Yogar Erótico e Soberano a partir da leitura de um yogue pós-linhagem d'O Erotismo de G.Bataille

Introdução
Em O erotismo, Georges Bataille parte da ideia de que somos seres descontínuos, indivíduos separados uns dos outros, submetidos à necessidade de conservar a vida e organizá-la por meio do trabalho, da utilidade e das finalidades. O erotismo surge como uma experiência que perturba momentaneamente essa condição, aproximando o indivíduo de uma sensação de continuidade com aquilo que está fora dele. Por isso, Bataille relaciona erotismo, morte, sacrifício e experiência religiosa: não porque sejam equivalentes, mas porque todos podem colocar em suspensão a organização ordinária da existência.
Essa experiência só é possível pois vivemos em um mundo de interdições. A transgressão não elimina o limite, mas o atravessa, produzindo uma experiência de excesso que escapa à lógica da conservação e da utilidade. É nesse espaço que Bataille situa a soberania: não como domínio ou controle de si, mas experiência que, por alguns instantes, deixa de estar subordinada a uma finalidade. A questão que seu pensamento coloca é, portanto, o que acontece quando a vida já não precisa transformar toda experiência em meio para alcançar outra coisa.
Antes do yoga soberano: o erotismo como experiência do limite
Antes de pensar a possibilidade de um yoga soberano, é preciso permanecer algum tempo no interior da pergunta que organiza O erotismo, de Georges Bataille. O livro não começa propriamente perguntando o que é o erotismo, como se fosse possível encontrar uma definição capaz de encerrá-lo. Seu movimento é outro. Bataille procura compreender por que certas experiências humanas, entre elas o erotismo, o sacrifício, a morte e a experiência religiosa, parecem colocar o sujeito diante de alguma coisa que não pode ser inteiramente reduzida às necessidades da conservação da vida.
Essa questão é decisiva para Bataille, nos parece lícito afirmar, é a vida humana não se organizando apenas pela busca da sobrevivência. Vivemos, certamente, como organismos que precisam se conservar, se alimentar, se proteger e se reproduzir; mas a existência humana não se esgota nessa dimensão. Construímos ferramentas, trabalhamos, acumulamos, planejamos, produzimos e organizamos o tempo em função de necessidades futuras. Ao mesmo tempo, criamos festas, jogos, obras de arte, rituais, sacrifícios, experiências religiosas e formas de erotismo que parecem introduzir na vida algo que não pode ser explicado inteiramente pela lógica da utilidade. É nesse intervalo que Bataille situa sua investigação.
Um dos conceitos fundamentais para compreender O erotismo é a distinção entre continuidade e descontinuidade. Cada um de nós vive como um ser descontínuo, como já afirmamos. Temos um corpo próprio, uma história própria, uma consciência que experimenta a si mesma como separada das outras: nascemos e morreremos sozinhos. Entre um indivíduo e outro existe uma distância que nenhuma comunicação consegue abolir completamente. Podemos amar, falar, tocar, desejar e compartilhar experiências, mas continuamos sendo indivíduos distintos. Essa separação não é apenas uma condição psicológica, ela está ligada à própria forma como organizamos a existência. O indivíduo precisa conservar sua vida, seu corpo, seus recursos e sua identidade. O mundo cotidiano, portanto, depende dessa descontinuidade. É porque somos indivíduos separados que podemos trabalhar, produzir, possuir, acumular, planejar e reconhecer aquilo que pertence a nós e aquilo que pertence ao outro.
