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Ritornelos do Yoga-Raiz e os Yogas-Mestiços

Atualizado: 30 de jul. de 2022




Entre os yogis indianos colonizados pelos ingleses, esse ritornelo veio como “neo-yoga”: foram yogis que reclamavam para si um distanciamento das superstições de seus antepassados, mesmo porque quando transplantam seus yogas para outras geografias, longe do dossel hinduísta, em poucas décadas aquele fascínio pelo Vedas, Puranas e Shastras dos hippies dos anos 60-70, são percebidos como eles realmente são, escrituras religiosas e se deslocam para a Ciência, seu novo "Hinduísmo" e os cientistas, seus novos "brâmanes". Por isso se agarraram nas ciências biomédicas para explicar suas práticas e textos por exemplo. Surge, como linha-de-fuga, a era dos yogaterapias, sua obsessão por asanas, cura que é capturado pelo capitalismo e as replicações de yoga-cura-tudo começa: seja aumento de performance ou prevenção do COVID.


O Yoga vai, sorrateiramente, cientificizando-se. No entanto, os yogi(ni)s modernos não-indianos, os discípulos dos líderes carismáticos indianos que se fizeram durante o período de colonização inglesa na Índia, percebem o perigo de flertar com a Ciência, pois os cientistas goza(va)m de maior prestígio dos que os sacerdotes (brâmanes, gurus, mestres e etc), e perdem espaço narrativo na construção de "verdades" ou mitos. Muitos cientistas que investigam yoga|meditação se convertem ou são convertidos daquelas instituições yoguicas fundadas pelos líderes carismáticos. Não é mais "segundo as escrituras", mas "segundo o artigo científico". E isso perdura bem como narrativa hegemônica até hoje, mas vem perdendo espaço, mas ainda é forte, e vem migrando das biomédicas, para as neurociências e hoje, tem uma turma das "humanidades" fazendo esse papael de legitimador de yogas, sobretudo da ciência da religião no Brasil.


Essa obsessão cientificista e a junção de "acadêmicos-yogi(ni)s|meditadores" abriu espaço para o (re)surgir dos yogi(ni)s (ultra)ortodoxos, que condenam as aproximações nos neo-yogis ou neo-vedantistas, guinando as narrativas yoguicas da ciência biomédica para o “resgate” de uma tradição religiosa yoguica perdida (vedântica, sânscrita, hinduísta…), ou não compreendida corretamente, no contato com o ocidente (ou seja, com eles mesmos, já que eles não são hinduístas e nem indianos). Esses yogi(ni)s-acadêmicos, em geral, convertidos de alguma instituição, vão justificar suas crenças pela história, filologia e exegese das (suas) escrituras “sagradas” (perfeitas em si-mesmas") e de suas heranças| castas(?) antigas, portadores de um "yoga original", acreditam.


Recentemente li um artigo publicado no Brasil que dedica-se em, baseado em achados arqueológicos, demonstrar que nunca houve uma invasão ariana que subjugou a população drávida (não-ariana, dravidiana ou hareapeana ou qualquer outra denominação que você deseje dispensar a um coletivo autóctone indiano).


Se você é novo no yoga, mas fez (eu acho esse nome fantástico, pois não esconde o que se propõe) uma formação em yoga, já ouvir falar na história quase mítica (relatada nos Vedas e Gita - algo similar a buscar na Bíblia resquícios de verdades históricas) de um povo ariano, portador do livro sagrado Vedas, que dominou povos autóctones que já viviam no Vale do Indo, no que hoje denominamos de Índia. A tese que historiadores europeus, durante a colonização inglesa na Índia, é que os arianos seriam um povo nômade vindo da europa e teria invadido a Índia e imposto seu saber aos primitivos, povos drávidas, harepeanos ou qualquer outros pois as escavações de duas grandes cidades foram descobertas nos anos de 1920 e ainda estão sendo escavadas


Neste artigo brasileiro, a autora defende a tese que não houve invasão ariana, mas um processo natural de aculturação entre essas duas (ou mais) coletividades. Entrementes, e isso nem ela no presente artigo deixa dúvida, a cultura ariana predominou sobre as outras: o principal livro religioso na Índia é o Vedas, escritura ariana, e a estratificação social da população em castas é justificada por esse livro santo, dentre outras influências que os arianos deixaram de legado.


