Rituais de Purificação


O Gheranda Samhita (GS) é um manual do Hatha-Yoga (HY), provavelmente do séc.XVII, aproximadamente quatrocentos anos após o Hatha-Yoga Pradipika (HYP), e é composto por 351 estrofes distribuídas em sete capítulos ou lições. É justamente neste texto que os kriyas (ou limpeza transfisiológicas do ioga) ganham uma dimensão que antes não havia conhecido, comparado, por exemplo, aos Yoga Surtas (YS) e o próprio Hatha Yoga Pradipika (outra escritura medieval ioguica). É natural, portanto, que tenham surgido novas influências e interpretações ao longo dos seus ensinamentos, afinal o YS é datado do séc.II a.C. e a influência do islã, do budismo, do tantra e vedanta advaita se faz presente somente neste momento.

A doutrina apresentada no GS apresenta-se na forma de um diálogo entre o sábio Gheranda, de quem nada se conhece, e o seu discípulo Chanda-Kapali, nome que se refere também à religião dos nathas ou kamphata, tal como outras organizações religiosas deste período. Esta obra toma como modelo, essencialmente, o HYP, tendo alguns versos retirados diretos dele, mas com peculiaridades importantes.

A primeira é o modo como se apresentam os seus preceitos. Enquanto Patanjali, no YS, oferece um ioga em oito partes (asthanga), e o Svatmarama, no HYP, em quatro (chaturanga); Gheranda ensina a sua disciplina ioguica e ética em sete (sapta-sádhana ou saptanga), além de expor não menos do que trinta e duas posturas (ásanas) e vinte e cinco mudras. A parte mais original reside no extenso tratamento dado às práticas transfisiológicas - ou fisiologia sutil - da purificação (shodhana kriya) dos corpos sutis que, ao contrário do HYP, ganham um capítulo inteiro dedicado ao assunto. Além disto, propõe uma interessante classificação do samadhi - a experiência místico-religiosa ioguica. Segundo parte da comunidade moderna do ioga, o GS é uma escritura muito mais sistemática e definida, pois apresenta mais de cem práticas ioga com a sua fisiologia muito bem apresentada. Podemos afirmar, que a corporificação que se assiste contemporaneamente é um desdobramento deste ioga medieval e não um constructo moderno. E o motivo da senda ioguica no GS ser descrita mais incorporada - tão metódica nas técnicas corporais - justifica-se na concepção do corpo como uma amálgama de todos os atos humanos e não apenas um empecilho ao desenvolvimento espiritual como preconizava Patanjali, claramente dualista.

(GS) I.6-8 – O corpo das criaturas viventes é o resultado das boas e más ações. O corpo, a seu tempo, dá origem à ação e, desse modo, o ciclo continua como um ghatiyantra (roda de água). Como a cisterna sobre e desce a água do poço movida pelos bocéis, similarmente o ciclo da vida e morte de cada indivíduo é impulsionado por seus karmas ou suas ações. O corpo é como uma vasilha de barro cru que, se submergida na água desintegra-se. Por isso, deve ser exposto ao fogo do Yoga para fortalecer-se e purificar-se. (Gharote apud SOUTO, 2009, p.266-267)

Acima se percebe que, sendo o corpo responsável pelas ações dos seres humanos, a prática e doutrina fisiológica ioguica medieval tem o poder de modificar e, até mesmo de interromper, o ciclo de reencarnações; indicando assim a liberdade do homem e da mulher para se desenvolverem pelo fruto de suas próprias ações (Ibid., p.257).

(GS) I.10-11 – Os satkarmas purificam o corpo, os ásanas o fortificam, os mudras lhe dão firmeza, o pratyahara produz calma. O pranayama leva à leveza, dhyana leva à realização do ser e samadhi leva ao isolamento, que é a verdadeira libertação (mukti) [ou kaivalya] (SOUTO, 2009, p.268).

Estas ações transcendentes para a kaivalya (lit.Liberação, o objetivo último ddo ioga de qualquer período histórico), que compõem o sapta sadhanam, são as que formam os seus sete capítulos ou lições, são:

1) Shodhana (purificação) referente aos Kriyas;

2) Drdhata (força) aos Ásanas;

3) Sthairyam (estabilidade) aos Mudras;

4) Dharyam (compostura) à Pratyahara;

5) Laghava (leveza) aos Pranayamas;

6) Pratyaksam (autorrealização) relativo ao estado de Dhyana; e 7) Nirliptam (isolamento/transcendência) ou Samadhi.

Como se disse, o diferencial deste capítulo é a descrição minuciosa dos satkarmas ou das seis ações de purificações transfisiológicas - já citadas no HYP, como o Dhauti, o Basti, o Neti, o Lauliki, o Trataka e o Kapalabhati - mas agora, muito mais específicos e detalhistas (ver sutra I.12; SOUTO, 2009, p.269).

A família dos kriyas Dhauti foi subdividida em o

a) antar dhauti;

b) o danta dhauti;

c) o hrddauti;

d) e o mula shodana;

Estes, formando assim o complexo que inclui as lavagens internas tranafisiológicas (ver sutra I.13; Ibid, p.269). O Antar Dhauti se subdivide ainda em

i) Vatasara: aspirar ar pela boca e evacuar pelo ânus;

ii) Varisara: em que se toma bastante água para depois realizar o nauli e evacuar rapidamente;

iii) Vahnisara ou Agnisara: em que após uma expiração profunda se contrai e se projeta rapidamente o abdômen para frente e para trás;

iv) Bahiskrta: em que na primeira parte é preciso empurrar o intestino para fora pelo reto e lavá-lo, para em seguida encher o estômago com ar e retê-lo por noventa minutos e depois expulsá-lo (o ar) pelo reto.

O Danta Dhauti, segundo subtipo dos quatro que compõem a família Dauthi, consiste em limpar os dentes, as gengivas, a língua e os ouvidos.