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Metabolizar o indizível


Se pôr (estar disponível) em meditação é encontrar com aquilo que ainda não pode ser pensado. Esse processo se afasta de técnicas de autorregulação e busca de bem-estar. Sim sim, eu sei que isso confunde você, cansado e buscando yogar/meditar para encontrar paz. Está tudo bem, não estou aqui para lhe dizer o que é ou não meditar certo, ok? Já não tenho mais idade para isso.


Mas se você investigar a si mesmo, não como dispositivo de adaptação ao neoliberalismo afetivo, e sim como possível movimento de metabolização do real que lhe angustia, este ensaio pode lhe auxiliar na sua travessia.


Muitas sensações nos transpassam sem dizer nada, mas ainda assim, dizem muito. É da mãe (ou de quem fez esse papel social) que aprendemos isso, pois foi quem desenvolveu essa capacidade de acolher as suas angústias primitivas e as transformou em algo pensável ou “percebido”.


Perceber é nomear sensações (medo, fome, raiva, dor…) que antes (no corpo/mente) do bebê eram, antes, apenas evacuadas, atuadas e projetadas. O pensamento nasce, portanto, não como uma faculdade abstrata, mas efeito da contenção afetiva. Não se perde, tiozão: pensar é, antes de tudo, ter sido pensado por outro(a) - e a mente (mana), só mais uma ideia do corpo.


A mãe, o analista e um professor de yoga/meditação (feiticeiro, e não um sacerdote) exercem essa “função metabólica” sempre que SUPORTAM, sem recusar ou saturar de sentido os afetos projetados pelo filho, analisando ou aluno. Tá pegando o rolê?


Não falo aqui de uma neutralidade vazia, mas de uma forma radical de “hospitalidade psíquica”. Suspender a ânsia de saber para permitir que algo ainda informe - não simbolizado - encontre CONTINENTE.


A prática meditativa cultiva esse mesmo estado, mas de forma intrapsíquica (ou carrega consigo essa força). O meditante/yogue (pode) torna-se simultaneamente aquele que projeta e contém. O que antes interrompia como angústia sem forma (aperto no peito, inquietação difusa ou citta-vrtti, tristeza sem nome) passa a ser sustentado no campo consciência (citta) até adquirir contorno. Não é dissolver o sofrimento  (dukkha), mas permitir que ele se torne experiência.


Mas para isso ocorrer, é necessário romper com a versão instrumentalizada da meditação/yoga, onde a prática fica reduzida à regulação emocional. Ao invés de eliminar o desconforto para restauro da funcionalidade do sujeito, é encontrar o desejo. Mais simples, ao invés de alívio imediato, é chegar ao discernimento (viveka).


Nesse ponto, a meditação se aproxima menos de um caminho de elevação espiritual e mais de uma ética da permanência. Permanecer com a respiração quando ela falha, com o corpo quando ele dói, com o pensamento quando ele se repete, com o vazio quando ele não se preenche. Permanecer não como resignação, mas como gesto de recusa à evacuação imediata da experiência. Meditar como uma {mãe metabolizadora dos conflitos do seu bebê} é, nesse sentido, uma política do tempo: ela desacelera a compulsão de responder, interpretar, agir.


Essa formulação permite repensar yogar/meditar como prática de cuidado que não visa à normalização, mas à ampliação da capacidade de sentir e pensar. Em vez de prometer felicidade, elas oferecem continente. Em vez de eliminar o conflito, tornam-no pensável. Em vez de adaptar o sujeito ao mundo tal como ele é, criam as condições para que ele possa, finalmente, experimentar o mundo (e a si mesmo) sem precisar fugir.


Talvez seja esse o ponto decisivo: meditar/yogar não cura o sofrimento; ela o torna habitável. E uma vida habitável, ainda que atravessada por angústias, é uma vida em que o pensamento pode emergir onde antes havia apenas silêncio ou grito. Meditar, então, não seria escapar do real, mas tornar-se capaz de permanecer com ele sem sucumbir à necessidade de negá-lo ou idealizá-lo.


Nesse sentido, a meditação deixa de ser uma técnica espiritual e torna-se uma ética da hospitalidade psíquica. Uma prática de acolhimento do que ainda não tem nome. Uma política do cuidado que começa no interior da mente, mas não termina nela, pois um sujeito que pode conter sua própria experiência torna-se, potencialmente, capaz de conter a experiência do outro. 


E talvez seja aí que esse ESTAR À ESPREITA, atravessando a meditação, reencontre sua vocação originária: sustentar a possibilidade de pensamento em um mundo que continuamente nos empurra para a evacuação do consumo ou “enfeitados por mercadorias”, sem citta-de-classe e proletários em avidya.


Referências

BION, Wilfred R. Elementos de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 
 
 

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