O trabalho, nesse sentido, desempenha um papel central na constituição da vida humana. Ele não é simplesmente uma atividade econômica no sentido moderno e restrito, entrementes introduz uma relação organizada com o tempo. Em vez de consumir imediatamente aquilo que está disponível, aprendemos a adiar, economizar e utilizar os meios presentes em função de uma finalidade futura. Uma ferramenta é fabricada para produzir outra coisa; uma atividade é realizada para alcançar determinado resultado; uma parte da vida é sacrificada em função de outra. Essa estrutura é fundamental para a civilização. Mas, para Bataille, ela não esgota a experiência humana. Existe na vida alguma coisa que escapa à lógica da produção e da conservação. Há momentos em que não acumulamos, mas gastamos; não produzimos, mas oferecemos; não economizamos forças, mas as despendemos. A festa, o sacrifício, a dança, o jogo, a embriaguez, a arte e o erotismo pertencem, cada um à sua maneira, a esse outro regime da existência. Neles, o indivíduo pode experimentar uma suspensão momentânea daquilo que normalmente organiza sua relação consigo mesmo e com o mundo.
É importante não transformar essa distinção em uma oposição simplista entre trabalho ruim e prazer bom. Bataille não está propondo que devêssemos abandonar o mundo do trabalho para viver permanentemente em estados de êxtase. A vida humana depende da ordem, da produção e da conservação. O problema aparece quando imaginamos que essa ordem é capaz de explicar tudo aquilo que fazemos e desejamos. O erotismo interessa a Bataille justamente porque ele constitui uma dessas experiências nas quais a lógica da conservação é perturbada sem que a vida simplesmente desapareça. O indivíduo continua existindo, mas experimenta uma espécie de abalo na forma habitual de sua separação. O desejo sexual é, evidentemente, parte dessa experiência, mas o erotismo não se reduz à atividade sexual; o que está em jogo (e não se perde aqui) é uma experiência (um sentimento de si) na qual o sujeito se aproxima de uma perda momentânea de sua condição de indivíduo fechado sobre si mesmo, i.e., um sujeito ou "assujeitado" a todo tipo de regras, moral e interditos para a vida social acontecer. Por isso, Bataille aproxima erotismo e morte.
A aproximação pode parecer estranha quando pensamos a partir das concepções contemporâneas de sexualidade, nas quais erotismo costuma aparecer associado à intimidade, ao prazer, à realização pessoal ou à qualidade das relações. Bataille está interessado em outra dimensão. A morte representa o limite absoluto da descontinuidade individual, ou seja, o indivíduo é aquele que existe separadamente e que, justamente por isso, está condenado a desaparecer. O erotismo não elimina essa condição, mas coloca o indivíduo em contato com aquilo que a ameaça. É nesse sentido que o erotismo possui uma dimensão de violência. Não necessariamente uma violência física, mas uma perturbação da forma habitual pela qual o sujeito se conserva como indivíduo. O desejo pode colocar em questão a distância que separa um corpo de outro. O encontro erótico não é apenas a aproximação entre duas individualidades que permanecem intactas; ele contém a possibilidade de uma experiência em que essas fronteiras se tornam menos nítidas.
Isso explica também por que Bataille não pode pensar o erotismo sem pensar a interdição. A interdição é aquilo que organiza a existência humana ao estabelecer limites para os desejos, os corpos e os comportamentos. Algumas coisas não devem ser feitas, alguns corpos não podem ser tocados de qualquer maneira, determinadas formas de violência são proibidas, determinados objetos são retirados do uso ordinário e determinados gestos são reservados ao ritual. A civilização não é simplesmente a eliminação da violência, mas a produção de limites que tornam possível uma vida coletiva relativamente estável. Entretanto, aquilo que é interditado não desaparece. A interdição também produz uma relação particular com aquilo que proíbe, já que o objeto interditado adquire uma intensidade que não possuía enquanto simples objeto cotidiano. É justamente porque alguma coisa está proibida que sua transgressão pode adquirir uma força particular.
Aqui aparece uma das ideias mais importantes de Bataille: transgressão e interdição não são simplesmente opostos, todavia, dependem uma da outra. A transgressão não significa a destruição definitiva da lei. Se todas as proibições fossem abolidas, deixaria de existir propriamente a experiência da transgressão. O que caracteriza a transgressão é uma passagem através de um limite que continua sendo reconhecido como limite. Por isso, ela não equivale à liberdade entendida como ausência completa de restrições. A experiência transgressiva acontece dentro de uma tensão entre aquilo que pode e aquilo que não pode ser feito.
