O ioga moderno como ritual de cura


Introdução

Desde a minha “formação” em ioga no Brasil pelo Instituto Kaivalyadhama e mais tarde, em todo o andamento do meu mestrado e doutorado, que eu percebo um certo discurso afetado com relação aos estudos sobre ioga e suas interpretações. O ioga, um sistema de crenças vinculado em sua origem ao Hinduísmo, foi invariavelmente compreendido como uma “espiritualidade”, “filosofia”, “sabedoria” ou mais uma “excentricidade” da religiosidade oriental. Talvez isso ocorra, em parte, porque seus interlocutores no Brasil sempre estiveram em demasia tutela da fenomenologia exclusivamente e/ou da intelectualidade de Mircea Eliade, Henrich Zimmer e Georg Feuerstein, todos excelentes acadêmicos, no entanto, bastante românticos quanto a Índia e o ioga. Curiosamente (ao menos a mim, cientista da religião), parece não haver tanto interesse assim em investigar o Yoga como uma nova religião com seus próprios “especialistas religiosos” (ver STARK & BAINBRIDGE, 2008) e a natural briga por espaço em sociedades laicas, secularizadas e sincréticas como a brasileira, que já assiste o ioga entremear-se com o Santo Daime, o Xamanismo, a Umbanda, o Espiritismo e o Cristianismo (ver SIMÕES, 2011; Id., 2015).

Parece-me a primeira vista, que o ioga no Brasil ainda não foi totalmente “desencantado” e ainda se vê envolto entre o místico e o científico. Digo de partida que considero (e há sempre um misto de assombro e indignação quando me expresso assim entre colegas iogues e acadêmicos) o ioga moderno como uma religião não institucional já desvinculado do Hinduísmo. No entanto (e agora para a minha surpresa), nunca houve nenhuma reação de espanto ou heresia a nenhum iogue (ou acadêmico) quando um biólogo, por exemplo, apresenta dados em uma revista científica sobre os benefícios da meditação, dos ásanas ou dos pranayamas sobre asmáticos, depressivos, ansiosos ou portadores de HIV, melhor se os grupos investigados forem os do seu próprio “método ioguico de ensino” e ainda mais se o cientista em questão seja um de seus discípulos.

Neste texto me deterei em descrever a ambivalência que gira em torno do ritual ioguico moderno. Buscarei demonstrar o porquê e como o ritual ioguico veio se transformando ao longo de sua história antiga (séc.II a.C.), medieval (séc.XI-XV) até a sua modernidade (a partir de 1893) onde adquire o seu caráter mais eminente de cura pelo “relaxamento” como denominarei, sustentado tanto pelo discurso biomédico ocidental quanto pelas suas escrituras religiosas de outrora e modernas. De alguma forma e por mais ambivalente que possa parecer, a ciência ocidental consegue para os iogues modernos legitimar as suas crenças mágicas ao mesmo tempo em que torna profano os seus rituais.

1) A visão de mundo pelo ioga e os perfis de iogues no muno moderno e secularizado

O aprendizado e a introjeção dos valores iogues se dá por meio do corpo. Há uma intrincada cumplicidade entre a compreensão de si e dos seus condicionamentos através da execução de posturas, respiratórios, limpezas, relaxamento, mantras e meditação ritualizados na busca por uma “des-identificação” de padrões comportamentais nefastos à eliminação da dor/sofrimento/ignorância humanos (tanto orgânicos como “espirituais”) pela cosmovisão do Yoga. Esse ascetismo incorporado (embodiment), segundo Nunes (2008), faz parte da construção do “sujeito yogi” com forte carga individualizada e individualizante.

No ioga, é a partir das suas técnicas corporais que os valores são introduzidos e construídos no indivíduo em referência ao corpo. Não há como separar a construção do corpo yogi, da construção da pessoa yogi, pois o ser yogi é sempre corpo-referenciado.

