Proto-Ioga Latino-Americano como uma nova espiritualidade na primeira metade do século 20: Um olhar


Resumo

O presente artigo busca apresentar a história e influências dos primeiros personagens do ioga na América Latina. Há uma lacuna de investigação sobre o ioga latino-americano entre os anos de 1900-1950, quando ainda não havia chegado aqui nenhum iogue indiano. Esse insulamento, ao invés de atrasar o advento da religiosidade ioguica trouxe problemas e soluções exclusivas que cinco personagens-chaves buscaram responder, proporcionando uma certa singularidade na concepção do ioga latino-americano. Escolho Katherine Tingley, Cesar Della Rosa, Leo Costet, Serge Raynaud e Don Benjamin pois foram estes os primeiros a introduzirem, as suas maneiras, um proto-ioga na América Latina. Diferentemente da Europa e dos Estados Unidos, que receberam, neste mesmo período, as suas primeiras instruções ioguicas pelas mãos de indianos, os latino-americanos erigiram explicações próprias pelas mãos de iogues não-indianos. E mesmo parecendo “espontâneo” e “contemporâneo” pensar o ioga em escolas, hospitais e emprestando seus signos a outras religiões, essas “coincidências” podem ser fruto de uma pré-estrutura erigida desde 1900 em trocas simbólicas realizadas pelos peesonagens acima.

Introdução

O ioga latino-americano também sofreu modificações como em outros países, sobretudo da teosofia, da educação física, da biomedicina e da economia capitalista de consumo (SINGLETON, 2005). Entre os latino-americanos, igualmente a outros continentes, emergiu o que acadêmicos modernos denominam de Ioga Postural Moderno (DeMICHELIS, 2004), possibilitando compreender o ioga atual como uma espécie de prática religiosa do corpo (JAIN, 2014). No entanto, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, o ioga latino-americano recebeu influências sóciorreligiosas diferentes, o que permitiu explicações e trocas simbólicas singulares (SIMÕES, 2015b). A título de exemplo, podemos ressaltar a representação ioguica Caminho do Coração do swami brasileiro Prem Baba, que sincretiza elementos hinduístas com o xamanismo amazônico (SIMÕES, 2015b); a Federação Internacional de Yoga, com base na capital uruguaia e que possui como patrono-fundador o italiano Cesar Della Rosa, um dos primeiros europeus a trazer o ioga na América-Latina; e o presidente e fundador da Associação de Yoga Cubano do Prof. Eduardo Pimental, o “grand-father” do ioga cubano, que afirma que os iogues cubanos, pelo bloqueio econômico que sofrem e as condições sociais em que vivem politicamente, desenvolveram um maior sentimento ioguico de desapego[1].

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Mas essas aproximações citadas acima teceram diálogo com iogues anteriores que deixaram seu legado entre os latino-americanos que produzem hoje centenas de cursos de formação para novos professores de ioga. Estes professores das mais diversas tendências espirituais vem atuando não só nos espaços tradicionalmente erigidos para as suas práticas rituais, mas em escolas, hospitais, postos de saúde, clínicas psicológicas, presídios e academias de ginástica de toda América Latina.

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Na literatura acadêmica, entretanto, há uma insuficiência investigativa sobre as influências religiosas do ioga latino-americano, sobretudo de um período anterior ao desembarque das instituições ioguicas indianas propriamente ditas com maior força a partir dos anos 2000 (SIMÕES, 2015b). O que busco ressaltar neste artigo é a presença do ioga entre os latino-americanos antes da chegada dos primeiros iogues indianos nos anos de 1960-70 (SAIZAR, 2018). Entre as décadas de 1900-1950, como veremos, cinco personagens-chaves foram pioneiros na disseminação da cultura ioguica latino-americana. A norte-americana Katherine Augusta Westcott Tingley, o italiano Cesar Auguste Della Rosa Bendió, os franceses Léo Alvarez Costet de Mascheville e Serge Raynaud de la Ferrière, mais o chileno Don Benjamin Guzman Valenzuela serão centrais na tessitura de um proto-ioga entre os latino-americanos. Eles influenciarão, cada um a seu jeito, “coincidentemente”, todas os iogues posteriores.

