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O que é a experiência do samadhi para um psicanalista e yogue?


Em primeiro lugar nenhum psicanalista, confrontado com a descrição do samadhi por um analisando(a) se perguntaria se sua experiência foi verdadeira ou falsa. Essa não seria sua questão. A pergunta dele seria outra: O que essa experiência fez com o sujeito do inconsciente? Essa mudança de pergunta altera completamente a discussão.


Freud já havia sido provocado por essa questão quando Romain Rolland lhe escreveu dizendo que a religião nasceria de um "sentimento oceânico": uma sensação de infinitude, de fusão com o universo, de dissolução das fronteiras do eu. Em O Mal-Estar na Civilização, Freud responde de maneira curiosa. Ele não nega que tal experiência exista, o que ele nega é que ela seja a origem da religião. Para Freud, trata-se provavelmente do retorno de um estado muito primitivo do psiquismo, anterior à diferenciação entre eu e mundo. Lacan herda essa discussão, mas a desloca profundamente. Para ele, não existe um "eu" originário que pudesse simplesmente voltar à unidade, já que todos nós já nascemos divididos pela linguagem. A falta não é um acidente; ela é estrutural. Por isso, a ideia de uma fusão definitiva com o Todo lhe pareceria extremamente problemática.


Suponhamos que um yogue diga: "Não existe mais eu." Um psicanalista provavelmente responderia: Quem está dizendo isso? Não por ironia, mas porque o sujeito do inconsciente nunca coincide plenamente com aquilo que diz de si mesmo. Da mesma forma, se alguém afirma: "Não sofro mais." Se perguntaria: O que aconteceu com o seu desejo? Pois, para a psicanálise, de um modo geral, o sofrimento neurótico nasce justamente da divisão do sujeito e da relação com o desejo, não apenas da dor.


Tudo bem, você diria, mas e se realmente houver uma transformação? Aqui a leitura fica muito mais interessante, pois Freud nem Lacan, p.e., jamais afirmaram que todos devam permanecer neuróticos. Ao contrário. Especialmente Lacan no último ensino (a partir dos anos 1970), passa a abandonar a ideia de cura como eliminação do sintoma e, em vez disso, propõe outra coisa: o sujeito inventa uma maneira singular de sustentar sua existência. É isso que ele chama de sinthoma.


O sinthoma não elimina o real (e não se perde aqui), ou seja, a morte, perdas, o corpo, o gozo ou a angústia tampouco, mas passa a reorganizar a forma como o sujeito consegue habitar tudo isso - tá me acompanhado tiozão? É um novo modo de amarração entre o Real, Simbólico e Imaginário. Deste modo, é provável que um psicanalista possa compreender que o samadhi, em alguns casos, possa passar a funciona como sinthoma, sobretudo a um lacaniano. Não porque o samādhi seja o sinthoma em si, entrementes, porque ele pode se tornar uma maneira singular de estabilizar o sujeito - respira fundo 3x, vai dar certo, calma.


Diferentemente do sintoma entendido como algo a ser interpretado ou eliminado, o sinthoma constitui uma invenção própria do sujeito que torna possível habitar sua existência sem suprimir a falta estrutural.


Pense em Ramana Maharshi. Após sua experiência aos dezesseis anos, toda sua existência passa a girar em torno de uma operação muito simples: "Quem sou eu?" Essa pergunta organiza sua vida inteira. Ela orienta sua fala, eu corpo, sua relação com os outros e posição diante da morte. Poderíamos supor que talvez aí encontraríamos uma invenção singular que amarra sua existência. Isso se aproxima muito da lógica do sinthoma. Entretanto, antes, todo psicanalista desconfiaria profundamente de uma certa espiritualidade que passe a funcionar como defesa.


Imagine alguém dizendo: "Nada me afeta." Isso pode significar pelo menos quatro coisas diferentes: uma elaboração muito profunda, um mecanismo de defesa, um estado depressivo ou foraclusão afetiva. Externamente, essas posições podem parecer semelhantes, mas estruturalmente, são completamente diferentes.


Perceba, o melancólico também pode dizer "o meu eu desapareceu", ou ainda: "nada mais importa." Mas o mecanismo é oposto do samādhi descrito por muitos yogues que insistem que o que desapareceu neles foi a identificação narcísica, mas que se mantém ainda uma enorme vitalidade (oposto da melancolia); ou seja, os yogues "realizados" (como se autorreferem) frequentemente aumentam sua capacidade de amar e sem perder seu interesse pelo mundo - sim, yogues "iluminados" continuam com tesão pela vida, caaso contrário, você nem os conheceria, certo? Na melancolia, entretanto, desaparece o valor do desejo, o investimento libidinal, tudo perde consistência e o sujeito passa a se identificar ao objeto perdido.