Essa formulação será especialmente importante para pensar um yoga soberano. Ela impede que a soberania seja confundida com a ideia moderna de fazer tudo aquilo que se deseja ou de liberar todos os impulsos reprimidos. Um yoga que simplesmente abolisse todos os limites não seria, por isso, um yoga mais livre. Poderia apenas substituir uma forma de disciplina por uma fantasia de desrepressão - como muitos terapeutas nova era distraídos podem imaginar.
A experiência do erotismo também coloca em questão a própria ideia de sujeito. No cotidiano, somos obrigados a funcionar como indivíduos relativamente estáveis. Temos um nome, uma história, uma profissão, compromissos, responsabilidades e uma imagem de nós mesmos - precisamos saber quem somos para circular no mundo. O erotismo, assim como determinadas experiências religiosas, pode produzir uma interrupção provisória dessa estabilidade. Por alguns instantes, o sujeito pode deixar de coincidir inteiramente com a imagem que possui de si - como em processos meditativos.
Bataille chama atenção para esse aspecto sem transformá-lo em uma promessa de transcendência. Esse ponto é importante. O que acontece no erotismo não é necessariamente a descoberta de um “eu verdadeiro” escondido atrás do eu cotidiano. Tampouco se trata simplesmente de dissolver o ego/eu/self para alcançar uma realidade superior ou "eu maior". A experiência pode ser muito mais inquietante do que isso, já que coloca o indivíduo diante de uma experiência que não se deixa facilmente traduzir em conhecimento sobre si mesmo - no erótico não há linguagem que dê conta do que acontece ali. É nesse contexto que a noção de experiência interior ganha importância no pensamento de Bataille. A experiência não é aqui um método pelo qual o sujeito acumula conhecimento sobre si. Não se trata de entrar em contato com uma verdade interior que depois poderá ser organizada conceitualmente. A experiência pode justamente colocar em crise aquele que pretendia conhecê-la.
Há, portanto, uma diferença importante entre experimentar alguma coisa e transformá-la imediatamente em conhecimento. Essa diferença será decisiva para a questão do yoga. O yoga moderno construiu uma enorme quantidade de linguagens para interpretar a experiência: consciência, energia, sistema nervoso, trauma, chakras, estados meditativos, presença, atenção, cura, despertar. Essas linguagens podem ser úteis e produtivas, mas também podem fazer com que uma experiência seja rapidamente capturada por um sistema de significações que já sabe, de antemão, o que aquilo deveria significar. Bataille interessa justamente porque ele insiste no ponto em que esse saber encontra um limite.
A primeira parte de O erotismo prepara esse terreno antes que o livro se desloque, na segunda parte, para estudos mais específicos sobre Kinsey, Sade, o incesto, a mística, a santidade e a literatura. Na primeira parte, Bataille constrói o problema: somos seres descontínuos, organizados pelo trabalho e pela conservação, submetidos a interdições que tornam possível a vida coletiva e, ao mesmo tempo, atraídos por experiências que colocam essa organização em suspensão. O erotismo aparece nesse campo de tensão, como uma experiência na qual o indivíduo pode tocar, sem simplesmente abolir, aquilo que ameaça sua forma habitual de existir.
É também por isso que o erotismo não pode ser reduzido ao prazer (o prazer pode fazer parte dele, mas não o define). O que interessa a Bataille é a perturbação que acompanha determinadas experiências de intensidade, i.e., o erotismo coloca o sujeito diante de uma perda possível de sua estabilidade. E essa perda possui uma dimensão ambígua: ela pode ser desejada justamente porque interrompe a prisão da individualidade, mas também pode ser temida pois ameaça aquilo que permite ao sujeito se reconhecer como tal.
