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Samādhi, mística e o gozo: entre a promessa de unidade e o real


Nos textos clássicos do yoga, o termo samādhi não aparece como um detalhe periférico, mas eixo organizador de toda a prática. Em tradições sistematizadas como a de Patañjali, samādhi não é apenas um estágio avançado, mas o próprio horizonte do caminho. A estrutura do yoga, frequentemente descrita em oito membros, conduz progressivamente a esse ponto em que a consciência (citta), antes dispersa, torna-se estável, depois contínua e, por fim, dissolve-se em uma forma de absorção completa.


Esse percurso não é meramente técnico. Ele culmina num estado em que a distinção entre sujeito e objeto se desfaz, e o próprio ato de conhecer deixa de se separar daquilo que é conhecido. O que antes aparecia como relação entre observador e observado se torna uma espécie de continuidade sem fissura. Samādhi designa precisamente essa absorção, esse ponto em que apenas o objeto “permanece”, enquanto o sujeito, tal como se organizava, recua ou desaparece.


É por isso que os yogas não apresentam o samādhi como uma experiência rara ou excepcional, reservada a poucos, mas como o destino lógico da prática. Independentemente das variações de método, escola ou época, o que se preserva é essa orientação fundamental. Os yogas convergem para o samādhi. Ele não é um evento entre outros, mas aquilo que se busca.


Quando esse conceito é atravessado pelo campo da ciência da religião, ele é rapidamente aproximado do que se convencionou chamar de experiência mística. A descrição coincide: dissolução da dualidade, suspensão do eu, sensação de unidade, dificuldade de tradução em linguagem. O samādhi passa então a ser compreendido como uma forma específica de experiência mística, frequentemente associada a estados de consciência não-dual ou consciência pura. Mas essa aproximação, ainda que correta, permanece insuficiente. Ela descreve o fenômeno, mas não interroga sua estrutura. Ela diz o que aparece, mas não o que está em jogo.


É aqui que a psicanálise, especialmente na obra de Lacan, introduz um deslocamento decisivo. Para compreendê-lo, é preciso primeiro distinguir aquilo que o autor chama de real daquilo que, no uso comum, se chama realidade. A realidade é o que conseguimos organizar por meio da linguagem e da imagem. Ela é construída, sustentada por discursos, por identificações, por sistemas simbólicos que dão consistência ao mundo e ao sujeito. A realidade é o que faz o mundo parecer habitável.


O real, ao contrário, não é o mundo por trás da realidade. Não é uma camada mais profunda, mais verdadeira. Ele é aquilo que escapa a toda simbolização, aquilo que não se deixa integrar em nenhum discurso coerente. O real não tem sentido; é, propriamente, o impossível.


É nesse contexto que Lacan formula uma de suas proposições mais radicais: o real é aquilo que não cessa de não se inscrever. Isso não significa simplesmente que ele não pode ser dito, entrementes, que ele insiste em não poder ser dito. Há algo que retorna, que se repete, que insiste, mas nunca se fixa como significado estável. Toda tentativa de inscrição falha, e essa falha não é contingente, mas estrutural.


Se deslocarmos essa noção para o campo do yoga, algo se transforma na leitura do samādhi. Ele deixa de ser compreendido como união com o todo, no sentido de uma totalidade "Última" (Plena) finalmente alcançada, e passa a poder ser pensado como um encontro com aquilo que não pode ser simbolizado. Um ponto em que a linguagem falha, em que a realidade (e seus mayas) se desfaz, em que o sujeito, tal como sustentado por suas identificações, se dissolve.


Nesse sentido, há uma possível afinidade estrutural entre o que o yoga descreve e o que Lacan nomeia. O samādhi, a partir dessa chave de leitura, pode ser lido como um encontro com aquilo que não cessa de não se inscrever. Mas isso implica uma consequência decisiva: esse encontro não completa o sujeito-yogue ou meditante. Ele não produz uma unidade estável - e aqui tento escapar do yoga como religião com seus gurus iluminados, livros sagrados e igrejas. Yogues em samadhi dissolvem suas coordenadas que faziam o mundo parecer uno.


Aquilo que, no vocabulário tradicional do yoga, aparece como maya pode então ser relido não simplesmente como ilusão a ser eliminada, mas como aquilo que torna a realidade possível. A ilusão não é um erro, mas condição. Sem ela, não há mundo, não há sujeito, não há experiência organizada - nem o conceito de yoga e suas tradições seria possível.