Por fora, ambos (iluminado e melancólico) pode parecer (sobretudo aos desatentos) um "desapego", mas "por dentro", são economias libidinais radicalmente distintas.


Para a psicanálise, insistiria nisso, sofrer não é apenas sentir dor, mas estar capturado numa determinada posição de gozo. Quando um analisante consegue modificar essa posição, o sofrimento pode diminuir enormemente. Contudo, isso não significa eliminar o Real: a morte continua, a angústia o visita, ele sente perdas contínuas, o corpo adoece... Ramana teve câncer, p.e. Enfim, o Real nunca desaparece para ninguém: Jesus morreu cruficicado depois de torturado e humilhado, chorando para que o Pai o salvasse.


Gozo pode ser definido por uma satisfação paradoxal, frequentemente acompanhada de sofrimento, na qual o sujeito permanece ligado a modos repetitivos de desejar, sofrer e obter satisfação, mesmo quando estes lhe são prejudiciais.


O sentimento oceânico seria um sinthoma?

Eu faria uma distinção. O sentimento oceânico, enquanto experiência episódica de fusão ou dissolução das fronteiras do eu, dificilmente seria chamado de sinthoma. Ele poderia ser pensado como um acontecimento de gozo, uma modificação da relação entre o imaginário, o simbólico e o real, ou mesmo como uma experiência mística. Por si só, não estabiliza uma estrutura, mas um modo de viver que se organiza.


Agora, a partir dessa experiência pode acontecer, eventualmente, que o sujeito que a experienciou (ou a "visita" com frequencia, como em práticas yoguicas/meditativas) venha a adquirir, num processo lento e gradual, função sinthomática. Tu consegue compreender aqui a diferença? Não é pois você, Sivananda ou Seu Zé da esquina teve uma experiência-limite de encontro com o Real, Deus ou Oxum que isso transforme a sua existência com um novo sentido.


O que interessa, segue o fio, não é o instante extraordinário, mas a invenção singular que permite ao sujeito sustentar seu desejo e sua existência sem pretender eliminar a falta. Mais simples (talvez), a questão decisiva não é alcançar um estado extraordinário de consciência (samadhi, moksa, nirvana, miração, transe...), mas encontrar uma forma singular de viver a partir dele, na qual o sofrimento deixe de organizar a existência sem que isso implique negar a finitude, a perda ou a incompletude próprias da condição humana. Se lendo isso, você se zanga porque deseja continuar imortal ou se sente especial, provavelmente, é o seu mecanismo de defesa negando que você seja, apenas, mais um humano, demasiadamente humano, criançola birrento fazendo escândalo no corredor do supermercado pois a mamãe negou seu nutella.


Uma hipótese de pesquisa

Talvez o que muitos mestres chamam de "libertação" não seja a supressão do sofrimento, mas a invenção de uma nova relação com ele. Em termos psicanalíticos, poderíamos perguntar se algumas práticas contemplativas favorecem uma transformação na economia do gozo, produzindo uma nova forma de amarração subjetiva. Essa amarração não aboliria o Real (como a doença, a perda, a morte, a castração e etc), mas alteraria (em potencial) a maneira como o sujeito é enlaçado por eles: agora pertenço a uma linhagem ancestral pura de yoga, tive uma experiência universal e me sinto a régua moral do mundo ou apenas me liguei na fantasia/maya em que vivia e me prendia em sofrer repetidamente.


Essa hipótese também abre uma crítica importante. Em vez de tomar todo discurso de iluminação como prova de uma verdade espiritual ou reduzi-lo a uma ilusão psicológica, poderíamos nos convidar (antes) a investigar caso a caso: essa experiência ampliou a possibilidade de desejar e de criar, ou se transformou num ideal imaginário que protege o sujeito do encontro com sua própria falta? É essa pergunta estrutural, e não a verificação de uma "iluminação" objetiva, que deveria orientar qualquer estudioso na relação com o yoga e suas experiências-limite ou sadhaka (alguém dedicado ao yogar/meditar) uma leitura madura dos grandes relatos de samādhi que conhecemos atualmente.

 
 
 
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