Yoga no Brasil entre os anos de 1950 e os dias atuais: Apropriações (jeitos) brasileiros aos yogas




Resumo: A proposta neste artigo é apresentar um panorama do yoga em desenvolvimento no Brasil. Faremos isso a partir de 5 personagens do campo social yoguico brasileiro com o intuito de traçar as principais influências que erigiram seus distintos yogas, legados e repercussões ao cenário espiritual do país. O yoga como um novo fenômeno religioso brasileiro vem engendrando desde os anos de 1960, singulares sincretismos e apropriações da cultura e religiosidade brasileira e outras como o espiritismo kardecista, capitalismo neoliberal, perspectivismo do xamanismo ameríndio, espiritualidade afro-brasileira, funk carioca, terapias nova era e do budismo, ao mesmo tempo que, contraditoriamente, reclamam certo tradicionalismo e ancestralidade. Concluímos a cultura e espiritualidade brasileira permite e acolhe apropriações, contanto que sejam criadas soluções aos seus problemas reais.



Introdução

É uma cena clássica na literatura brasileira ver a personagem João Grilo entrando em querela com o Diabo e Jesus, para saber onde ele deve ir após a sua morte: Inferno ou Paraíso. João Grilo é uma personagem-conceito de Ariano Suassuna, no seu livro Auto-da-Compadecida; ele nos apresenta um brasileiro semianalfabeto que sempre, do seu jeito, consegue sair bem das mais improváveis situações.

Em uma das passagens da referida obra, João Grilo, quando acusado dos diversos pecados que realmente cometeu, meio sem jeito, apela para Nossa Senhora, mãe de Jesus, na busca de, mais uma vez, encontrar um jeito de se safar. O padre o desafia: “Acho que nosso caso é sem jeito[1]; e João Grilo responde:

É difícil quer dizer sem jeito? Sem jeito! Sem jeito por quê? Vocês são uns pamonhas, qualquer coisinha estão arriando. Não vê que tiveram tudo na terra? Se tivessem tido que aguentar o rojão de João Grilo, passando fome e comendo macambira na seca, garanto que tinham mais coragem. Quer ver eu dar um jeito nisso, Padre João?.


Nesse momento, quando do espanto de todos sobre como sair daquela situação sem jeito - sem perspectivas de um caminho a tomar -, João Grilo inventa um (o seu) novo jeito: evoca Nossa Senhora – a que se compadece -, Mãe de Deus de Nazaré, o juiz da situação delicada em que se encontra. Em outras palavras, a convoca dos céus (do sobrenatural, de uma geografia outra, ou do improvável) para prestar testemunho a favor dele.

E assim se faz, e a Compadecida vai argumentando a favor de todos ali sendo julgados em direção a dar um jeito a favor dos humanos ali prestes a serem condenados. E todos vão sendo perdoados: o Padre, o Marido, a Mulher... Contudo, o veredito para João Grilo foi o Purgatório, e eis que este, malandro uma vez mais e com toda sua educação e respeito a posição superior do transcendente ali, de frente com ele, não aceita a sua punição – João Grilo, com seu jeito malandro, é cordial e intolerante ao mesmo tempo. Nossa Senhora, então, intercede mais uma vez e sugere que Jesus permita que João Grilo possa quitar a sua dívida na terra, ou seja, retornando à vida, mas com uma condição: “(...) fazer uma pergunta a que eu não possa responder. Pode ser?”, diz Jesus.

Este gesto de Jesus, de aceitar negando, revela o cordial e o intolerante como característica do brasileiro malandro que o próprio João Grilo representa, e que todas as nossas personagens yoguicas a seguir, de uma forma ou de outra, também se mostram. E esse Jesus, respresentado na obra com traços/jeitos do malandro brasileiro e negro, ainda complementa se referindo a João Grilo com sarcasmo: “É possível, você que é tão esperto?”, arremata para João Grilo.

João Grilo então, não se fazendo de rogado pela ironia divina, lança outra depois de Jesus ter citado uma passagem bíblica: “Isso é que é conhecer a Bíblia! O Senhor é protestante?”; e Jesus responde: “Sou não, João, sou católico”. E aquele responde: “Pois na minha terra, quando a gente vê uma pessoa boa e que entende de Bíblia, vai ver é protestante” – rebatendo na mesma moeda a ironia anterior, pois é bastante comum criticar aos católicos no Brasil assim, pois serem conhecidos por se declararem como católicos não-praticantes - esta, outra malandragem, mas dos católicos brasileiros. E finalmente, João Grilo faz a pergunta sem resposta a Jesus: “Em que dia vai acontecer sua segunda ida ao mundo?”.

