituras ainda é escasso entre os cientistas da religião latino-americanos. Por isso mesmo, as questões se avolumam no aguardo de pesquisadores interessados na temática. Uma das questões mais prementes é o fato social do yoga/meditação não disseminar-se com tamanha força nas periferias das grandes metrópoles em que seus praticantes/professores se multiplicam. Seria pois a teologia do desapego e da não-violência não faz sentido àquela população; ou, por outro ponto de vista, a teologia da prosperidade dos evangélicos refreia o avanço de uma outra narrativa religiosa? Digo isso analisando alguns sites evangélicos, onde fica notório que seus atores sociais já perceberam o avanço do yoga/meditação como um novo “concorrente” que oferta novos bens de salvação, muitas vezes...

January 13, 2020

Produções realizadas durante a pesquisa como paradigmáticas

           

A primeira das minhas experiências em pesquisa no pós-doutoramento, posso afirmar isso agora, ocorreu ainda no final de 2017, quando ainda estava no processo de aprovação do meu projeto pelo colegiado da PUC-SP. Em meados de novembro deste ano, participei em Boston/EUA do Annual Meeting of American Academy of Religion. Foi a primeira vez que estive presente num evento acadêmico onde o Yoga foi discutido em mesas e grupos de trabalho como o objeto principal de investigações, e não um apêndice de outras pesquisas. Ali, adquiri um distanciamento necessário para perceber o foco da minha pesquisa no Brasil e a importância de recuar para pensar o Yoga na América Latina. O Yoga por aqui é algo totalmente singular da europa e EUA, mais ainda inexplorado do que os mais importantes investigadores do yoga mundial poderiam prever.

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December 13, 2019

Questões Teóricas

           

Como o yoga moderno é um fenômeno religioso dentro da Ciência da Religião brasileira com poucas pesquisas, meus interlocutores reduzem-se sobremaneira. O lado pioneiro das investigações, que fomenta o ar “bandeirante” em desbravar novos territórios, esbarra rápido em autores que pesquisaram (e pesquisam ainda) um yoga que já não existe mais; me refiro aqui a Mircea Eliade, George Feuerstein e Henrich Zimmer, todos historiadores que estudaram o yoga indiano, ou seja, um yoga que não havia ainda saído do dossel hinduísta. Os colegas contemporâneos, e herdeiros dessa primeira vertente de pesquisa histórica, pode-se destacar os ingleses Mark Singleton e James Mallinson, dentre outros. Podemos considerar o esforço de todos eles a busca de um certo yoga não corruptível pela modernidade.

           

Os segundos interlocutores são os cientistas que possuem como grande...

Perguntas da Pesquisa

Ainda na banca de defesa do meu doutoramento algumas perguntas surgiram, como por exemplo, como se deu a transplantação do yoga indiano a outras sociedades não-hinduístas. Trabalhos já haviam sendo realizados e artigos muito interessantes sendo apresentados em congressos pelo mundo. Entrementes, o caso dos países latino-americanos continuavam envolto em mitos pelos yogues formadores de opinião em blogues pela internet e livros autobiográficos muitas vezes, não respeitados por agentes religiosos do yoga opositores destes. A primeira grande questão que motivou esse trabalho de pós-doutoramento estava, primeiro, em identificar os reais atores sociais do yoga latino-americano e, em seguida, descrever a vida e obra destes. Entretanto, era preciso um marco teórico que nos auxiliasse na estruturação das fases dessa transplantação religiosa. Era de extrema importância respondermos quais as influências e sincretismos que o yoga precisou sofrer para que o possibilitasse torn...

Discussão

Resultados da Pesquisa

Meus primeiros passos na Ciência da Religião sempre foram um tanto quanto incertos, cautelosos, trôpegos até em muitos momentos. Sem saber muito bem por onde seguir, como não poderia ser diferente, fui tateando áreas afins ao meu conhecimento, como a fisiologia, o yoga, a sociedade brasileira e a filosofia do corpo. Deste modo, desde o mestrado trilhei um caminho que envolveu os aspectos funcionais do corpo, como as experiências sensoriais e perceptivas das práticas rituais religiosas e seus reflexos no comportamento de seus adeptos. O movimento religioso Nova Era, pela sua proximidade com o proselitismo yoguico, sempre esteve muito associado de minhas investigações, mas a difícil identificação e delimitação do “nova era” me fez obrigado a adentrar com mais enfoque na sociologia da religião para compreender os atores sociais do yoga e suas construções narrativas, formação de novos mitos, ressignificação de suas antigas escrituras, o surgimento de novas co...

September 13, 2019

O que buscarei demonstrar com as próximas publicações (uma série de textos ao longo dos próximos meses, todo dia 13 de cada mês), é apresentar todo o meu trabalho acadêmico desde o meu mestrado até o meu pós-doutoramento em meados de 2019. A partir deste ensaio aqui, vocês terão a oportunidade de entrar em todo os caminhos e descaminhos em busca de compreender melhor o Yoga e a sociedade brasileira. Para isso, início na Índia da virada do séc. XIX até a chegada do primeiro swami aos EUA e a chegada do yoga, como expressão bastante nebulosa nos países latino-americanos. Boa leitura e divirtam-se!