E nesta história, em qual casta social você acha que os não-arianos ocuparam? Claro, na condição de párias. Então, entenda, pouco importa se a tese é de invasão sangrenta de batalhas ou de forma gradual uma aculturação "pacífica". Um povo subjugou outro, como se deu o processo, é irrelevante aqui - ao menos para esse texto, mas deve ser a outros que precisam se legitimar e seu yoga numa raiz "confiável". Mas tanto os historiadores europeus do séc. XIX-XX ou alguns cientistas da religião do séc.XXI no Brasil, parecem se interessar (muito) em demonstrar que os arianos ganharam, mas sobretudo da onde eles vieram: da europa, o que reforça a narrativa da superioridade europeia ou da Índia mesmo, o que enaltece a superiodade nacionalista indiana, sobretudo hoje em dia, com um governo na Índia, como no Brasil, ultraconservador e religioso.


Em uma passagem bem ilustrativa do artigo, os coletivos, que estamos denominando simplesmente como não-arianos, “sem graus de nobreza” ou párias aos arianos são “descritos como negros e com nariz achatado”. O interessante é o esforço do trabalho (preocupado em defender a tese que os arianos são indianos de origem e não invasores) nem cogita a forma, talvez(?), depreciativa da cultura dominante ariana sobre os dominados, alegando que foi tudo revisto e rejeitado por uma tradução mal feita dos termos (negros de nariz achatado). A autora defende que o termo Aryas (de arianos) não se refere a uma etnia, mas apenas


“as pessoas consideradas nobres, que respeitavam a tradição religiosa [do Vedas]; os Dasa ou dasyus [os não-arianos como fica explícito] eram o oposto disso, ou seja, pessoas desprezíveis, que não seguiam os ensinamentos dos Vedas” (BIANCHINI, 2012).

A defesa de uma não “invasão ariana” pela pesquisadora se prende, exclusivamente, aos fatos que não houve conflito armado, mas um processo natural de passagem de uma cultura a outro. Mas o que determina a dominação de uma cultura a outra não significa, necessariamente, combate com armas e batalhas, mas narrativas hegemônicas que eliminam outras expressões culturais da existência social, subjugando-as de um pluralismo de ideias e formas de existir para a dominante, no caso, a ariana. Assim como os escravizados negros chegados ao Brasil tiveram suas multiplicidades culturais relegadas a marginalidade, e suas diferenças culturais e físicas também eram motivos de segregação e eliminação de suas existências. Quando Bolsonaro envia pastores evangélicos a populações indígenas para catequizá-los, esta ali se engendrando um processo de dizimação da diversidade cultural daquele coletivo - e sem sangue e armas (nem sempre).


Denominar como desprezíveis os que não segue os preceitos religiosos dominantes, é dizimar suas subjetividades. Entrementes, a pesquisa informa que a caracterização dos não-arianos como negros, representa apenas uma “descrição da sua pele” e o nariz achatado, que é como as escrituras arianas, o Vedas, se referem aos não-arianos, está equivocada, pois na verdade, significa (apenas?) “sem nariz” e não achatado [sic]. Os não-arianos, segue a defesa dos "arianos-nobres", eram também alcunhados de “sem pés e sem mãos” mas, justifica-se no texto:


“(...) nenhum povo humano conhecido tem essas características [preto, nariz achato ou sem nariz, pés e mãos]; pode-se interpretar essas designações como uma comparação entre os dasyus [os não-arianos ou não-nobres, dá na mesma] e as serpentes, que não tem pés, mãos ou nariz. (…) Evidentemente, isso não se coaduna com uma diferença racial”.

Não, claro que não, designa que eles são diferentes de nós, mas também não outorgar-lhes o direito da alcunha de pretos com narizes achatados, sem mãos e pés!


“ (...) não existem raças dos arianos e dos dravidianos [os não-arianos]. Eles são membros do mesmo ramo Mediterrâneo da raça Caucasiana. Os Dravidianos possuem pele mais escura e vivem mais próximos ao Equador. A diferença da pigmentação pode ser uma adaptação ao clima mais quente”. (BIANCHINI, 2012).

Em suma, denominar o outro que teve sua cultura (seja numa guerra civil, imperial, policial subindo o morro ou em um processo gradual) dessubjetivada por outra cultura que se impõe, outorgando a sua religião e organização social como dominante (por superioridade moral?) como sem nariz (ou achatado), sem pernas e mãos e de pele mais escura, similar as serpentes não é, por si só, motivo de aniquilamento de um (ou mais) povo(s)? Não sei, talvez, essas alcunhas não sejam depreciativas, mas analisando que não sabemos nada dessas culturas, foram consideradas párias pela que "sobreviveu", e o que sabemos são descrições da cor da pele e de sua anatomia, não sei, mas poderia, ao menos, sugerir, que o modo de vida deles, no mínimo, foi parcialmente apagado pelos arianos. Mas o que restou, um tal de yoga e algumas populações, como os aghoris, os kamphatas, os vamacaris e os "tântricos", nome genérico para, talvez, ordens religiosas e subjetividades dos não-arianos, nos chegam recheadas de preconceitos. Isso nos leva a suspeitar que talvez as descrições anatômicas dos não-arianos (esses sem nome ou tradição digna de perfilar aos nobres arianos) sejam pejorativas sim.


