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Ritornelos do 'Yoga-Raiz' e os Yogas-Mestiços

Atualizado: há 6 dias



I. Desintrodução Necessária

Entre os yogues indianos atravessados pela colonização europeia, algo retorna como insistência: o neo-yoga. Não como invenção pura, mas como defesa. Yogues que, ao se distanciarem das “superstições” de seus antepassados, tentaram purificar-se para caber no olhar do outro. Quando seus yogas são transplantados para outras geografias - embalados pelo desejo contracultural dos anos 60 e 70 - algo escapa: eles aparecem como são. Mestiços. Nem plenamente tradicionais, nem plenamente modernos. E talvez por isso tenham se agarrado com tanta avidez às ciências biomédicas: ali encontraram uma promessa de legitimidade que não exigia filiação religiosa, apenas desempenho discursivo.


É nesse movimento que emergem as yogaterapias, não como ruptura, mas como sintoma. Uma obsessão pela cura das mazelas produzidas pelo próprio capitalismo, sem jamais tocar na engrenagem que as produz. O yoga, assim, torna-se operador de adaptação: melhora o indivíduo, ajusta o corpo, otimiza a respiração — e preserva intacto o mundo que adoece. A fé muda de forma, mas não de estrutura: permanece a crença no aumento de desempenho, no indivíduo soberano, na promessa da melhor versão de si mesmo.


O yoga vai, então, se cientificando. Mas esse flerte não é ingênuo. Os yogues modernos (indianos ou não) percebem o risco: ao recorrer à Ciência, deslocam o lugar de autoridade. O prestígio que antes pertencia aos sacerdotes, mestres e gurus passa aos cientistas. A verdade deixa de ser revelada e passa a ser publicada. Não é mais “segundo as escrituras”, mas “segundo o artigo”. E muitos pesquisadores, curiosamente, acabam convertidos (ou absorvidos) pelas mesmas instituições yoguicas que pretendiam estudar. O discurso científico não substitui o religioso: ele o reencena, com outro vocabulário.


Essa narrativa, ainda hegemônica, começa a mostrar fissuras. Migra das biomédicas para as neurociências e, mais recentemente, encontra nas humanidades um novo agente de legitimação. Onde antes se media cortisol, agora se mede filologia; ou, antes se falava de neurotransmissores, agora se fala de sânscrito. O mecanismo, porém, permanece: sustentar uma origem pura, um fundamento confiável, um ponto zero.


É nesse contexto que reaparecem os yogues ultraortodoxos. Eles condenam as aproximações científicas do neo-yoga e deslocam a narrativa: da biomedicina para o resgate de uma tradição religiosa supostamente perdida ou mal compreendida no contato com o Ocidente: como se eles próprios não fossem já produto desse contato. Yogues convertidos, muitas vezes, passam a justificar suas crenças pela história, pela exegese, pela filologia, afirmando-se herdeiros de um “yoga original”, perfeito em si-mesmo. Um yoga sem resto. Um yoga sem mancha.


Recentemente, um artigo brasileiro se propõe a desmontar a tese da invasão ariana a partir de achados arqueológicos, defendendo que nunca houve dominação violenta sobre populações não-arianas. Teria havido apenas aculturação. O detalhe (que o próprio texto não consegue apagar) é que essa aculturação resultou na hegemonia ariana: os Vedas tornam-se o livro central, a organização social em castas se consolida, e os não-arianos ocupam o lugar do resto. Párias.


... as pessoas consideradas nobres, que respeitavam a tradição religiosa [do Vedas]; os Dasa ou dasyus [os não-arianos como fica explícito] eram o oposto disso, ou seja, pessoas desprezíveis, que não seguiam os ensinamentos dos Vedas (BIANCHINI, 2012).

Pouco importa se houve guerra ou transição gradual. A dominação não se mede apenas por espadas, mas pela capacidade de impor narrativas que apagam outras formas de existência. Um povo não precisa ser exterminado fisicamente para ser reduzido ao silêncio. Basta que sua linguagem, seus ritos e seus corpos sejam nomeados como inferiores. A história colonial conhece bem esse mecanismo: inclusive no Brasil, quando populações indígenas são catequizadas em nome de um bem maior, sem sangue visível, mas com devastação simbólica.


No artigo citado, os não-arianos são descritos como “negros, de nariz achatado”. O esforço da autora em neutralizar o caráter depreciativo dessas descrições chega ao limite do constrangimento: não seriam negros, apenas “de pele mais escura”; não teriam nariz achatado, mas “sem nariz”; não seriam humanos deformados, mas comparáveis a serpentes. Não se trata de diferença racial, diz o texto. Apenas de descrição.