RESUMO

Buscou-se aqui apresentar a história e as influências dos primeiros personagens da yoga em América latina, pois existe uma lacuna de pesquisa acadêmica sobre a yoga latino-americano entre os anos de 1900 e 1950, quando ainda não havia nenhum yogue indiano no continente. Este isolamento, em vez de adiar o advento da religiosidade yoguica, trouxe problemas e soluções que cinco figuras-chave...

August 13, 2019

Vivemos em um mundo caótico. Mas isso não tem nada de novo, e nem de moderno (ou pós-moderno). Desde sempre o acaso e a necessidade é que tocam o barco por aqui. Para dar ordem a esse caos, surgiram alguns ordenadores de mundo, como as religiões, as filosofias, os mitos, as sabedorias populares, as artes e as ciências mais recentemente.

No entanto, para ordenar algo precisamos criar regras, normas, moral e práticas; tudo para dar sentido à vida, ao mundo e sustentar a Ordem criada (e imposta muitas vezes) anteriormente - uma vida organizada de fora. Isso tudo exige um esforço tremendo. Um esforço individual e de uma comunidade para dar plausibilidade/legitimidade a essa ordem, pois o Caos clama constantemente pelo seu poder des-organizacional. Não está entendendo ainda? Lembre-se quando algum ser vivo próximo de você morreu. Teve nexo, sentido para você na época? Viver a vida demasiadamente humana é perigoso e a magia nos encanta.

Assim, são os outros e as nossas próprias exper...

Resumo


Durante os anos de 1900–1960 o ioga brasileiro permanecia circunscrito a meios esotéricos das grandes fraternidades ocultistas clássicas, predominantemente entre a classe média branca brasileira, e pouco conhecido pelo público em geral. Um ioga sem características próprias, fazendo parte de uma colcha de retalhos mística e mágica. A partir das pesquisas de campo dos últimos dez anos, pretendemos usar como lente para nova leitura a teoria da transplantação do recorte proposto por Pauline Kollontai (2007), cuja visão difere dos demais teóricos da área por considerar na natureza da pré-migração questões como gênero e sexualidade. À luz da ribalta dos principais personagens protagonistas dos últimos 60 anos do ioga brasileiro - como Prof. Hermógenes com sua identidade ioguica terapêutica-cristã-espírita; a escola de ioga de DeRose autodenominada por ele de Swásthya Yôga cuja doutrina teria sido revelada a ele por intermédio de um espírito indiano desencarnado chamado Bhávajánanda na...

June 13, 2019

Introdução

  

É muito comum entre os yogues brasileiros contemporâneos uma associação espontânea entre a espiritualidade do Yoga à noção de busca pela “Plenitude”, como sinônimo de inteiro, perfeito ou completo. Entretanto, os yogues, ao contrário dos cristãos por exemplo, acreditam já nascerem plenos. Portanto, falar em busca não faz sentido dentro da filosofia yoguica, pois buscar enseja que algo falta e deseja-se alcançar. Para um cristão é lícito desejar a "Plenitude/Redenção", pois se compreendem imperfeitos e, portanto, pecadores. Por isso os cristãos (e devotos religiosos advindos de filosofias dualistas, como os judeus, protestantes e mulçumanos por exemplo) denominam essa busca final espiritual de Redenção; ou seja, redimir ou recuperar as suas falhas e faltas para alcançar o Céu e não decair no Inferno - ou algo similar. Mas entre os yogues, considerando-se Perfeitos, completos, inteiros desde o "nascimento", nada deseja-se obter: seja a própria plenitude, autoco...

May 13, 2019

Pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/Brasil (PUC-SP)

Centro de Estudos de Religiões Alternativas (CERAL-SP)

email: iogacontemporaneo@gmail.com

Resumo: O presente estudo busca investigar as singulares narrativas que o yoga indiano sofreu na sua transplantação ao Brasil. Foram entrevistados 10 yogues de expressão que atuam no território nacional e mais 3 cientistas que pesquisam o yoga e a meditação como terapia biomédica. O estudo revelou que os conceitos nativos do yoga (Klesas, Samadhi e Kaivalya, respectivamente relacionados às ideias de Causas do Mal, Experiência Mística e “Libertação”) vem sendo ressignificados como “Estresse”, “Relaxamento Espiritual” e “Homeostase Divina”. Essas novas narrativas míticas fazem sentido dentro da cultura brasileira e correspondem a novos anseios que atuam entre os yogues modernos no Brasil. Concluímos que o yoga no Brasil possui características próprias e vem se caracterizando como uma nova religião em andamento.

Abstract: The pr...

April 13, 2019

3.1.  As origens do ioga brasileiro a partir da história latino-americana

Não é tarefa fácil traçar um panorama histórico e social do ioga na América Latina. Sempre que buscamos referências do ioga, invariavelmente, o encontramos descrito sem identidade própria e parte indistinta de algum outro fenômeno religioso. É como se o ioga apenas “emprestasse” partes da sua doutrina e práticas rituais corpóreas para compor outras espiritualidades, sem possuir microuniverso religioso próprio de atuação (ver GUERRIERO, 2006; Id., 2014).