A mesma ambiguidade atravessa a relação entre erotismo e sagrado. O sagrado não é simplesmente aquilo que foi elevado a uma esfera superior ou aquilo que foi moralmente considerado bom. Em Bataille, o sagrado está ligado àquilo que se separa do uso ordinário e que, por isso, adquire uma intensidade particular. O sacrifício é exemplar nesse sentido. Ele interrompe a ordem utilitária na qual as coisas e os seres são normalmente tratados como meios para determinados fins. O que era objeto de uso pode tornar-se objeto de uma operação na qual justamente o uso é suspenso. A experiência religiosa, assim como o erotismo, aparece então como uma espécie de interrupção da ordem cotidiana. Mas essa interrupção não conduz necessariamente a um conhecimento superior. Ela pode conduzir ao contato com aquilo que excede a capacidade do sujeito de organizar a experiência segundo categorias estáveis.
É nesse ponto que a soberania começa a aparecer como uma consequência possível de toda essa discussão. Se o mundo do trabalho é o mundo no qual cada ação tende a ser subordinada a uma finalidade, a soberania designará, em Bataille, uma experiência que não se deixa inteiramente subordinar a essa lógica. O soberano não é simplesmente aquele que domina mais. Em certo sentido, ocorre o contrário: a soberania começa quando a necessidade de dominar deixa de ser o princípio absoluto da experiência. Essa é uma concepção difícil de soberania porque ela não coincide com autonomia, independência ou autodomínio. O sujeito soberano (segue o fio que vai dar certo) não é aquele que conseguiu finalmente controlar a si mesmo, tampouco é aquele que se libertou de todas as normas para fazer aquilo que deseja, mas que consegue se relacionar à possibilidade de uma experiência na qual a existência não esteja inteiramente subordinada à produção de um resultado. É precisamente essa noção que permite aproximar Bataille do problema do yoga atual.
O yoga possui uma relação histórica e conceitual muito complexa com disciplina, transformação e libertação. Em muitas de suas formas, a prática é apresentada como um caminho no qual o sujeito trabalha sobre si para modificar sua condição. Há exercícios, etapas, obstáculos, estados de consciência, métodos de concentração e diferentes concepções de libertação. A prática pode ser entendida como uma longa operação de transformação de si. Nada disso precisa ser simplesmente recusado. A questão é saber o que acontece quando essa lógica ocupa todo o espaço possível da experiência yoguica. O que acontece quando cada asana precisa produzir um efeito, cada pranayama precisa regular alguma coisa, cada meditação precisa desenvolver uma capacidade, cada experiência precisa ser interpretada como sinal de avanço e a própria libertação precisa aparecer como um resultado a ser alcançado (moksha, nirvana ou kaivalya)?
É nesse ponto que Bataille oferece uma torção particularmente fecunda. Seu pensamento permite imaginar que uma prática possa conter, dentro dela mesma, momentos que não se deixam reduzir à produção de um sujeito melhor, mais saudável, mais consciente ou mais espiritual. Permite pensar que uma experiência possa ter valor não apenas pelo que ela produz posteriormente, mas pelo fato de interromper, ainda que por instantes, a exigência de produzir alguma coisa. Um yogar soberano que será pensado a seguir nasce dessa tensão. Ele não pretende ser uma nova modalidade de yoga, uma técnica ou uma escola. Não se trata de acrescentar ao repertório yoguico mais um método de transformação. A questão é mais incômoda: perguntar o que poderia acontecer se um yogar fosse levado até o ponto em que sua própria lógica de transformação começasse a ser interrogada.
Para isso, será necessário abandonar tanto a imagem do yoga como simples técnica de aperfeiçoamento quanto a fantasia de um yoga sem limites. Entre essas duas possibilidades existe um espaço mais difícil, no qual disciplina e transgressão, limite e experiência, conhecimento e não saber podem permanecer em tensão sem que um dos polos precise eliminar o outro. É nesse espaço que a ideia de um yoga soberano pode começar a ser pensada.