... nenhum povo humano conhecido tem essas características [preto, nariz achato ou sem nariz, pés e mãos]; pode-se interpretar essas designações como uma comparação entre os dasyus [os não-arianos ou não-nobres, dá na mesma] e as serpentes, que não tem pés, mãos ou nariz. (…) Evidentemente, isso não se coaduna com uma diferença racial.
... não existem raças dos arianos e dos dravidianos [os não-arianos]. Eles são membros do mesmo ramo Mediterrâneo da raça Caucasiana. Os Dravidianos possuem pele mais escura e vivem mais próximos ao Equador. A diferença da pigmentação pode ser uma adaptação ao clima mais quente. (BIANCHINI, 2012).

Mas o que é uma descrição que só resta no discurso do vencedor? O que significa um povo conhecido apenas pela cor da pele, pela ausência de membros, pela animalização? Mesmo quando se nega o racismo, ele retorna na forma da classificação, da hierarquização, da exclusão do campo do humano pleno.


Mircea Eliade, frequentemente criticado por defender a origem europeia dos arianos, não escapa da mesma engrenagem. Ao falar do “yoga aborígine”, ele o faz sob o signo do excesso, da magia, da aberração. Yogues confundidos com feiticeiros, práticas tântricas descritas como licenciosas, cruéis, desviantes. A liberdade aparece como ameaça à ordem social. O yogue livre é aquele que já não responde à moral dominante — e por isso precisa ser reinscrito como perigoso, inferior, decadente.


... as diferentes formas do Yoga - devocional, mística, erótica ou mágica - exerceram grande influência no nascimento das literaturas vernáculas [nome pomposo para se referir a uma linguagem correta, sem estrangeirismos na pronúncia ou próprios de uma nação ou império] e, de maneira geral, na formação do espírito da India Moderna (Id).

Quando Eliade recorre ao mito do Kali-Yuga para explicar a “degradação” dessas práticas, o mecanismo se fecha: se o presente está corrompido, é preciso novos mestres, novas instituições, novas doutrinas adaptadas à humanidade decaída. A decadência do yoga torna-se, assim, um recurso narrativo recorrente. Sempre que outras formas de viver o yoga emergem, reaparece o anúncio da queda — e com ele, a necessidade de restaurar a ordem.


Nos meios populares [não-arianos| nobres?], os yogis [sic] têm sido considerados em todos os tempos como magos ilustres dotados de poderes sobre-humanos [os siddhis].
(…) O fenômeno [em confundir yogues com feiticeiros, que são os opostos aos sacerdotes| brâmanes, portanto, a superior casta dos arianos] é compreensível se pensarmos que a liberdade [aqui se refere à kaivalya ou liberação] se manifesta de inúmeras formas, frequentemente anti-sociais; um homem livre [yogue que alcançou kaivalya] já não se sente preso a leis e preconceitos [a moral ariana dominante?] - situa-se fora de toda ética e de toda forma social. Os “excessos” e as “aberrações” que ressoam nas lendas dos Vamacari [um dos praticantes tântricos, talvez uma das inúmeras expressões religiosas ou mágicas dos não-arianos], as crueldades e os crimes dos kapalikas [devotos da tradição shivaísta, lit. “homens do crânio”, também mais uma expressão das culturas não-arianas antes de sua dominação?] e dos aghori [devotos de uma tradição tântrica antropofágica, mais uma delas aqui de novo], conquistada sobre a condição humana e à margem da sociedade” (ELIADE, p.245).

A pergunta sobre invasão ou não-invasão torna-se, então, secundária. Ela interessa apenas àqueles que precisam garantir uma linhagem pura. O que se repete, em todas essas narrativas, é a distinção: entre yoga nobre e yoga bastardo (um yoga nascido "fora do casamento tradicional ou de mãe e pais desconhecidos - foracluído) entre tradição e desvio, entre o que merece existir e o que deve permanecer à margem.


Na perspectiva indiana, esse fenômeno de degradação [se referindo sempre a outras formas de expressão yoguicas diferentes das que estes representam] corresponde ao movimento de queda acelerada do fim do ciclo: durante o Kali-Yoga a verdade é envolta nas trevas da ignorância. É por isque novos Mestres aparecem continuamente e readaptam a doutrina atemporal às escassas possibilidades de uma humanidade decaída. (Id., p.246).
... alguns não entrarão no processo, não nasceram preparados ao yoga [pois ignorantes, primitivos?]

