Yogue-flâneur, uma aventura com W.Benjamin
- PhD. Roberto Simões

- há 22 horas
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Walter Benjamin recupera do século XIX a figura do flâneur: aquele que percorre a cidade moderna sem destino fixo, atravessando ruas, passagens, vitrines e multidões. Ele observa, recolhe signos, lê mercadorias como quem lê poemas e transforma o passeio em experiência crítica da modernidade. O flâneur é, ao mesmo tempo, produto e intérprete do capitalismo urbano. Surge quando a cidade deixa de ser apenas lugar de moradia e trabalho para tornar-se espetáculo, circulação e consumo.
Benjamin percebeu algo decisivo: no capitalismo, a mercadoria não vende apenas objetos. Ela vende sonhos, identidades, promessas. As vitrines de Paris não exibiam somente produtos, mas fantasias. A isso ele chamará fantasmagoria: o mundo social convertido em encantamento mercantil. É nesse mesmo processo histórico que o yoga moderno ganha forma.
O yoga postural globalizado, centrado em ásanas, saúde, performance corporal e bem-estar, não é simples continuidade linear do yoga antigo. Ele se consolida entre os séculos XIX e XX em diálogo com nacionalismos indianos, cultura física europeia, medicina moderna, pedagogias do corpo e mercados emergentes de saúde. Figuras como Yogendra e Kuvalayananda foram decisivas ao traduzirem práticas yogues para a linguagem científica, terapêutica e higienista do mundo moderno.
Isso significa que o yogue contemporâneo já nasce dentro da modernidade capitalista. Ele não pratica numa floresta mítica fora da história. Pratica entre academias, algoritmos, aplicativos, retiros premium, marcas esportivas, narrativas de performance e economias da atenção. Com isso em vista, talvez possamos nomear uma figura central do nosso tempo: o yogue-flâneur. O yogue moderno talvez seja, antes de tudo, um yogue-flâneur.
Walter Benjamin nos ofereceu a figura do flâneur como aquele sujeito que atravessa a cidade moderna caminhando entre vitrines, mercadorias, multidões e estímulos. Ele observa, circula, consome imagens, lê signos, vagueia entre promessas. É filho direto da modernidade capitalista, da metrópole transformada em espetáculo e do desejo organizado pela mercadoria. Talvez devêssemos admitir algo desconfortável: nenhum yogue moderno escapa disso.
De Kuvalayananda aos grandes nomes contemporâneos, dos mestres tradicionais aos influencers espirituais, todos yogam dentro de cidades mercantilizadas, entre telas, marcas, performances, algoritmos e economias de atenção. Mesmo quando falam de transcendência, falam desde o interior da modernidade.
O yogue-flâneur busca silêncio, mas o faz cercado por ruídos. Busca essência, mas circula entre signos. Busca libertação, mas aprende a desejar dentro de mercados que vendem exatamente isso: liberdade, presença, cura, autenticidade. Ele entra no estúdio como quem entra numa galeria.Escolhe métodos como quem escolhe estilos.Percorre tradições como quem percorre bairros da cidade.Consome símbolos, linhagens, roupas, retiros, narrativas. Mas seria simplista concluir que tudo isso é falsidade. Porque o flâneur, em Benjamin, não é apenas cúmplice. Ele também é sintoma e resistência. Observa o mundo da mercadoria e, ao mesmo tempo, revela sua fantasmagoria. Caminha dentro da engrenagem sem coincidir totalmente com ela.
O yogue-flâneur faz algo semelhante. Ele pratica yoga no interior do capitalismo tardio, muitas vezes capturado por ele, mas também tentando abrir fendas em sua lógica. Quando respira, desacelera o tempo produtivo. Quando medita, interrompe por instantes a compulsão do desempenho. Quando percebe o vazio das promessas consumistas, transforma a prática em crítica muda. Nem puro rebelde, nem mero consumidor, o yogue-flâneur é ambíguo. Busca cura com instrumentos vendidos pelo mercado. Procura presença em dispositivos que dispersam. Deseja o absoluto enquanto navega vitrines. Talvez esta seja a verdade do yoga moderno: ele não acontece fora da mercadoria, mas entre suas ruínas.
E, quem sabe, a maturidade espiritual hoje não seja fantasiar pureza pré-capitalista, mas reconhecer onde se pisa. O yogue contemporâneo caminha pela cidade como quem atravessa um templo quebrado. Entre anúncios, corpos, telas e promessas, ainda procura algo que não esteja à venda.




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