Imposturas do Yoga BR (parte final)

Atualizado: Mai 11




Algumas Respostas

O yoga como um novo fenômeno religioso está em expansão. Desde o meu mestrado venho acompanhando tanto os seus desenvolvimentos e estratégias proselitistas, como da sua aproximação com a ciência biomédica para se legitimar e ser aceito nas sociedades latino-americanas. Enquanto entre os anos de 2011-2015 (período do mestrado e doutorado) percebia três mecanismos-estruturais-estruturantes dos quais as instituições yoguicas brasileiras se utilizavam para divulgar e se manter financeiramente: 1) cursos de formação e workshops de professores de yoga/meditação, 2) Viagens/peregrinações a locais de culto/sagrados, e 3) Comercialização de produtos (como cd’s, dvd’s, livros e etc). Hoje (2019), observo o surgimento de um quarto mecanismo-estrutura-estruturante: a 4) Organização/Produção de eventos. Em outras palavras, esse novo mecanismo conjuga dois anteriores, mas se configura diferentemente: 1) pode acontecer num local retirado dos grandes centros urbanos, e se constitui uma zona 2) de comercialização de produtos. O mecanismo yoguico produção de eventos se assemelha muito aos grandes encontros, festivais e congressos holísticos da cultura religiosa Nova Era, onde as experimentações corporais estão como foco, mas aqui, no caso do yoga, se diferencia pois é organizado apenas ao microuniverso do yoga. Em outras palavras, a pluralidade “errante”, característica nova era, fica ausente e a organização/produção do evento converge apenas aos elementos sociais religiosos do yoga. Em poucas palavras, é exclusivo e singularmente projetado para yogues/meditadores.

Outro aspecto respondido com a pesquisa são linhas de fuga que o yoga vem traçando para não se enquadrar como religião. Como as instituições religiosas a todos os atores sociais advindos da cultura religiosa nova era são percebidas com a “validade vencida”, é muito comum ouvir que o yoga é “espiritual, mas não religioso”. O cerne dessa atitude (espiritual, mas não religioso), esclarece Andrea Jain, jaz na disputa do Yoga moderno pela hegemonia do campo social religioso disputado com as religiões dominantes. Enquanto na Índia o yoga pertencia ao dossel religioso hinduísta, dominante naquele país, o Yoga moderno, desvinculado do hinduísmo e habitando cartografias religiosas diferentes, se vê impingindo a buscar novas estratégias proselitistas.

A própria argumentação acima (da validade vencida) deixa evidente esse aspecto de deslegitimação de outras expressões religiosas. Paradoxalmente, esse tipo de argumentação, que visa aniquilar a legalidade do outro no mercado religioso em que vive e disputa, volve o yoga (pensado como “espiritual, mas não religioso”) em um paradoxo que o inferioriza e eleva sua posição de colonizado. Dito de outra forma, os yogues não desconsideram as religiões como legítimas, pois se fosse assim, o hinduísmo deveria não existir tanto quanto o cristianismo; mas não é esse o caso. Por outro lado, se apenas algumas instituições religiosas, como o exemplo da Igreja Universal do Reino de Deus, estariam inválidas aos yogues modernos, quais os critérios? Se ainda assim o for, como é comum entre os yogues-da-rua: estas ou aquelas religiões doutrinam ou possuem dogmas; o yoga seria igualmente inválida, pois como não considerar dogmático uma escritura como o Hatha-Yoga Pradipika, redigida por Shiva, um deus do panteão hinduísta? Em suma, o discurso contra afirmativas do yoga como um novo fenômeno religioso, comum na fala dos yogues e (cientistas da religião modernos) funciona, ao mesmo tempo, no tentame de aniquilação de narrativas que disputam com eles o campo social religioso e, paradoxalmente, replica o discurso colonialista que os primeiros yogues modernos indianos lutaram tanto para desfazer no período histórico da renascença indiana.

O último ponto importante, transita no âmbito do meu trabalho histórico em enumerar os cinco principais personagens da história do yoga latino-americano. Mas não apenas de cunho historicista, o foco da pesquisa na vida e obra destes é aventar as influências nas gerações futuras. Estes cinco atores sociais, continuam gerando certo habitus aos yogues modernos brasileiros, por exemplo. Enumeramos em seções anteriores as suas influências: 1) a presença cada vez maior do Yoga/meditação nas escolas e centros de saúde e hospitais públicos e privados; 2) o desenvolvimento crescente de Igrejas Yoguicas, servindo até mesmo como estrutura organizacional para promoção de outras religiões, como é o caso mais óbvio do budismo, mas outras nem tão evidentes assim, como a situação do sikhismo sendo difundido com o nome de 3HO Kundalini Yoga; e, por último, mas não menos interessante, a legitimação do yoga como religião acontecendo via correntes religiosas nativas que retornam à Índia e convertem yogues indianos. O exemplo mais interessante é o surgimento da organização religiosa Awaken Love, do yogue brasileiro Sri Prem Baba. Prem Baba sincretiza elementos da religião brasileira Santo Daime, como a inclusão da beberagem da ayahuasca em práticas de yoga, assim como a substituição dos hinários católicos, base do culto daimista, pelos dos mantras hinduístas.

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