Yoga e as Doenças da Alma Moderna


Introdução

Vivemos em uma sociedade do cansaço. O tempo é escasso e ninguém se permite a perde-lo. Parece que se vive constantemente em apneia. A alegoria parece exagerada, mas a respiração curta, como reflexo fisiológico, acarreta menor captação de oxigênio do ambiente e a percepção é de total esgotamento físico. Não é coincidência também a resposta trivial a uma pergunta bastante proferida no dia-a-dia: Como é que você está? Está fazendo o quê? O seu dia hoje, como o sente? A resposta é quase (obrigatoriamente) sempre a mesma (e com certo orgulho em alguns núcleos sociais): Na correria!

Com isso, estamos contraindo doenças manifestas não por agentes físicos, como um vírus ou bactérias, mas por agentes mentais ou subjetivos. Enquanto as primeiras podemos identificar com microscópios e outras máquinas da medicina moderna como ressonantes magnéticos e tomógrafos por emissão de pósitrons, agentes mentais ou subjetivos não há como combate-los mesmo com toda a tecnologia disponível. A ansiedade, a síndrome de burn-out (esgotamento ou “estresse”), o transtorno de déficit de atenção e a depressão ecoam fisicamente, não há dúvidas, por outro lado, é impossível aloca-las em um tubo de ensaio como o fazemos com o vírus da influenza dissipador da gripe. Desenvolvemos medicamentos para combater apenas os efeitos secundários (ecos corporais) destas mazelas metafísicas, mas o aniquilamento de algo não-material nunca poderá decorrer (definitivamente) via medicamentosa; ela requer uma resposta criativa, amorosa e da mesma natureza sutil de sua manifestação.

Mente-Corpo influenciando um a outro

Para estas doenças metafísicas (ou da alma), a abordagem psicanalítica de Sigmund Freud revoluciona os tratamentos médicos quando inclui o diálogo como remédio. Freud para lidar com doenças não-físicas cria uma novo complexo de conceitos (igualmente metafísicos), como id, ego, super-ego e a ideia do recalque para combater os fantasmas da mente. Os recalques, como a própria psicanálise freudiana denomina, são defesas mentais contra ideias contrárias ao nosso eu; estes funcionariam como uma espécie de “autoproteção” ou o “sistema imunológico” do corpo mental. O problema é que os pensamentos recalcados podem voltar a superfície da consciência como doenças mentais (mesmo que manifestas no corpo e/ou comportamentais). A interpretação dos sonhos foi uma estratégia freudiana para acessar a esse recalques e ajudar seus pacientes a lidarem melhor com a suas próprias dificuldades na vida.

Entretanto, é efetivamente com um de seus discípulos, W.Reich, que o corpo começa a ser ouvido e não apenas percebido como um receptáculo inerte dos conteúdos mentais. W.Reich põe o movimento corporal em dialética com as agruras de nossas almas. Ele percebe que se poderia abreviar anos da psicanálise exclusivamente verbal por abordagens corporais, quando incluído determinadas técnicas respiratórias, musculares e de relaxamento associadas com o direcionar da atenção para o conteúdo inconsciente advindos dessas manipulações fisiológicas. Ele observou que determinadas áreas corporais apresentavam-se, em alguns de seus pacientes, demasiadamente contraídas (ou crônicas) e, que quando relaxadas, traziam à tona os recalques, ou seja, as feridas da alma deslocadas para um espaço não consciente, pois “feriam” a constituição psíquica (imaterial/subjetiva) do eu daquele indivíduo. Ele denominou essas específicas áreas corporais/musculares, cronicamente contraídas, de “couraças neuromusculares do caráter”.

A proposta psicanalítica reichiana sugeria identificar o problema que trazia o paciente até seu consultório, depois observar o caminhar, o respirar, os gestos e a postura em si deste indivíduo. Desta observação corporal identificava-se as couraças musculares e recomendava exercícios de “soltura” e relaxamento apropriados. Quando isto alcançado, se iniciaria o diálogo sobre o conteúdo advindo à consciência. O interessante desta perspectiva psicanalítica é a sua naturalidade. E exemplos não faltam.

Se observarmos meninos pré-púberes brincando nas quadras esportivas e pátios escolares é fácil constatar como um testa a força do outro, mas sobretudo, como é evidente a tentativa de superação da dor nas brincadeiras de socar o corpo do colega. As brincadeiras de luta são comuns entre os machos de qualquer espécie. Sempre que é previsto o impacto de um corpo no outro, o receptor contrai violentamente os músculos correspondentes ao impacto do oponente no intuito de sentir menor sensação de dor; na verdade ele antecipa a sensação de dor e contrai a região corporal do impacto. O grande triunfo está, por intermédio de estratégia combinada, atingir o corpo do oponente relaxado, em palavras mais simples, quando este não está esperando o impacto, pois é neste momento de alienação de si-mesmo, que as fibras musculares receberão a colisão descontraídas e relaxadas, percebendo e sentindo mais sentimentos advindos do mundo que o cerca.