Com a recusa de Jesus em responder, pois “isso faz parte de minha vida íntima com meu Pai”; João Grilo, tranquilamente vai virando as costas e saindo, e resmungando:

Então deixe eu ir embora. Acredito que o senhor saiba, isso faz parte da sua vida íntima com o senhor seu Pai, mas o que o senhor disse foi que eu podia voltar se lhe fizesse uma pergunta a que o Senhor não pudesse responder.


E Deus lhe concede o retorno para a sua vida normal sem nenhuma punição, ao final das contas. E João Grilo, a personagem do malandro brasileiro (o cordial e intolerante ao mesmo tempo) que, à sua maneira, dá sempre seu jeito (seus pulos, expressão comumente utilizada no português do Brasil) no que não tinha solução e, com os recursos que dispunha para se livrar do Purgatório ou do Inferno, mesmo réu confesso de todas as infrações, sai ileso (SUASSUNA, 2011).

As personagens do yoga brasileiro que apresentaremos a seguir, se assemelham a João Grilo: conseguem sempre, das formas, caminhos, maneiras ou jeitos mais ambivalentes e contraditórios que possa parecer, criarem linhas-de-fuga de situações bem singulares. E não são sínteses, são jeitos mesmo. O jeitinho brasileiro.

A história do yoga no Brasil é composta de personagens como João Grilo, que dos seus jeitos, vão costurando um novo subcampo espiritual no país.

Tudo se inicia com o francês Léo Costet de Mascheville ou Sevananda é filho de um conhecido ocultista da ordem esotérica Martinismo que, entre os anos de 1925-1960, percebe-se missionário ao Novo Mundo (América Latina) para anunciar a vinda de uma nova raça ao mundo e a síntese dos ensinamentos de Jesus Cristo e Gandhi (SIMÕES, 2019).

Léo Costet funda, anos mais tarde, para cumprir sua missão espiritual, a escola de yoga Sarva Yoga, que ele mesmo concebe nos últimos anos da década de 1940, com sede na cidade de Resende/RJ, entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Ali funda a Igreja Expectante, com um mosteiro essênio e um ashram indiano ou yoguico.

No aspecto doutrinário já está claro que Todos os Evangelhos são aceitos

pela Igreja Expectante. Porém, na América Latina, por exemplo, seus rituais

são sempre de base Cristã (essênia), por um lado, com complemento de base

oriental, já que a vinda de Maitreya, próxima manifestação do Espírito

Crístico para a era vindoura, já está conhecida e divulgada no Oriente desde

muitos decênios, e no próprio Ocidente já é muito comentada.


As várias raças têm tido sucessivas Revelações, das quais cada uma tem gerado múltiplas religiões, como é o caso do Budismo, dividido em tantas seitas ou escolas, e com o Cristianismo, dividido em Catolicismo, Protestantismo, Ortodoxos e inúmeros Heterodoxos, perfeitamente cristãos também!


A posição ampla Expectante faz, portanto, desta Igreja, a Igreja de todas as religiões ou, melhor dito, de todos os cultos que compõem a Religião Universal (Ibid.).


Durante esse período de sua idealização, construção e início das atividades da Igreja Expectante com essa estrutura sacerdotal e de atendimento ao público, Leo Costet realiza diversas palestras entre ordens esotéricas do Brasil sobre yoga. Em uma dessas apresentações, um general do exército brasileiro, o teosofista Gal. Caio Miranda (1909-1969), fica impressionado com as ideias yoguicas apresentadas por Leo Costet. Alguns mais tarde e de forma totalmente autodidata, Caio Miranda escreverá o primeiro livro brasileiro sobre o yoga, fazendo história como o precursor da espiritualidade no país e influenciando toda uma geração posterior (Cf. SIMÕES, 2020).

Assim, o Yoga entra no Brasil não por mestres indianos, mas um esotérico e ocultista europeu. Sua visão de yoga, de alguma forma norteará, no início, nossas duas primeiras personagens do recente campo social yoguico brasileiro a se estabelecerem e nas ideias sobre yoga disseminadas no país entre aos de 1960-2000:

1. a tendência terapêutica e curativa do yoga para todos;

2. sua aproximação com o cristianismo;

3. suas influências esotéricas e ocultistas;

4. o estabelecimento do primeiro curso de formação para outros professores de yoga, de certa forma, replicantes de seus ideias missionários.

Estes itens, associados ao fato do yoga no Brasil ter sido transplantado não por mestres yogues indianos, mas por um controverso yogue europeu, reforça ainda mais a pecha malandra e do jeitinho brasileiro, mesmo não-tradicional, consegue inventar yogas tradicionalistas (Ibid.), como veremos a seguir.

[1] Grifos meus.

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(continua...)

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