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O erotismo como experiência de perda das garantias do eu: considerações extemporâneas da leitura do Erótico em Bataille


Introdução

Uma questão surgiu em discussão no grupo de estudos em que realizamos sobre o trabalho de Bataille, O Erotismo, e que pode ser formulada assim: se tanto uma experiência meditativa profunda quanto uma experiência erótica podem produzir uma dissolução ou suspensão da experiência habitual do “eu”, o que, então, faz com que uma experiência seja propriamente erótica para Bataille?


A resposta exige uma distinção importante. Para Bataille, a dissolução do eu não é, por si só, suficiente para definir o erotismo. Uma experiência contemplativa pode levar à suspensão da identidade individual, à diminuição da oposição entre sujeito e objeto e até mesmo a uma experiência de continuidade. Nesse sentido, ela pode ser uma experiência-limite. O mesmo pode ocorrer no erotismo.


A diferença está na relação com o limite. Não se perde agora. Podemos imaginar o indivíduo como alguém que vive dentro de uma espécie de “mapa” - uma metáfora nossa, não um conceito de Bataille. Esse mapa organizaria as distinções fundamentais da existência: eu e outro, permitido e proibido, sujeito e objeto, vida e morte, puro e impuro, controle e perda de controle. A vida social depende, em grande medida, dessas fronteiras bem definidas. Uma prática contemplativa pode conduzir o praticante para além de algumas dessas distinções. Entrementes, essa experiência pode estar inserida em uma tradição que oferece já de antemão uma linguagem para reconhecê-la e interpretá-la: “isto é samadhi”, “isto é não-dualidade”, “isto é libertação”, isto é yoga, isso não. Há uma técnica, uma tradição, uma finalidade e uma cartografia para aquilo que está sendo experimentado.


Isso não significa que a experiência seja menos radical ou menos verdadeira. Significa apenas que existe uma estrutura simbólica capaz de acolhê-la.


O erotismo batailliano introduz uma diferença decisiva. Nele, a experiência extrema está ligada ao interdito e à transgressão. O sujeito não apenas ultrapassa suas fronteiras habituais; ele entra em contato com aquilo que sua própria organização (leia-se cultura se desejar ou as diretrizes dogmáticas de um yogar tradicional ou não determinou e determinou como limite. A transgressão, portanto, não significa simplesmente quebrar uma regra. Significa atravessar uma fronteira que constitui o próprio mundo do sujeito: o Tantra faz isso num período (mas agora fica massa o rolê), mas quando ele passa a ser a "regra", deixa de ser interdição-transgressão.


É por isso que o erotismo envolve simultaneamente desejo e angústia, atração e perigo, prazer e perda de controle. Ao atravessar o interdito, o sujeito pode experimentar não apenas a dissolução momentânea de sua individualidade, mas também a insuficiência das categorias com as quais normalmente compreende a si mesmo: perdemos as palavras, ficamos sem chão, não sei como descrever... o campo simbólico não consegue "capturar" em gramática o que se passou do encontro. É nesse ponto que a noção batailliana de “experiência interior” e de “não-saber” se torna fundamental. O problema não é simplesmente “perder o ego/eu”. É chegar a uma região em que já não seja possível dominar completamente, através das categorias habituais, aquilo que está acontecendo.


Podemos, então, distinguir as duas experiências sem separá-las completamente: (1) na experiência contemplativa, posso dissolver temporariamente o eu dentro de uma determinada cartografia da experiência; (2) na experiência erótica batailliana, posso atravessar uma fronteira que coloca em crise a própria cartografia que organizava minha experiência.

Isso não significa que o erotismo seja necessariamente “mais profundo” que a meditação, nem que toda meditação seja erótica. Significa que Bataille está particularmente interessado naquele ponto em que o sujeito deixa de estar inteiramente protegido pelas formas que normalmente lhe permitem saber quem é, onde está e o que está acontecendo. No yogar, muitas vezes, se perde a noção de eu e corpo, mas quando volta a todo um repertório já pré-estabelecido para dar conta do que houve (ou imaginamos assim). Por isso, talvez seja melhor dizer que o erotismo não é simplesmente uma experiência de dissolução do eu. É uma experiência de dissolução do eu acompanhada pela perda temporária das garantias que sustentavam esse eu.


E essa dissolução é apenas temporária, pois o indivíduo retorna à sua descontinuidade. É justamente essa passagem (do indivíduo separado à experiência de continuidade e novamente ao indivíduo) que dá ao erotismo sua dimensão vertiginosa. Nesse sentido, a metáfora da “geografia interior” ajuda a compreender Bataille: o erotismo não seria simplesmente chegar a outro lugar dentro de nós, mas habitar por um instante uma região na qual as fronteiras que normalmente organizam nosso território subjetivo deixam de funcionar plenamente. Yoga-alguma-coisa nenhum dará conta de descrever o que houve, pois até ele (esse yogar-alguma-coisa, tipo Iyengar-yoga ou Hatha-Vinyasa) não estava mais ali, sacou? É saber que não se sabe, e ninguém (mesmo a tradição com seu guru e repertório escriturário) sabe.


É aí que erotismo e meditação podem se aproximar: ambas podem conduzir ao limite da experiência ordinária do eu. Mas é também aí que podem se separar: o erotismo batailliano interessa-se particularmente pela transgressão das fronteiras e pelo não-saber que emerge quando já não conseguimos permanecer inteiramente senhores do território que habitamos.


 
 
 

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