Mircea Eliade, um dos criticados no artigo brasileiro acima, sobretudo por defender a tese contrária, não da dizimação da cultura de um povo (ou coletivos plurais yoguicos, pois não sabemos ainda quais formas de vida viviam nas centenas de populações que perfaziam as “civilizações do Vale do Indo), mas por defender a ideia que os arianos teriam se deslocado da Europa para Índia trazendo consigo, toda a “rica cultura védica” - nobre! Então, entenda, a tese só se modifica com a anterior a respeito da origem dos arianos e desfilam negações e preconceitos aos não-arianos, pois os primeiros defendem que os arianos seriam indianos e não descendentes de proto-europeus, como pretende Eliade e outros. O que busco deslocar aqui o foco é que todos parecem ignorar a dizimação aos não-arianos, estes sim, os primeiros yogi(ni)s. O yoga, é sabido por todos, não está no Vedas, surge antes, entre os não-arianos, sendo incorporado na aproximação da cultura ariana| védica e dos não-arianos (drávidas, harapeanos?).


Vejamos o que Mircea Eliade em seu livro Yoga e Imortalidade, no capítulo VIII, intitulado didaticamente por O Yoga e a Índia Aborígine, nos afirma:


“(...) as diferentes formas do Yoga - devocional, mística, erótica ou mágica - exerceram grande influência no nascimento das literaturas vernáculas [nome pomposo para se referir a uma linguagem correta, sem estrangeirismos na pronúncia ou próprios de uma nação ou império] e, de maneira geral, na formação do espírito da India Moderna.”

E continua:


“Nos meios populares [não-arianos| nobres?], os yogis têm sido considerados em todos os tempos como magos ilustres dotados de poderes sobre-humanos [os siddhis].
(…) O fenômeno [em confundir yogis com feiticeiros, que são os opostos aos sacerdotes| brâmanes, portanto, a superior casta dos arianos] é compreensível se pensarmos que a liberdade [aqui se refere à kaivalya ou liberação] se manifesta de inúmeras formas, frequentemente anti-sociais; um homem livre [yogi que alcançou kaivalya] já não se sente preso a leis e preconceitos [a moral ariana dominante?] - situa-se fora de toda ética e de toda forma social. Os “excessos” e as “aberrações” que ressoam nas lendas dos Vamacari [um dos praticantes tântricos, talvez uma das inúmeras expressões religiosas ou mágicas dos não-arianos], as crueldades e os crimes dos kapalikas [devotos da tradição shivaísta, lit. “homens do crânio”, também mais uma expressão das culturas não-arianas antes de sua dominação?] e dos aghori [devotos de uma tradição tântrica antropofágica, mais uma delas aqui de novo], conquistada sobre a condição humana e à margem da sociedade” (ELIADE, p.245).

Esses “excessos”, continua Eliade, abriram espaço “a sincretismos quase inevitáveis, como ritos provenientes de níveis espirituais inferiores [sic] e comportamentos de grupos subalternos (…)” que, além da magia, esses yogas tântricos (aqui Eliade denomina todos os yogas não-arianos, como Yogas Eróticos ou tântricos) “encoraja a livre expressão dos cultos orgiásticos secretos e dos maníacos licenciosos [sic] que, sem o prestígio do maithuna tântrico e das técnicas hatha-yóguicas, teriam prosseguido sua existência obscura à margem da sociedade e da vida religiosa comunitária”. (Id., p.246).


Para finalizar, o autor vem com a mesma retórica que se repete desde os autores acima supramencionados, utilizada como ritornelo sempre que yogi(ni)s ortodoxos precisam reafirmar a importância de suas instituições:


“Na perspectiva indiana, esse fenômeno de degradação [se referindo sempre a outras formas de expressão yoguicas diferentes das que estes representam] corresponde ao movimento de queda acelerada do fim do ciclo: durante o Kali-Yoga a verdade é envolta nas trevas da ignorância. É por isque novos Mestres aparecem continuamente e readaptam a doutrina atemporal às escassas possibilidades de uma humanidade decaída”. (Id., p.246).

O ritornelo yoga-ariano-raça-pura ecoa nestas narrativas, ambas científicas e, aparentemente antagônicas, mas que reforçam o mesmo discurso atual com yogi(ni)s que se desviam das narrativas dominantes, herdeiras da "tradição" (ariana?).