Um yogar soberano
Pensar a possibilidade de um yogar soberano a partir de Georges Bataille exige, antes de tudo, deslocar o próprio sentido que costumamos atribuir à palavra soberania. Em seu uso mais corrente, soberano é aquele que possui domínio sobre alguma coisa: sobre si mesmo, sobre o próprio corpo, sobre os impulsos, sobre as circunstâncias. A soberania aparece, então, como uma forma elevada de autonomia e autocontrole. É precisamente essa compreensão que precisa ser colocada em suspensão se quisermos aproximá-la do pensamento de Bataille.
Na segunda parte de O erotismo, sobretudo nos estudos dedicados a Kinsey, Sade, ao incesto, à mística e à santidade, Bataille retorna diversas vezes à tensão entre aquilo que pertence à ordem do trabalho, da utilidade e da conservação e aquilo que, no erotismo, parece escapar a essa organização. O trabalho introduz uma relação particular com o tempo e com o corpo: fazemos alguma coisa para obter outra coisa, economizamos forças para empregá-las posteriormente, organizamos nossa atividade em função de resultados. O corpo humano, nesse regime, se transforma num corpo econômico. Ele precisa ser conservado, treinado, aperfeiçoado, administrado. Mesmo quando o objeto do trabalho é o próprio indivíduo, a lógica permanece semelhante.
É difícil não reconhecer nessa descrição uma parte importante do yogar moderno. A prática pode ser apresentada como um trabalho sobre o corpo, sobre a respiração, sobre a atenção, sobre o sistema nervoso, sobre os padrões emocionais e sobre a própria subjetividade. Aprende-se a regular, fortalecer, flexibilizar, concentrar, relaxar, observar e o praticante/yogue estabelece metas, acompanha progressos, identifica obstáculos e desenvolve métodos para superá-los. Mesmo quando a linguagem utilizada é espiritual, permanece muitas vezes uma estrutura bastante próxima daquela que organiza o trabalho: há um estado presente considerado insuficiente e um estado futuro que deverá ser alcançado mediante determinadas práticas. Isso não significa que exista alguma coisa de errado no fato de o yoga produzir efeitos, nem que seja necessário abandonar toda dimensão terapêutica, corporal ou pedagógica da prática. O problema aparece quando essa lógica de transformação passa a constituir o horizonte inteiro da experiência. O yoga passa a funcionar como uma tecnologia de produção de um determinado tipo de sujeito e o corpo deve se tornar mais saudável, a mente mais estável, a atenção mais concentrada, a vida mais equilibrada. Até mesmo o sofrimento pode ser incorporado a esse circuito como matéria-prima de uma transformação futura. É nesse ponto que Bataille permite introduzir uma pergunta incômoda: o que aconteceria se o yogar não precisasse servir para alguma coisa?
A pergunta não propõe uma prática inútil no sentido banal do termo, como se fosse necessário produzir uma espécie de yoga deliberadamente ineficaz. O que está em jogo é outra coisa: a possibilidade de uma experiência que não encontre sua legitimidade exclusivamente naquilo que ela produz. Essa distinção é importante porque, no pensamento de Bataille, a soberania não corresponde à capacidade de produzir mais efeitos sobre si mesmo, mas daqueles momentos em que a existência deixa de estar subordinada a uma finalidade exterior à própria experiência.
É possível perceber aí uma tensão bastante fértil com a história recente do yoga. À medida que determinadas formas de yogar foram incorporadas às linguagens da saúde, da psicologia e do desenvolvimento pessoal, sua prática pôde adquirir uma enorme capacidade de circulação. O corpo do praticante se transformou, simultaneamente, objeto de cuidado, projeto de aperfeiçoamento e lugar de investimento subjetivo. A prática passa a assumir a forma de uma atividade altamente sofisticada de autogestão. O sujeito trabalha sobre si para se tornar aquilo que imagina que deveria ser.
