Espiritualidade em Cuidados Paliativos: Cuidando para uma boa morte


Introdução

Todos nascem condenamos à morte. No entanto, há meios de negar a sua existência. O medo da morte, do pós-morte e da dor sempre contribuíram para que se desenvolvesse e herdasse, ao longo da história, respostas fisiológicas e culturais que ainda hoje auxiliam os indivíduos afugentar, para longe das suas experiências cotidianas, o selo da única certeza absoluta da vida.

Com o advento das sociedades laicas, o valor cultural da religião e das suas crenças perde o seu trono de detentor exclusivo da verdade para outras formas de saber, como o da ciência. Surge então, o questionamento de explicações sobrenaturais, mas que são substituídas por outras nem sempre tão distantes assim dos antigos mitos e dogmas de outrora. Hoje, a fé na eterna juventude também é depositada em cosméticos, em cirurgias plásticas, em dietas, na obsessão por exercícios físicos, em nanotecnologias, e outras que disputam o elixir da imortalidade ao lado das tradicionais explicações religiosas, como a vinda de um messias, dos banhos de ebó e amaci, participação em kuras, viver de prana ou a crença na existência de mundos celestiais. O que há em comum em todas elas? O fim do sofrimento, da dor e a garantia da vida eterna.

Vinculada ao tabu, a negação da morte evidencia-se nas inseguranças e angústias frente à vida, e ressignifica-se de infinitas formas ditadas por diferenças intelectuais, sociais, religiosas, econômicas, psicológicas e etc. Por isso, é necessário compreender o fenômeno da morte com naturalidade e familiaridade, pois, só assim, o tabu, o preconceito e o mêdo que existem sobre esse tema serão exorcizados (FRANCO, 2008).

Na área médica, a morte sempre bateu à porta, e os cuidados paliativos ganharam notoriedade devido aos valores humanos e as concepções modernas empregadas ao tratamento da saúde, da qualidade de vida e de morte. No entanto, sabe-se que os valores religiosos/espirituais estão atrelados ao cotidiano de muitas pessoas e, ao contrário do que se imaginava, estes não morreram com o deus de Nietzsche, pois o lado espiritual não necessita da ciência ou da filosofia para elaborar e certificar as suas próprias respostas e soluções às vicissitudes da efêmera existência humana.

Inúmeros estudos têm apontado a relevância da equipe médica multidisciplinar valorizar e acompanhar os últimos momentos de vida de indivíduos sem possibilidades de cura. Este capítulo tem como objetivo alertar aos agentes de saúde pelo crivo da ciência, para o fato de incluir os aspectos religiosos/espirituais nos cuidados paliativos, apontando os benefícios de uma abordagem médica mais humana e sensível ao histórico de vida de quem se trata, seja ele um paciente, um familiar e/ou cuidador.

As respostas inatas do mêdo da morte e da dor

Em fisiologia é muito bem conhecida as reações bioquímicas inatas que acompanham o medo. Elas são denominadas de eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, resposta de luta-e-fuga ou simplesmente eixo do estresse. E qual a razão evolutiva desse mecanismo fisiológico existir ainda hoje? Sim, pois o que não serve, evolutivamente é eliminado da natureza humana. Para se tentar ilustrar, imagine os nossos patriarcas caminhando pelas savanas da África no início dos primeiros hominídeos, qualquer descuido ou desatenção morria-se por algum predador, desastre natural ou inanição. Dessa forma, sobreviveu apenas os mais aptos a responder de forma adequada as tragédias da vida e, como recompensa, ganharam esse “programa” encravado em sua carne, e o direito de transmitir os seus genes adiante, sendo os homens e as mulheres que habitam as sociedades modernas, os seus herdeiros.

Essa “preparação” evolutiva contra a eminência da morte e da dor capacitou a todos os pacatos cidadãos de qualquer cultura civilizada ou “primitiva”, a desencadear defesas naturais quando esse sentimento se instala, dilatando-se as pupilas dos olhos para uma visão mais acurada, deslocando-se o sangue dos órgãos internos e vísceras para os músculos esqueléticos