A questão se houve ou não invasão do yoga-ariano-nobre-elite sobre outras yogas tornando-os marginais, periféricos e párias não faz o menor sentido. Se foi por uma guerra sangrenta com armas, cavalos, luta corpo-a-corpo ou devido a seca do rio Sarasvati que fez as populações não-arianas se deslocarem perdendo suas identidades... isso só interessa hoje, no século XXI, aos que se compreendem herdeiros de uma tradição imaginária marco zero do yoga. Mas serve também para se manter o mito do Yoga Original, yoga marco zero, que alimenta a espera(nça) de mais e mais devotos, como servis voluntários, resignados e atravessar suas vidas na busca de...


Perceba que muitos projetos sociais que carregam yoga nas costas subindo os morros e adentrando em coletividades desfavorecidas pelas injustiças sociais hoje no Brasil, invariavelmente, replicam os mesmos gestos da tradição que guardam. Esses herdeiros dos yogi(ni)s-arianos, assim como os jesuítas portugueses na colonização portuguesa no Brasil que, ao invés de pensar suas instituições religiosas como veículos de justiça social, não para incluir os periféricos, mas integrar suas estéticas e filosofias de vida marginalizadas, parecer intentar levar as “palavras de Patanjali” aos carentes. Esse é o ritornelo yoguico dos tradicionalistas para cima dos “sem tradição” e os “mestiços” do yoga. É possível ouvir relatos desses “missionários do yoga-ariano” ecoando:


“(...) alguns não entrarão no processo, não nasceram preparados ao yoga” [pois ignorantes, primitivos?

Ou ainda:


“Já fiz trabalho social em regiões periféricas, mas eles não respondem, são agressivos…”, [ou seja, são bárbaros ou selvagens?]

Pouco importa quem foram ou até se existiram ou não os arianos, drávidas, harapeanos ou qualquer outra denominação, o que essas pesquisas científicas do século passado ou atuais revelam, são as narrativas míticas, como ritornelos, reverberando processos de dessubjetivação e legitimidade de alguns yogas em detrimento a outras “estirpes yoguicas” distintivas que se estendem por gerações. Se há uma tradição no yoga é essa, a das distinções entre os estratos sociais que vivem seus yogas. O que retorna sempre na história yoguica do mundo parece ser o do preconceito dos tempos de Patanjali que sistematizou seu Darsana-Yoga ou, veja o nome destinado ao yoga de um brâmane, a alta casta daquela coletividade (mítica ou não) ariana: Yoga Clássico e a escritura yoguica “mais importante”, o Yoga-Sutras que ele inventou, atravessado pelas populações não-arianas que, aos olhos dos arianos-nobres, eram estranhas, eram Yogas-Outro. E volto a repetir, não importa se o Yoga-Sutras não for, “comprovadamente”, a escritura mais importante, ela é, está consensual, até que outra a supere na hegemonia yoguica atual. Estaria surgindo um novo darsana-ariano para substituí-la entre os brasileiros, o Vedanta?


A decadência do Yoga sempre surge como recurso narrativo na boca dos ortodoxos, os que dominam o campo espiritual yoguico no Brasil; e quando se sentem ameaçados por outras estéticas e éticas yoguicas (EsquiZoYogas) que surgem como rotas-de-fuga criadoras de Yogas-Outro. Estes yogi(ni)s desviantes, yogi(ni)s nômades, herdeiros dos negros de nariz achatados, comedores de gente, lascivos do yoga da "esquerda", aqueles que mantram nas encruzas e cemitérios, aceitam putas, gayz e trans, fumam ganja antes dos suryas, tomam ayauhuasca ou soma, como foram (ou são ainda?) os aghoris, kapalakhas, vamacaris, os tântricos, os acroyogi(ni)s, os yogi(ni)s restaurativos, yogaterapeutas, nudistas yogi(ni)s, os ganja-yogi(ni)s, os kemetic yogi(ni)s, sarrayogi(ni)s e tantos outres. Todos marginais, sub-yogas, mestiços, negros, putas e vagabundos que não sabem sânscrito, não viajaram para Índia, são autodidatas... Viva você, viva eu, viva o rabo do tatu.



Referências Bibliográficas:

BIANCHINI, Flávia. A origem da civilização indiana no vale do Indo Sarasvati: teorias sobre a invasão ariana e suas críticas recentes. Pp. 57-108, in: GNERRE, Maria Lúcia Abaurre; POSSEBON, Fabrício (orgs.). Cultura oriental: língua, filosofia e crença. VoI. 1. João Pessoa: Editora da UFPB, 2012.

ELIADE, M. 2011. Yoga: Imortalidade e Liberdade. São Paulo: Ed. Palas Athena. p.244-254.

BOURDIEU, P. 2011. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Ed. Perspectiva. p.27-78; p.257-268


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