O ioga acredita que o contato dos sentidos humanos (indriyas) com o mundo (bhutas) produzem “turbulências” (vrittis) em sua mente/consciência (citta) impedindo-os de “ver” o mundo como ele realmente é, o que gera um viver apegado, orgulhoso, aversivo com os seres viventes e com medo da morte (klesas); sentimentos ou comportamentos estes, nefastos à evolução iogue. A mente/consciência afetada tanto pelos vrittis quanto pelos klesas conduzem inconscientemente (ou não) os seres humanos a se aprisionarem nos seus ciclos cármicos de forma viciante, causando mais dor/sofrimento/ignorância. Como se livrar desse ciclo viciante? A resposta está no Asthanga Yoga, um processo ritual que consiste de posturas psicofísicas (ásanas), atenção a respiração (pranayamas), aquisição de um senso maior de “isolamento” sensitivo aos acontecimentos externos (prathyahara), para assim, alcançar-se graus de “concentração” mais efetivos (dharana) e meditação propriamente dita (dhyana).

Esse processo ritual diário possibilita que se aumente o prana no corpo do iogue (uma espécie de energia mágica que circunda o universo e que mantém todos os seres vivos). É o livre circular de prana no corpo do yogi que o capacita a experienciar uma comunhão verdadeira consigo mesmo, Deus, divindades e/ou qualquer outra definição similar (denominado samadhi). Tudo isso, não se pode esquecer, seguindo os dez preceitos éticos (yamas) e morais (niyamas) que devem reger a vida cotidiana iogue (o seu ethos), que são descritos no YogaSutras, uma espécie de livro guia que descreve todos os oito passos descritos acima, denominados, como dissemos, de Asthanga Yoga.

O samadhi, o oitavo estágio do ritual, é uma espécie de "transe mediúnico consciente" (quase sempre descrito como um estado místico-religioso por iogue e estudiosos acadêmicos). Neste estado místico (samadhi), o iogue, livre das “turbulências da consciência cotidiana” (citta vritti nirodha) conseguiria acessar e usufruir dos poderes e benefícios mágicos (denominados siddhis) advindos do seu ritual. O iogue está “realizado” (ou “ilumina-se” na linguagem popular) quando a compreensão de si mesmo é atingida, chamada de kaivalya (lit. libertação, e seria o equivalente do nirvana budista ou do moksa hinduísta).

O iogue então, muito antes do “bem estar” e do “relaxamento” reclamado pelas revistas populares de saúde e os ditos “neuroteólogos”, almeja kaivalya, a saúde orgânica é um resultado secundário, ao menos em suas escrituras seminais. Assim, é a partir de rituais diários, em muitos casos mais de uma vez ao dia, que prana é reestabelecido e “vivekas” (lit. sabedoria discriminadora) são incorporados. Para os iogue modernos, o que os biomédicos revelam em suas pesquisas fisiológicas sobre os seus rituais são apenas ecos da sua alma (purusa). Porém, antes de nos aprofundarmos na ambivalência que isso causou aos iogue modernos, percorreremos sucintamente o caminho do ioga até os dias de hoje.

2) Influências do ioga ao longo dos tempos

2.1) Período clássico ou antigo do ioga

O período clássico ioguico marca o aparecimento do documento que trata especificamente daquilo que se entende hoje como ioga, o YogaSutras, uma coletânea de 196 aforismos que define o que é e qual a sua principal finalidade. Ainda hoje, as escrituras que versam sobre o ioga reverenciam este antigo tratado fortemente associado à uma outra religião, o Samkhya (GULMINI, 2002, p.173-185). O YogaSutras foi compilado por Patanjali, filósofo, gramático, médico e figura semidivina indiana que, provavelmente viveu séculos antes de Cristo. Patanjali não inventou o Yoga, mas o codificou e o sistematizou pela primeira vez. É como se Patanjali tivesse definido as regras de um jogo, pois as raízes do ioga muito provavelmente são mais remotas do que se supõe.

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