Ou ainda:


Já fiz trabalho social em regiões periféricas, mas eles não respondem, são agressivos…”, [ou seja, são bárbaros ou selvagens?]

No Brasil, isso reaparece nos projetos sociais que “levam yoga” às periferias, não para escutar o que ali já pulsa, mas para implantar as palavras de Patanjali como se fosse salvação O gesto é antigo. Missionário. Civilizatório. “Nem todos estão preparados”, dizem. “Eles são agressivos”, justificam. A exclusão retorna travestida de cuidado. Talvez a única tradição constante do yoga seja essa: a produção de hierarquias, a fabricação de purezas, a exclusão dos corpos que não se alinham. Contra isso, sempre existiram os yogas-outro. Yogas mestiços, desviantes, sem sânscrito, sem Índia, sem autorização. Yogas que mantram em encruzilhadas, fumam, transam, erram, inventam. Yogas que não pedem permissão.


Esses nunca foram o problema do yoga. Sempre foram o que o manteve vivo.

Viva você. Viva eu. Viva o rabo do tatu.


II. Campos, Agências e a Guerra Permanente contra os Feiticeiros

Religião, Arte, Ciência, Mito, Filosofia e senso comum não são apenas modos distintos de falar do mundo: são regimes de verdade, cada qual com seus campos de funcionamento, suas regras internas e seus agentes autorizados. Não competem entre si por acaso - disputam legitimidade, prestígio e poder de nomear o real. O campo religioso/espiritual talvez seja o mais resiliente de todos. Ele se fragmenta em religiões (Budismo, Cristianismo, Hinduismo, Sikhismo, Nova Era), que por sua vez se organizam em subcampos (catolicismo, protestantismos, Theravada, Mahayana, Yoga, Reiki, etc.). Mas o que realmente estrutura esse campo não são apenas doutrinas, e sim as posições ocupadas por seus agentes.


Há sacerdotes, que mantêm, trocam e inventam bens simbólicos; místicos, que afirmam um acesso direto ao “outro mundo”, sem mediação institucional; profetas, que anunciam uma ruptura, um novo começo; devotos, fiéis ou clientes; e há aqueles que sempre causaram mais incômodo: os feiticeiros ou xamãs, conforme a gramática local. O feiticeiro não promete salvação futura nem conversão moral. Ele oferece serviços. Três, fundamentalmente: oráculos, encantamentos/maldições (feitiços, inclusive a quebra de feitiços — fetiches) e terapia/cura. Sua lógica não é a da absolvição, mas da eficácia. Não visa fundar uma Igreja, mas responder a uma demanda concreta.


Toda organização religiosa ou espiritual, independentemente do verniz teológico, obedece a uma estrutura recorrente:

  1. Uma experiência extraordinária inicial (o carisma);

  2. A aquisição de um saber igualmente extraordinário;

  3. A formação de uma comunidade interessada ou encantada por esse saber;

  4. A fixação desse saber em forma oral ou em livro “sagrado”;

  5. Um sistema de atos e técnicas corporais que permita reatualizar a experiência originária.


A partir daí, essas formações se estabilizam como igrejas, seitas ou cultos, cada qual com graus diferentes de controle, ortodoxia e tolerância ao desvio. O yoga contemporâneo se insere exatamente aí. Sua origem se perde no tempo, mas o que se tornou hegemônico foi aquilo que passou pelo filtro védico e, depois, bramânico. O que hoje se chama “hinduísmo” não é um bloco homogêneo, mas o resultado de uma vitória histórica dentro do campo religioso indiano. Com suas igrejas, seitas, cultos e agentes especializados.


Os yogues, nesse cenário, nunca ocuparam uma posição única. Um mesmo yogue pode operar (como um pai-de-santo, um pastor que unge vassouras ou um padre que traça o sinal da cruz) simultaneamente como sacerdote, místico, profeta e feiticeiro. O erro começa quando se tenta purificar essas funções. Por isso, aqui o foco recai deliberadamente sobre os yogues malditos, marginais, “aborígines” no vocabulário de Eliade: aqueles que não tinham como horizonte a mokṣa, essa experiência religiosa elevada, una e verdadeira do hinduísmo ortodoxo. Seu interesse eram os siddhis (poderes extraordinários) obtidos por meio de feitiços, técnicas e manipulações descritas, não por acaso, no terceiro capítulo dos Yoga Sūtras. Ali, não como mito, mas como verdade desviada, perigosa, inferior à Verdade Última.