O real, por si só, não é habitável. É por isso que o místico não permanece nesse ponto, depois retorna. Retorna à linguagem, à imagem e à realidade. E, ao retornar, passa a nomear o que sentiu. Diz unidade, absoluto, iluminação, mundo pleno e etc. No campo do yoga, se diz samādhi como união com o todo (Brahman). Mas esse dizer é já uma tradução: palavras, discurso...


A experiência, em si, não vem com sentido. Ela vem como excesso. E é aqui que a noção lacaniana de gozo se torna central. O gozo não é prazer. O prazer regula, equilibra, mantém o organismo dentro de limites suportáveis (homeostase). O gozo começa exatamente quando esses limites são ultrapassados. O gozo é excesso. É aquilo que atravessa o sujeito para além do que ele pode suportar = nomear lá. Não é harmônico, não é pacificador, não é integrador ou caminho do meio. Ele desorganiza ou desterritorializa - como os mares, o céu, a floresta e os desertos.


A experiência mística ou samādhi, nesse sentido, não é simplesmente lugar (no encéfalo ou nos mundos astrais) que se alcança de paz. Ela é frequentemente descrita como intensidade, como perda de si, como dissolução e inefável. Um ponto em que o sujeito yogue não se sustenta como unidade. Isso não é um detalhe acidental - insistiria -, mas estrutural.


Freud já havia indicado algo dessa ordem ao introduzir a noção de pulsão de morte. Não se trata apenas de uma tendência à destruição (carregue-se da figura mítica criadora do yoga agora, Shiva), mas de algo que excede o princípio do prazer (pense no Tantra neste momento, mas esqueça do sexo). Há no psiquismo uma insistência que não busca apenas satisfação, mas um “mais ainda”. Lacan radicaliza essa intuição. O sujeito não quer apenas prazer, todavia, ele quer gozar além do prazer. E esse além não conduz à harmonia, mas ao limite.


A mística, relida a partir daí, situa-se num ponto preciso. Ela não é pura religião, embora produza sentido. Nem é pura experiência bruta, embora toque o indizível. Ela se coloca entre dois regimes: o da religião, que organiza e traduz, e o da arte, que bordeja aquilo que não pode ser dito. O místico toca o real. Mas não pode permanecer nele. Então fala. E ao falar, transforma o indizível em discurso. A unidade aparece nesse momento, não como dado da experiência, mas como sua interpretação.


Se retornamos ao yoga, isso implica uma torção importante. O samādhi pode ser, sim, uma experiência corporal-real no sentido forte do termo. Um encontro com o limite da linguagem, com a dissolução do sujeito, com o excesso do gozo. Mas aquilo que se diz sobre ele já pertence a outro registro, saca o que digo aqui? O registro da simbolização. E é talvez aqui que se abre uma possibilidade clínica.


A utilidade de uma experiência como essa não está (yoguica-mística ou da miração com psicodélicos) em fornecer respostas, nem em oferecer uma forma de completude. Ela não resolve o sujeito; entrementes, possui o potencial em abrir frestas ou um abalo nas ficções que o sustentam - e, muitas vezes, o fazem se repetir: sintoma. Aquilo que parecia sólido pode vacilar. Aquilo que repetia evidente vai perdendo sua consistência. E não se engane, isso assusta, não acalenta. Ah, mas meu yoguinha só me traz paz e tranquilidade! Talvez tu não tenhas indo fundo o suficiente, saca? E tudo bem, cada um no seu tempo e no seu rolê.


A clínica, tal como reformulada por Lacan, não busca reforçar a realidade do sujeito, mas operar uma transformação na sua relação com aquilo que nele não se resolve (e insiste, se repete). Nesse sentido, o valor de uma experiência como o samādhi não está em sua repetição, mas no que dela resta. Um resto como furo e/ou ponto de impossível.


Se esse ponto não é imediatamente recoberto por sentido, ele pode operar como deslocamento. Não para completar o sujeito, mas para descompletar suas certezas. Talvez seja esse o uso mais rigoroso que se pode fazer enquanto se yoga, sobretudo você, professor de yoga/meditação. Não transformar o samādhi em promessa, nem em ideal, mas reconhecê-lo como aquilo que, por um instante, expõe o limite de toda construção de sentido. Não como solução, mas aquilo que insiste.


Referências Bibliográficas

BERNET, Rudolf.As pulsões de morte e o enigma da compulsão de repetição (Freud e Lacan). Revista Cultura, Lisboa, v. 35, 2016.DOI: https://doi.org/10.4000/cultura.2615

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TERÊNCIO, Marlos. Um percurso psicanalítico pela mística: de Freud a Lacan. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012.

 
 
 

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