Os novos símbolos corporais no ioga contemporâneo


Resumo

O Ioga como conhecemos hoje sofreu encontros e desafios que obrigaram aos iogues do início do séc. XIX na Índia a se ajustarem às novas racionalidades que surgiam, sobretudo no seu contato com a ciência moderna ocidental. A fisiologia, a neurociência e a biomedicina trouxeram soluções que antes eram monopólio exclusivo da fisiologia sutil, mágica ou espiritual ioguica surgida entre os séculos II a.C. e XIV d.C. O Ioga moderno e a sua prática incorporada ao ritmo das grandes cidades de consumo e em contato com a ciência ocidental conquistou novos adeptos, mas parece ter direcionado o seu caminho de salvação na busca por uma espécie de cura espiritual pelo relaxamento, o que ao mesmo tempo em que desencantou a sua prática para alguns, transformando-a em técnica terapêutica secular, para tantos outros a elevou ao nível de “científica” uma religião mística. Demonstro o caminho histórico-social que acarretaram essas mudanças e os iogues que ressignificaram o Ioga que conhecemos hoje.

Palavras-chave: ioga, fisiologia, religião, ciência, salvação.

Abstract

Yoga as we know it today has faced encounters and challenges that forced yogis from the beginning of the XIX century in Índia to adjust to new rationales that have arisen, especially in their new contact with western modern science. The physiology, neuroscience and biomedicine brought solutions that were previously exclusive monopoly of a subtle or spiritual yogic physiology arisen between the 2nd b.C. and 14th a.C. centuries. The modern yoga and its reframed practice to the rythm of the consuption cities and yet in touch with western science conquered new practitioners, but it seems to have directed its salvation paradigm to a kind of spiritual healing through relaxation, which at the same time disenchanted some of the yogis transforming it into a secular therapeutic technique, for many others raised a spiritual mystic to the level of “scientific”. I am willing to set forth the sociohistorical path that led to these changes as well as the yogis writings responsable for all the yoga literature available today.

Keywords: yoga, physiology, religion, science, salvation.

Introdução

Em nosso último censo do IBGE lemos que o Brasil abriga mais de 5 mil hindus, 155 mil adeptos de “novas religiões orientais”, sendo que destes, 52.235 se autointitularam crentes de “outras” novas religiões orientais. Também apareceram adeptos de tradições esotéricas estimados em 74 mil, e mais de 11 mil de brasileiros disseram professar “outras religiosidades” que não conseguiram identificar entre as opções oferecidas pelo recenseador. Cerca também de 14 milhões de brasilerios declararam-se “sem religião” mas não ateus, o que denotam que professam alguma fé ou crença mas que não estão ligadas a nenhuma instituição identificada ou constituída (ainda), além de 124 mil brasileiros classificados como agnósticos. Isso sem contar os mais de 640 mil praticantes de “múltiplas crenças” e 61 mil declarados “espiritualistas”, que se diferem dos espíritas.

O que pretendo com esses números é demonstrar que podemos pensar em mais de 14 milhões de brasileiros (cerca de 7% de nossa população) compreendendo-se professar crenças e fé de origem “oriental” de uma forma ou de outra e, dentre estas, há talvez uma parcela expressiva de brasileiros que pratiquem e sigam a doutrina do Ioga considerado moderno, mas que por ser uma espiritualidade muitas vezes envolta na “nebulosa mística da Nova Era” ficam diluídos e desconhecidos em “outras crenças” ou “múltiplas crenças” sem uma identidade religiosa singular e desvinculado do hinduísmo. Nosso intuito se reduzirá, no entanto, em identificar aqui a influência da fisiologia moderna ocidental na ressignificação da doutrina ioguica. Cabe a novos estudos investigar o campo religioso ioguico no Brasil e suas próprias ressignificações e sincretismos.

O início

Para o ocidente, o Ioga desembarca oficialmente nas suas terras com o Swami Vivekananda (1863-1902), em 1893, na cidade de Chicago nos Estados Unidos. A sua visita foi, por convite do Primeiro Parlamento Mundial das Religiões, como o representante do hinduísmo nesse evento. No seu discurso apresenta já um Ioga com distintos sincretismos dos seus tempos pré-modernos (pós-clássico ou medieval), tanto em termos ideológicos, religiosos e fisiológicos . Para Vivekananda, o Ioga é então considerado como um ideal de “religião universal”, sendo ele um dos primeiros a ressignificar a fisiologia sutil do Ioga com termos científicos.

O Ioga que Vivekananda oferece aos emissários das principais religiões ali presentes, é o de uma tradição religiosa pautada em uma das formas pela qual o ser humano alcança a sua “verdadeira liberdade” e manifesta a sua “divindade interior”. Vivekananda procura demonstrar nos seus pronunciamentos e depois em outras palestras e livros que a religiosidade indiana, condensada por ele com o nome Ioga, se sustenta tanto filosoficamente quanto cientificamente e está à altura de qualquer outra religião ali representada.

O seu discurso ficou bastante popular, o que lhe possibilitou fundar organizações ioguicas por cidades do mundo inteiro, tendo o seu pensamento, em relação à religião Ioga e a ciência formado a base intelectual de uma geração de iogues que veio depois dele. Vivekananda também ficou conhecido como um defensor da tolerância religiosa, tornando-se um dos grandes ídolos do hinduísmo moderno, além de um grande inspirador dos novos movimentos religiosos (principalmente da Nova Era) que primam, assim como o Ioga dito moderno, por assimilar os seus ensinamentos religiosos como científicos.

O Ioga, então, inicia as suas relações híbridas com novas culturas, sociedades, políticas, economias e geografias, como em outros momentos históricos. Contudo, agora, esse contato vai mudar o caráter do iogue renunciante do mundo de tempos passados, para um ascetismo que dialoga com o mundo nos tempos atuais, pautando-se em escrituras religiosas como o Bhagavad-Gita.

Consideremos agora a diferença entre um yogue-asceta e um monge samsari (que se propõe a participar do jogo exterior de maya). Diga-se desde já que o “samsari” não precisa jogar obedecendo ao ego. Com efeito, é grato por Deus e muito útil ao desenvolvimento espiritual participar do jogo divino sem recorrer ao ego, em vez de procurar envolvê-lo no processo.

Enquanto aqueles iogues clássicos e medievais abandonavam o convívio social e dedicavam a sua busca religiosa de salvação do sofrimento humano (avidya) por meio de rituais secretos para diminuição dos seus vrittis (“turbilhão da consciência) e de seus klesas (sentimentos de apego, aversão, medo da morte e orgulho) retirados em ashrams e cavernas isoladas (ver sutra I.16 do Hathayogapradipika), os iogues modernos se globalizam e adquirem a preocupação de difundir os seus ensinamentos para o mundo, abrindo mão da reclusão e sofrendo o risco da secularização de sua religiosidade. Esta passagem histórica de renúncia necessária ao mundo e agora, de participar do mundo e difundir as ideias religiosas de salvação aos outros se configura uma das características mais marcantes do Ioga que se conhece atualmente segundo Sarah Strauss. Assim sendo, de acordo com estudiosos contemporâneos, o Ioga atual precisou aprender a lidar com os acontecimentos, principalmente os advindos do nacionalismo indiano, do ocultismo ocidental, da filosofia neo-vedanta, dos sistemas de cultura físicos modernos, do islamismo, do cristianismo primitivo, da ciência moderna (principalmente a fisiologia e a biomedicina) e do movimento Nova Era para se autofirmar contemporaneamente. Este é o novo pano-de-fundo que configura o Ioga que se conhece atualmente.