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Yoga e a captura de ontologias indígenas: contribuições a partir dos estudos sobre povos Adivasis


Resumo

Este ensaio investiga a relação entre o desenvolvimento histórico do yoga e as práticas corporais e cosmologias de povos autóctones da Índia, frequentemente designados como Adivasis. A partir de revisão bibliográfica em estudos de história do yoga, antropologia e estudos indígenas, argumenta-se que o yoga não constitui uma tradição homogênea de origem exclusivamente védico-bramânica, mas uma formação histórica heterogênea que incorporou práticas de grupos marginalizados. Sustenta-se que esse processo implicou uma reconfiguração ontológica: práticas relacionais e territorializadas foram progressivamente internalizadas, sistematizadas e universalizadas. Hipotetizo que os Adivasis não devem ser compreendidos como “origem do yoga”, mas como seu exterior constitutivo, cuja captura foi central para a formação de suas técnicas corporais.

Palavras-chave: yoga; Adivasis; ontologia; corpo; colonialidade; antropologia.


1. Introdução

A narrativa dominante sobre a história do yoga frequentemente o apresenta como uma tradição contínua e essencialmente derivada do universo védico-bramânico. No entanto, pesquisas recentes em história e antropologia do yoga têm problematizado essa leitura, destacando sua constituição plural e historicamente situada (SINGLETON, 2010; MALLINSON; SINGLETON, 2017). Paralelamente, estudos sobre povos Adivasis (termo político contemporâneo que designa diversos grupos autóctones da Índia) evidenciam a existência de sistemas cosmológicos e práticas corporais que operam fora da lógica bramânica e da organização de castas (XAXA, 1999; DASGUPTA, 2018).


Este ensaio propõe investigar possíveis relações entre esses dois campos, não no sentido de estabelecer uma filiação direta entre Adivasis e yoga, mas de compreender como práticas corporais e ontologias não hegemônicas podem ter sido incorporadas, transformadas ou subordinadas na formação histórica do yoga.


2. Yoga como formação histórica heterogênea

Estudos recentes têm enfatizado que o yoga deve ser entendido como uma tradição composta por múltiplas camadas históricas, envolvendo ascetismo, práticas tântricas, disciplinas corporais e influências não ortodoxas (MALLINSON; SINGLETON, 2017). Mark Singleton (2010) demonstra, por exemplo, que o yoga moderno é resultado de uma reconfiguração recente, marcada por influências da cultura física global. Já a tradição do haṭha-yoga, frequentemente considerada “clássica”, emerge em contextos não estritamente bramânicos, com forte presença de ascetas itinerantes e práticas marginais à ortodoxia (WHITE, 2012).


Esses estudos podem indicar que o yoga não se deixa ser reduzido a uma tradição puramente textual ou védica, abrindo espaço para considerar a influência de práticas corporais populares e não institucionalizadas.


3. Povos Adivasis e ontologias relacionais

O termo “Adivasi” refere-se a populações historicamente situadas fora do sistema de castas e frequentemente associadas a modos de vida ligados à floresta e a formas de organização social não centralizadas (XAXA, 1999). Pesquisas antropológicas indicam que muitos desses grupos operam com cosmologias nas quais não há separação rígida entre natureza, cultura e espiritualidade. Entre os Gond, por exemplo, o mundo é concebido como um campo animado de relações entre humanos, animais, espíritos e território (FUCHS, 2013). De modo semelhante, estudos sobre religiões florestais indianas destacam a centralidade de práticas de possessão, rituais territoriais e a agência de entidades não humanas (BIRD-DAVID, 1999). Essas cosmologias podem ser descritas como relacionais, na medida em que o corpo não é concebido como entidade isolada, mas como ponto de interseção de forças e relações.


4. Corpo, ritual e interiorização

Um dos traços distintivos do desenvolvimento histórico do yoga é a progressiva internalização de práticas rituais. Como argumenta Joseph Alter (2004), o yoga pode ser interpretado como uma forma de interiorização do sacrifício, deslocando a relação com o cosmos para o interior do corpo. No haṭha-yoga, isso se manifesta na sistematização de técnicas como controle respiratório (prāṇāyāma), posturas corporais (āsana) e a manipulação de “energias” internas.