Um yogar pensado a partir da soberania de Bataille não precisaria negar esse trabalho, mas introduziria uma interrupção em sua pretensão de totalidade. Haveria momentos em que a prática não seria convocada a melhorar o praticante, o corpo poderia ser experimentado sem que imediatamente fosse necessário corrigi-lo, a respiração poderia ser acompanhada sem precisar virar uma ferramenta de regulação, a atenção poderia permanecer junto àquilo que acontece sem que isso fosse convertido em concentração superior, o silêncio poderia existir sem que fosse imediatamente interpretado como sinal de evolução espiritual. Essa perspectiva também permite reconsiderar a própria ideia de libertação, tão central nas tradições do yoga. É possível transformar a libertação em mais uma finalidade, quase sempre a finalidade máxima, e com isso recolocá-la inteiramente dentro da lógica que pretendíamos superar. O praticante/yogue começa a trabalhar para se libertar, medita para alcançar a libertação, estuda para compreender a libertação, disciplina o corpo para se aproximar da libertação. A libertação, asssim, se converte em produto final de uma longa cadeia de operações, como uma indústria ou empresa. A situação é curiosa pois aquilo que deveria interromper a lógica da finalidade passa a funcionar como sua finalidade suprema.
É justamente aqui que a aproximação com Bataille pode produzir uma torção interessante na noção yoguica de libertação. Não se trata de substituir um objetivo por outro, nem de inventar uma versão mais radical do yoga. Trata-se de perguntar se a experiência de libertação não exigiria, em algum momento, uma suspensão da própria obrigação de transformar a experiência em caminho para alguma coisa. O problema aparece de maneira particularmente clara quando pensamos na figura do mestre. Se a prática é concebida como um percurso em direção a determinado estado, alguém deverá ocupar a posição daquele que sabe reconhecer o caminho. O professor conhece os obstáculos, identifica os desvios, interpreta as experiências do aluno e oferece os meios adequados para que ele avance. O sistema pode ser organizado de muitas maneiras diferentes, mas conserva uma estrutura relativamente estável: alguém sabe aquilo que outro ainda não sabe.
A soberania batailliana introduz uma dificuldade nesse dispositivo porque a experiência soberana não parece poder ser inteiramente convertida em conhecimento transmissível. Isso não significa que nada possa ser ensinado. Há técnicas, textos, histórias, exercícios, conceitos, formas de atenção e modos de habitar o corpo que podem ser transmitidos, todavia, o que não pode ser transmitido da mesma maneira é a experiência enquanto experiência, i.e., um professor pode criar condições para que alguma coisa aconteça, mas não pode garantir antecipadamente aquilo que o outro encontrará.
Nesse sentido, a transmissão do yoga poderia ser pensada menos como entrega de um conteúdo e mais como sustentação de uma experiência cujo resultado não está inteiramente determinado. Essa (dis)posição modifica profundamente a função do professor ou mestre. Ele não desaparece, tampouco precisa fingir ignorância; o que se desloca é a pretensão de ocupar o lugar daquele que sabe antecipadamente o que a experiência do outro deveria produzir. Tal deslocamento também permite pensar de outra maneira a relação entre yoga e linhagem. A linhagem pode funcionar como uma garantia de autenticidade: aquilo que fazemos é legítimo porque foi recebido de alguém que recebeu de alguém que, em algum momento, recebeu de uma origem autorizada. A transmissão se torna, assim, uma cadeia de garantias. Mas existe uma diferença entre transmitir uma tradição e garantir o sentido de uma experiência. O segundo movimento tende a transformar o não saber em saber instituído, pois aquilo que originalmente poderia ter sido uma experiência aberta passa a possuir uma interpretação autorizada.
