Mil Yogas: Malandragem e suas linhas-de-fuga criadoras


1. Kaivalya: busca por libertação ou desejo por mais solitude

A primeira pergunta que talvez paire em sua mente pode ser: não é uma redundância propor a um yogi ser um livre-pensador? Sim, a proposta do Yoga é ser livre, atingir kaivalya, como já foi muito bem exposto na sistematização de um sacerdote hindu ainda no século II a.C. sob o domínio da sociedade indiana pelo Império Védico! Mas como a própria palavra anteriore em itálico deixam subentender (domínio), será que o sacerdote Patanjali, que vivia no lugar de mais alta casta social indiana da época, não capturou um Yoga e imprimiu a sua (única) forma de pensar e viver? Em outras palavras, a sua (a você mesmo que me refiro agora) escola, tradição, método ou linhagem yoguica (ou qualquer outra denominação que você deseje/confie/bote-fé) pode estar doutrinando a sua realidade e não o liberando ("kaivalyando") a novas formas de amar, de existir, se vestir, pensar... Outro ponto aqui, antes de passarmos ao próximo parágrafo: kaivalya, pode tanto ser expresso por libertação ou liberação (de toda forma de sofrimento?), quanto solidão ou solitude (da vida gregária que aprisiona – e doutrina – desejos humanos por mais vida). Há outra forma, do que em momentos de distanciamento social, alcançar kaivalya-solitude-isolmento? Ou você acredita ser coincidência experienciar-se tão “novo” após os R-E-T-I-R-O-S que participa?

A proposta de do “livre-pensador” se vincula muito mais com a preposição com do que no ou do Yoga. É apenas vivendo UM yoga (o seu, criado por você) como uma “caixa de ferramentas”, muito mais do que uma “cultura” ou “doutrina”, que nos veremos livres-kaivalya dos aparelhos de captura desejantes gregários. Organizando a sua vida de fora com O yoga (aquele idealizado por sacerdotes), exige que se pressuponha as escrituras yoguicas como sagradas – perfeitas em si mesmas! O Yogi Livre-pensador ou apenas Yogi Malandro (ou ainda nômade) está liberto das idealizações; ele vive e percorre as nervuras do real e tem forças para viver um yoga qualquer que criou.

2. Yogis Capturantes e Yogis Criadores

Não se deve dividir um yoga entre hatha, raja, bhakti ou qualquer outra pré-suposição classificatória (resquícios das castas ou nível de pureza humana idealizada? – lembre-se da SS na Alemanha nazista e a sua busca da raça ariana pura). Sugiro aqui, apenas a título de experimentação, dividir os yogas entre: (1) os que capturam desejos e (2) os que liberam (libertam?) ou possibilitam a criação de linhas-de-fuga criadoras aos desejos, rumo a mais potência dos seus yogis.

Os yogas do tipo (1) estão baseados no transcendente, na espera(nça), em uma palavra: no ideal (que nunca é deste mundo); estes buscadores/peregrinam/convertidos aguardam ansiosos a Bem-Aventurança, Plenitude, Kaivalya como o Céu para os cristãos ou Valhalla dos nórdicos. São geografias religiosas que não pertencem a nenhuma cartografia real, mas ideal, por isso, imaginária... para poucos escolhidos ou que necessitam de alguma iniciação sagrada, símbolo místico ou pronúncia correta dos cânticos para alcançar a sua redenção... desculpe, libertação/liberação de todo sofrimento humano de uma vez só! Contudo, e não poderia ser diferente, já que para poucos eleitos por deus, apenas concedido aos mais puros (e de longas orelhas, como diria o filósofo?). São os brâmanes modernos, pensamento elitista e herdado de um sistema social dividido por castas e sustentado por deuses que inspiraram os antigos “sábios”?

Os yogas do tipo (2), por sua vez, estão rizomáticos, ou seja, não descendem de nenhuma árvore genealógica que possui uma RAIZ ORIGINAL E INCORRUPTÍVEL. Os yogas agenciadores de linhas-de-fuga criadoras é um emaranhado de fluxos desordenados e desajustados, esquiZitos, por isso ESQUIZOYOGA. Fincados no plano da imanência (e nunca transcendente), não há espera(nça) a eles, pois plenos, completos, inteiros que já são, não buscam nada, não peregrinam por nenhum lugar ou se convertem a nenhuma doutrina, linhagem, casta ou promessa; estes dançam à beira do precipício. O precipício aqui é o nada de suas vidas, mas caindo no vazio podem se perceber R-E-A-L-M-E-N-T-E livres em criar suas próprias formas de viver. Dito mais simples, não invejam as virtudes alheias, mas vem-a-ser eles mesmos: organizam suas vidas de dentro.

Claro que em ambos haverão mestres, gurus, feiticeiros, profetas e místicos; entre os yogis capturadores de desejos (1), um mestre parece ocupar uma outra geografia, seus corpos/mentes são de outra estirpe – meu mestre não é