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A escolha destes cinco personagens-chaves se fez pela forma historicamente precursora do ioga na América Latina. Não há nenhum estudo acadêmico que se refira a esta pré-fase de transplantação do ioga nesta parte do planeta, por isso todo o meu trabalho de encontro a estes autores ocorreu conversando com os discípulos das ordens espirituais que estes atores sociais erigiram até hoje. Tingley, por exemplo, é citada pelo cubano Eduardo Pimentel como uma das primeiras a divulgar o ioga no seu país e dele fui investigar a sua história e influências, vindo a descobrir sua origem na Teosofia e projetos educacionais aonde a filosofia espiritual do ioga tece dialética com a ideologia de Tingley na formação de uma nova sociedade. Della Rosa e Leo Costet são bastante conhecidos entre os brasileiros devido a Igreja Expectante no Rio de Janeiro, e uruguaios e argentinos pela fundação o primeiro curso de formação de ioga em suas capitais; além de muitos escritos que os seus discípulos erigiram a respeito de seus professores. Como exemplo podemos citar o brasileiro Mestre DeRose, o frânces, mas radicado no Brasil, Jean Pierre Bastiou e o argentino Fernando Estevez Griego, ex-presidente da Federação Internacional de Yoga no Uruguai. Serge Raynaud possui uma de suas instituições espirituais em Brasília/Brasil, a Grande Fraternidade Universal, e uma de suas principais biógrafas é a brasileira Pamela Siegel, acadêmica da Universidade de Campinas/SP. E, por último, o chileno Don Benjamin Guzman foi o mestre de ioga de um dos principais professores de ayurveda no Brasil, o paulista Eric Schulz, que me forneceu todo o material da ordem esotérica Suddha Dharma Mandalam.

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Parece lícito afirmar, desta forma, pensar em uma pré-fase do ioga entre latino-americanos. E é justamente essa “fase zero” da chegada de um proto-ioga na América Latina, ainda negligenciada pela academia, que nos concentraremos no presente artigo descrevendo: a) Biografia, b) Influências, c) Veículos de divulgação, d) Repercussões e Legado que cada um dos nossos personagens erigiram no campo sociorreligoso do ioga latino-americano.

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Katherine Augusta Westcott Tingley

Dados Biográficos

Katherine Augusta Westcott Tingley é uma norte-americana, nascida em 1846 em Newbury no estado de Massachusetts/EUA, mas educada em uma escola católica em Montreal/Canadá. Ela trabalhou toda a sua vida como uma verdadeira assistente social, profissão que ocupou quando chegou em 1894 em Nova Iorque/USA. Praticamente neste mesmo período conheceu Willian Q. Judge, um dos fundadores da Sociedade Teosófica, ao lado de M. Blavatsky e A. Besant. Talvez de sua formação católica na escola derive a vocação para a caridade entre adultos e preocupação na instrução espiritual de crianças e a caridade com os menos favorecidos socialmente que permeou a sua vida.

A biografia da Sra Tingley nos revela uma teosofista idealista, mas que ultrapassa a teoria. Em 1895, houve uma acirrada disputa entre W. Judge e A. Besant, conduzindo a Sociedade Teosófica a uma cisão. Após a morte de Judge, em 1896, Tingley ocupa seu cargo de liderança na seção norte-americana da Irmandade Universal e Sociedade Teosófica. Alguns anos mais tarde, ela forma um grupo teosofista rival a de A. Besant com base em Nova Iorque. Talvez devido a isso, Tingley se dedica em seu espírito mais ativista, compreendendo ações fundando a International Brotherhood League, a Summer Home for Chlidren em New Jersey, além de uma casa para criancas órfãs em Ponit Loma/Califórnia, além de algumas escolas para crianças, as Raja Yoga Academy, contemplando a capital cubana - a primeira experiência no ensino dos fundamentos filosóficos e espirituais de um proto-ioga na América Latina em 1900.

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