O caráter mais terapêutico das práticas ioguicas são as que recebem o apelo maior do meio acadêmico. Para um praticante do ioga e cientista da religião, entretanto, o ioga já está bem documentado como possível fenômeno religioso autônomo em processo (DeMICHELIS, 2004; JAIN, 2014; GUERRIERO, 2014) – e ser religioso/espiritual não é menor sob o ponto de vista cognitivo. Mas não foi sempre assim, o ioga dos seus períodos antigo e medieval era percebido como d...

March 13, 2019

As investigações com o Yoga hoje em dia concentram-se, sobremaneira, em seus benefícios para a saúde (uma forma laica de praticar e vivenciar o Yoga), ou de suas repercussões experienciais místico-religiosas (dos chamados "neuroteólogos"). Contudo, ambos, não levam em consideração a sua doutrina religiosa/espiritual. Assim, pouco se sabe das reais interlocuções acontecendo (você gostando ou não) entre Yoga e a sociedade, a cultura, a economia e, obviamente, aspectos comportamentais do brasileiro e a sua religiosidade. Acredita-se, por exemplo que, mesmo praticado em ambiente laico, mais de 40% dos praticantes de meditação desenvolvam uma certa religiosidade/espiritualidade (R.CARDOSO, em seu livro sobre meditação, 'Um médico ensina a meditar'). Essa é a terceira via de investigação do Yoga contemporaneamente em pauta.

E qual a Ética do Yoga? Leia-se sentido de vida! O Yoga acredita, por exemplo, que o aumento da "atividade mental" ou do estado de "desatenção" (c...

February 13, 2019

O ser humano é um animal fraco mas consciente de sua finitude. Isso o diferencia sobremaneira de qualquer outro ser vivo: é um bicho finito mas que se pensa imortal. Por isso que na gregariedade, os seres humanos constroem (socialmente) os mais diversos “ordenadores de realidade” para negar a morte (e recalcar seus desejos também): Filosofias, Religiões, a própria Ciência, os Mitos e o Senso-Comum cotidiano (do "que é porque é"), são alguns dos exemplos. Em outras palavras, erigem instituições (ou agenciamentos) com os seus próprios agentes sociais para suportar toda a sorte de infortúnios. Estes engenhosos animais, conscientes da brevidade de suas existências pueris (única verdade absolutamente, e fato incontestável), desenvolvem (e seguem fielmente) os mais diversos papéis sociais (sacerdotes, filósofos, cientistas, marceneiros, advogados, CEO da Ambev, funcionários do setor bancário e etc) que cada um deles deve/precisa(?) obedecer (acreditam) para que as suas vidas em grupo tenham...

January 13, 2019

Muitos afirmam que vivemos no Brasil em um momento polarizado. Mas acho que não, enfrentamos de forma nítida duas realidades de encarar a existência. E vou tentar aqui demonstrar isso de forma simples (na medida do possível) e correlacionar com o microuniverso do Yoga BR.

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De uma forma geral, podemos separar essas "polaridades" yoguicas em homens e mulheres que percebem (ou se "ligaram" agora) o mundo de forma "ideal" e outros em "construção".

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Pois bem, os “idealistas" acreditam que a Verdade é uma só, única e absoluta. Já os “construtivistas" creem na verdade como relativa, pois depende do contexto social, espiritual e psicobiológico em que está inserida para existir. Existe uma terceira via explicativa? Talvez sim. Mas o que é preciso ficar claro desde já, é que para os yogues "construtivistas", a verdade dos idealistas também existe; não obstante, para a verdade idealista/essencial viver, é necessário um esforço tremendos dos idealistas em conservar a sua verdade intocada, portanto,...

December 13, 2018

Os que são os klesas para o ioga? São as causas do sofrimento humano. A Ignorância, como primeiro klesa (lit.veneno) seria a "mãe" de mais 4 comportamentos nefastos a todo praticante/adepto a cosmovisão ioguica: Apego, Aversão, Medo da Morte e "Orgulho" ou a Falsa Identidade de Si-mesmo. Seriam os klesas que causariam o "turbilhão da mente/consciência" que nos enredaria mais e mais em um ciclo infinito de dor e transmigração da alma. A proposta do yoga "clássico" elaborado por um brâmane hinduísta (Patanjali) estaria em seguir um caminho espiritual de 8 passos: Yamas e Niyamas (espécie de código de conduta), Asana e Pranayama, que conduziria a Prathyahara (experiência/estado onde os estímulos sensoriais externos diminuiriam a sua influência interna), Dharana e Dhyana (a meditação propriamente dita) e Samadhi (uma espécie de epifania yoguica ou encontro com deus/Isvara). Qual a graça do artigo aqui na sua frente? Pensar os klesas como emoções e não como um "código moral" absoluto advind...

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