Esse processo implica uma transformação significativa: práticas que, em outros contextos, estavam inseridas em relações coletivas e territoriais passam a ser reorganizadas como técnicas individuais de autotransformação.


5. Apropriação, hierarquização e reconfiguração

A relação entre práticas corporais populares e tradições eruditas na Índia foi historicamente marcada por processos de hierarquização. Como observa Chakravorty (2008), formas culturais associadas a grupos não hegemônicos foram frequentemente reclassificadas como inferiores, ao mesmo tempo em que certos elementos eram incorporados e reconfigurados.


No campo do yoga, esse processo pode ser interpretado como uma dupla operação: (1) marginalização de práticas corporais não bramânicas; e (2) apropriação seletiva de técnicas passíveis de sistematização. Entrementes, é importante ressaltar que a literatura acadêmica não sustenta a existência de uma “linhagem adivasi de yoga”. O que se observa são zonas de contato e transformação, e não continuidade institucional direta.


6. Discussão: da relação à interioridade

A partir dos elementos apresentados, parece lícito supor que o desenvolvimento do yoga implicou uma mudança ontológica significativa, i.e., de práticas relacionais para técnicas internalizadas, mas sobretudo, do corpo-território para corpo-indivíduo e, ato contínuo, de cosmologias animadas para modelos energéticos abstratos.


Essa transformação não deve ser entendida como mera evolução, mas resultado de processos históricos que podem ter incluído disputas simbólicas, hierarquias sociais e reconfigurações culturais. Nesse sentido, os Adivasis não aparecem como origem direta do yoga, mas exterioriores constitutivos, cujas práticas e ontologias foram parcialmente incorporadas, transformadas ou subordinadas.


7. Considerações finais

Este ensaio (incompleto e introdutório) busca argumentar que a história do yoga deve ser compreendida como uma formação heterogênea, atravessada por múltiplas influências, incluindo práticas corporais e cosmologias de grupos marginalizados. A análise que buscamos desenhar de forma inicial parece sugerir que o desenvolvimento do yoga implicou uma reconfiguração ontológica, marcada pela internalização e sistematização de práticas originalmente inseridas em contextos relacionais mais amplos.


Por fim, destaca-se a necessidade de evitar tanto a idealização de uma origem “pura” quanto a atribuição simplista de práticas do yoga a povos específicos, reconhecendo a complexidade histórica e a multiplicidade de influências envolvidas. Mais estudos precisam ser realizados para que um yogar advasi (não no sentido de método, escola ou linhagem, mas de propósito) venham a corroborar que nem todos yogues visem moksa, mas siddhis, ou seja, aprender a manipular as forças na natureza e, sendo os corpos partes dela também, deixemos de buscar fins transcendentalistas e passemos a pensar igualmente em yogas da natureza imanente da/em vida.


Referências Bibliográficas

ALTER, Joseph S. Yoga in modern India: the body between science and philosophy. Princeton: Princeton University Press, 2004.

BIRD-DAVID, Nurit. “Animism” revisited: personhood, environment, and relational epistemology. Current Anthropology, v. 40, n. S1, p. S67–S91, 1999.

CHAKRAVORTY, Pallabi. Dancing into modernity: multiple narratives of India’s Kathak dance. New Delhi: Routledge, 2008.

DASGUPTA, Abhijit. Adivasi studies: from a historian’s perspective. Studies in History, 2018.

FUCHS, Martin. Reaching out; or, nobody exists in one context only: society as communication. International Journal of Indigenous Health, 2013.

MALLINSON, James; SINGLETON, Mark. Roots of yoga. London: Penguin, 2017.

SINGLETON, Mark. Yoga body: the origins of modern posture practice. Oxford: Oxford University Press, 2010.

WHITE, David Gordon. The yoga sutra of Patanjali: a biography. Princeton: Princeton University Press, 2012.

XAXA, Virginius. Tribes as indigenous people of India. Economic and Political Weekly, v. 34, n. 51, p. 3589–3595, 1999.

 
 
 

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