Um yogar soberano não seria, portanto, simplesmente um yoga sem-linhagem. A ausência de linhagem, por si só, não produz soberania alguma, já que é perfeitamente possível substituir uma linhagem tradicional por um novo sistema de autoridade, fundado na ciência, na psicologia, na neurobiologia, no trauma, na ancestralidade ou na experiência pessoal do professor/guru. O problema não está no vocabulário utilizado, mas na estrutura que transforma determinado discurso em garantia do que uma experiência deve significar. É nesse aspecto que a discussão sobre Sade, presente na segunda parte de O erotismo, se transforma especialmente importante. Bataille não apresenta a soberania como uma licença para fazer qualquer coisa - a transgressão não é simplesmente a ausência de limites. Ela só existe porque há uma interdição que pode ser atravessada, ou seja, sem limite, a transgressão perde justamente aquilo que a constitui.
Essa questão é particularmente relevante para o campo contemporâneo das práticas corporais e espirituais. Existe uma tendência, em determinados ambientes terapêuticos, de tratar toda contenção como repressão e toda irrupção como libertação. “Soltar”, “trazer à tona”, “romper bloqueios”, “liberar emoções” podem adquirir o estatuto de valores em si mesmos. A experiência intensa passa a ser tomada como prova de profundidade, enquanto a ausência de intensidade é interpretada como resistência ou falta de entrega. Bataille permite desconfiar dessa equivalência. A experiência transgressora não é necessariamente libertária em si, muito menos uma técnica de cura. Ela depende de uma estrutura de limites e pode colocar o sujeito diante de alguma coisa que não se deixa integrar facilmente ao seu repertório habitual de significações. Por isso, um yogar soberano não deveria ser confundido com um yoga que busca produzir estados extremos, pois a intensidade não é soberana simplesmente porque é intensa.
A questão ética reaparece aqui com força. Se o professor de yoga pretende produzir no outro uma experiência de ruptura, ele corre o risco de ocupar justamente a posição que a soberania deveria desestabilizar. O aluno passa a depender daquele que possui a chave para fazê-lo atravessar determinado limite, quase como um discípulo. A promessa de libertação pode então produzir uma nova forma de sujeição. Em vez de guru, aparece o facilitador; de "iluminação", catarse; e a tradição, como técnica. A estrutura de dependência, assim, pode permanecer intacta. Por isso, talvez seja necessário preservar alguma forma de limite no próprio yogar. Não o limite entendido como repressão moral ou obediência cega, mas como aquilo que torna possível uma experiência de passagem sem que toda passagem seja confundida com libertação. O limite, por sua vez, permite que exista uma diferença entre aquilo que se conhece e o que ainda não se conhece. É essa diferença que torna possível a experiência.
A aproximação entre erotismo e yoga também pode ser compreendida nesse registro. O erotismo, em Bataille, não é simplesmente uma teoria sobre a sexualidade; ele diz respeito a uma experiência na qual a organização habitual do sujeito é perturbada. O indivíduo, normalmente ocupado em conservar sua continuidade, sua identidade e sua separação dos outros, encontra situações nas quais essas fronteiras deixam de funcionar com a mesma estabilidade. Há algo de vertiginoso nessa experiência porque ela coloca em questão a própria forma pela qual o sujeito se reconhece como indivíduo separado. O yoga possui, evidentemente, outra história e outra linguagem, por isso não seria adequado simplesmente identificar samadhi, kaivalya ou qualquer outra experiência yoguica com o erotismo batailliano; mas a aproximação pode ser produtiva se for feita não pela equivalência dos conceitos, e sim pela pergunta que ambos permitem formular: o que acontece quando a experiência deixa de reforçar a imagem habitual que fazemos de nós mesmos? Essa pergunta é diferente daquela que orienta boa parte das práticas modernas de autoconhecimento. Nelas, frequentemente se espera que a experiência permita ao sujeito se conhecer melhor, tornar-se mais integrado, reconciliar suas partes, construir uma identidade mais coerente. O horizonte continua sendo o de um indivíduo que trabalha sobre si para alcançar uma forma mais satisfatória de si mesmo.