É nesse ponto que Patanjali aparece menos como um “filósofo universal” e mais como um agente sacerdotal. Um operador de ordem. Alguém que sistematiza, hierarquiza e, sobretudo, combate aqueles que oferecem serviços em vez de conversão. O conflito não é técnico, mas político: quem serve diretamente à comunidade ameaça quem precisa dela convertida. A pergunta que se impõe, então, ao yogue em formação no Brasil é incômoda e inevitável: qual posição você ocupa (ou deseja ocupar) nesse subcampo chamado Yoga no Brasil? Sacerdotal? Mística? Profética? Feiticista? Você se organiza como igreja, seita ou culto? Opera pela conversão ou pela oferta de serviços: oráculo, encantamento, cura?


Essas escolhas não são neutras. Em contextos urbanos, altamente institucionalizados, as igrejas tendem a sufocar a feitiçaria. Em contextos campesinos, periféricos ou marginalizados, a lógica dos serviços mágicos floresce. Não por atraso, mas por necessidade. Curiosamente, quando as igrejas se afastam da Ciência (que insiste em desencantar seus bens simbólicos) os feiticeiros se aproximam dela, apropriando-se de sua gramática para dar credibilidade às suas práticas. Não se trata de mentira, mas de tradução estratégica. Cada agente fala a língua que o sustenta.


Freud apostou que o avanço científico levaria ao declínio progressivo da religião. Apostou mal. A mesma Ciência que desencantou o mundo produziu também guerras industriais, extermínios em massa e regimes de morte. A promessa de redenção racional mostrou seu limite. Outros perceberam isso mais cedo. Há algo que a Ciência, a Filosofia e mesmo as práticas críticas jamais conseguiram oferecer: sentido, culpa, dívida e promessa de alívio. É aí que a religião triunfa. E por isso seguimos, no século XXI, defendendo livros sagrados, sistemas de atos corporais e técnicas ancestrais que prometem diminuir voluntariamente as modificações da mente, extinguir o sofrimento, neutralizar o mal: enquanto disputamos seguidores, métricas, engajamento e vendas nas redes sociais.


A guerra entre yogues “de tradição” e yogues “sem-linhagem” não é nova. É a repetição da velha luta contra os feiticeiros. Aqueles que não prometem redenção futura, mas operam no aqui-agora. Aqueles que não falam em pecado, klesa ou libertação transcendental, mas em efeitos, potências e arranjos possíveis da vida.


Walter Benjamin oferece, talvez, o último deslocamento necessário. Em O Capitalismo como Religião, ele sugere que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas a religião mais eficaz já criada: sem dogma, sem pausa, sem absolvição. Um culto permanente, que transforma tudo em dívida, desempenho e culpa infinita. Talvez seja aí que yoga, ciência, espiritualidade e mercado finalmente se encontrem. Não como oposição, mas como engrenagens do mesmo templo. Um templo sem deuses, mas cheio de promessas. Um templo-shopping, onde se reza consumindo, se purifica performando e se busca alívio sem jamais tocar na causa da dor.


Nesse cenário, os feiticeiros continuam sendo o problema. Não porque enganem, mas porque lembram que nem toda vida quer ser salva, algumas só querem continuar possíveis.



Referências Bibliográficas:

BIANCHINI, Flávia. A origem da civilização indiana no vale do Indo Sarasvati: teorias sobre a invasão ariana e suas críticas recentes. pp. 57-108, in: GNERRE, Maria Lúcia Abaurre; POSSEBON, Fabrício (orgs.). Cultura oriental: língua, filosofia e crença. VoI. 1. João Pessoa: Editora da UFPB, 2012.


ELIADE, M. 2011. Yoga: Imortalidade e Liberdade. São Paulo: Ed. Palas Athena. p.244-254.


BOURDIEU, P. 2011. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Ed. Perspectiva. p.27-78; p.257-268


BENJAMIN, W. O capitalismo como religião. In: O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.


FREUD, S. O futuro de uma ilusão. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


LACAN, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


MAUSS, Marcel. Uma teoria geral da magia. In: Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.


WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora UnB, 1999.


WHITE, D.G. Sinister yogis. Chicago: University of Chicago Press, 2009.


MALLINSON, J; SINGLETON, M. Roots of yoga. London: Penguin Classics, 2017.


 
 
 

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