A perspectiva soberana introduziria uma espécie de desvio nesse percurso. Talvez uma experiência importante não seja aquela que permite ao sujeito finalmente coincidir consigo mesmo, mas aquela que o coloca diante da impossibilidade dessa coincidência. Não se trata de destruir o sujeito, nem de dissolver o ego/eu/self, expressões que facilmente se transformam em novas promessas espirituais, mas em admitir que a experiência pode produzir uma diferença que não precisa ser imediatamente recuperada como conhecimento sobre quem somos. Nesse sentido, o não-saber deixa de ser uma deficiência a ser superada pelo conhecimento e passa adquirir uma função propriamente ética - não se perde aqui. O professor/terapeuta de yoga que não pretende ser guru não é aquele que nada sabe ou que transforma sua ignorância em virtude, todavia o que reconhece que existe uma dimensão da experiência do outro diante da qual seu saber não possui soberania. É nesse ponto que um yogar soberano possa encontrar uma formulação mais interessante. Não seria um yogar contrário à técnica, ao estudo, à disciplina ou ao cuidado, entrementes um yogar que soubesse interromper, em determinados momentos, a transformação de todas essas coisas em instrumentos para a fabricação de um sujeito ideal. Um yogar, enfim, capaz de suportar que uma prática aconteça sem precisar imediatamente convertê-la em progresso, cura, evolução ou libertação. Isso deslocaria também a própria pergunta sobre para que serve um yoga. A pergunta continuaria sendo legítima afinal, toda prática possui efeitos e se inscreve em determinadas relações sociais, econômicas e políticas. Seria importante que yogues e seus yogares não precisassem justificar sua existência exclusivamente por esses efeitos, i.e., entre práticas que pretendem produzir alguma coisa e experimentações que simplesmente acontecem não existe uma oposição absoluta. O que está em jogo, insistiria, é a possibilidade de que uma não seja inteiramente absorvida pela outra.
É possível, então, imaginar yogares no qual suas práticas não sejam somente uma preparação para um estado futuro, mas também uma interrupção momentânea da obrigação de produzir esse futuro. Não se trataria de abandonar o caminho (sadhana pessoal), mas de deixar de confundir o percurso de se conhecer com a necessidade permanente de chegar. A expressão “yogar soberano” poderia designar justamente esse ponto de tensão: um yogar que conserva a disciplina, mas não a transforma em moral de aperfeiçoamento; preserva o estudo, sem transformar o conhecimento em autoridade sobre a experiência; ele reconhece a tradição, sem fazer dela uma garantia absoluta de autenticidade; admite a técnica, sem permitir que toda experiência seja reduzida ao que a técnica consegue produzir. E que, enfim, pode falar de libertação sem transformar a própria libertação em mais um objeto de consumo espiritual.
Nesse sentido, a soberania yoguica aqui proposta não vive no domínio que adquirimos sobre o corpo, sobre a mente ou sobre a vida, mas na possibilidade de experimentar, ainda que provisoriamente, aquilo que não precisa ser imediatamente convertido em domínio. Os yogas deixariam então de ser apenas um trabalho realizado sobre si mesmo e poderia se tornar também uma experiência (de novo?) na qual o próprio projeto de fazer de si alguma coisa é colocado em suspensão. É uma consequência bastante diferente daquela produzida pelo yogas entendidos como aperfeiçoamento espiritual. E talvez seja justamente por isso que ela seja interessante, não porque ofereça uma nova doutrina do yoga, mas pois permite perguntar o que resta da prática quando retiramos dela a obrigação de produzir um determinado tipo de pessoa: não violenta, celibatária, devota a Deus/Isvara e infinitas outros ditames "essenciais" e universais, portanto, delirantes.
Nesse ponto, a questão deixa de ser como fazer um yogar mais soberano. A pergunta passa a ser outra: o que aconteceria com os yogas (e seus yogues e yogares) se eles pudessem, por alguns instantes, deixar de trabalhar para ser aquilo que imaginamos que ele deveria ser? Penso estar aí que a prática contemporânea yoguica (esta pós e não anti-linhagem ou guruzística) encontre sua possibilidade mais radical de não-saber.




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