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A disciplina do impossível: erotismo, Tantra, Yoga e a experiência de não se sentir dividido


1. O problema da divisão

Há uma questão que começa a aparecer quando colocamos em relação o erotismo de Georges Bataille, determinadas tradições tântricas, a disciplina yogue e aquilo que a psicanálise revelou acerca do desejo: por que o sujeito, constituído pela separação, insiste em buscar experiências nas quais essa separação parece suspender-se? A pergunta não diz respeito apenas ao sexo, à meditação ou à religião. Ela toca uma dimensão mais profunda da experiência humana, porque aquilo que desejamos, em muitos desses campos, parece ser justamente aquilo que não pode ser definitivamente alcançado: uma forma de continuidade, de não separação, de presença sem resto, na qual a distância entre sujeito e objeto, entre eu e outro, entre aquele que deseja e aquilo que é desejado, pudesse finalmente desaparecer.


O problema é que, se essa experiência fosse realmente alcançada como estado permanente, talvez já não houvesse sujeito para experimentá-la nem desejo para buscá-la. É nesse paradoxo que erotismo, transgressão, disciplina e desejo começam a se aproximar.


Bataille formula esse problema a partir da distinção entre continuidade e descontinuidade. Para ele, os seres humanos vivem como indivíduos descontínuos: cada um possui uma existência separada, um corpo delimitado, uma vida que começa e termina, e experimenta os outros como seres igualmente separados. Essa condição não é apenas biológica, mas está ligada à constituição histórica de uma humanidade organizada pelo trabalho, pela razão, pelos interditos e pela necessidade de conservar a vida. Entretanto, Bataille sustenta que permanece no indivíduo uma nostalgia da continuidade, isto é, uma busca por experiências nas quais as fronteiras que sustentam a individualidade possam ser momentaneamente ultrapassadas: pulsão de morte ou experimentar um não-eu. O erotismo é uma dessas experiências privilegiadas porque, diferentemente da sexualidade puramente reprodutiva, envolve uma dimensão humana de transgressão, excesso e perda dos limites ordinários do sujeito (BATAILLE, 1957).


A própria estrutura de seu livro O Erotismo é reveladora. Bataille passa pelo interdito, pela transgressão, pela morte, pelo sacrifício, pela sexualidade, pela experiência mística e pela relação entre erotismo e religião, indicando que jamais pretendeu circunscrever o erotismo ao comportamento sexual em sentido estrito (BATAILLE, 1957).


2. Bataille e a transgressão

A originalidade dessa formulação depende de uma compreensão específica da transgressão. Transgredir não significa simplesmente abandonar uma regra ou alcançar uma liberdade na qual todas as proibições desaparecem. A transgressão só adquire sua força porque existe um interdito que pode ser atravessado. Bataille não pensa, assim, uma oposição simples entre repressão e liberdade, mas uma relação estrutural entre interdito e transgressão: a proibição constitui o limite que a transgressão atravessa e, ao atravessá-lo, revela novamente sua existência. Por isso, o erotismo não corresponde à simples liberação de uma sexualidade natural que teria sido posteriormente reprimida pela sociedade; ele é uma experiência produzida na tensão entre aquilo que é permitido e aquilo que é interditado. O interdito não elimina o desejo, mas participa da constituição de sua intensidade (BATAILLE, 1957).


Essa relação entre interdito e transgressão é fundamental para evitar uma leitura banal de Bataille como pensador da “liberdade sexual”. A transgressão não é a ausência de limites, assim como o erotismo não é simplesmente o prazer sexual liberado de restrições morais. O que interessa a Bataille é justamente o momento em que o sujeito se aproxima do limite que organiza sua existência e, ao atravessá-lo, experimenta algo que não pode ser inteiramente reintegrado à ordem cotidiana: um encontro com o Real, aquilo que não se consegue definir em sua totalidade, pois não deixa de não se inscrever.


Essa experiência explica também a proximidade entre erotismo, sacrifício e morte. A morte representa o limite absoluto da descontinuidade individual, enquanto o erotismo permite experimentar, ainda em vida, uma perturbação das fronteiras que separam os indivíduos. Não se trata de reduzir o orgasmo a uma “pequena morte”, mas de compreender por que Bataille aproxima experiências nas quais a segurança da individualidade é colocada em suspensão e a morte, que dissolve definitivamente essa individualidade (BATAILLE, 1957).


3. As influências de Bataille

Esse pensamento não surgiu isoladamente. Bataille foi formado por uma combinação pouco convencional de filosofia, antropologia, sociologia, religião, mística e psicanálise. Entre suas referências intelectuais encontram-se Nietzsche, Hegel, particularmente através da interpretação de Alexandre Kojève, Freud, Durkheim e Marcel Mauss, além da tradição mística cristã, especialmente autores como João da Cruz; deste modo, Bataille não simplesmente reproduz essas influências, mas desloca problemas provenientes delas para uma investigação própria sobre o sagrado, a morte, o excesso, a soberania e a experiência interior (ARYA, 2017).


A influência de Mauss é especialmente importante para compreender a relação entre erotismo e dispêndio. A reflexão de Bataille sobre a dádiva, o sacrifício e o dispêndio se relaciona diretamente à antropologia de Mauss e posteriormente se amplia naquilo que ele denomina “economia geral”. Nessa perspectiva, a vida social não pode ser explicada exclusivamente pelos princípios de conservação, produção e utilidade. Existe sempre um excedente de energia, riqueza ou força que precisa ser despendido, consumido ou oferecido sem necessariamente retornar como benefício produtivo. Em A parte maldita, Bataille desenvolve essa perspectiva a partir de fenômenos como o potlatch e o sacrifício, fazendo do gasto improdutivo um problema central para a compreensão das sociedades (BATAILLE, 1949).


O potlatch é uma prática cerimonial de dádiva e, sobretudo, de distribuição ou destruição de riquezas praticada por povos originários da costa noroeste da América do Norte, especialmente entre grupos como os Kwakwaka'wakw, Tlingit e Haida. A ideia ficou conhecida na antropologia sobretudo através de Marcel Mauss, em Ensaio sobre a dádiva (1925), e posteriormente tornou-se central para Georges Bataille em sua reflexão sobre o “dispêndio”.

O ponto fundamental é que, no potlatch, a riqueza não é necessariamente acumulada para aumentar o patrimônio de quem a possui. Pelo contrário: um chefe pode oferecer enormes quantidades de alimentos, objetos, tecidos ou outros bens, podendo inclusive destruir riquezas, para demonstrar sua capacidade de dar. O prestígio (ou autoridade) não está simplesmente em possuir, mas em poder gastar e oferecer mais do que o outro consegue retribuir. Isso parece irracional do ponto de vista de uma economia baseada na acumulação.

E é justamente aí que Bataille se interessa pelo fenômeno.


É justamente essa crítica da utilidade que permite compreender a relação entre erotismo e trabalho. O trabalho exige cálculo, continuidade, previsão e conservação; o erotismo, em sua dimensão batailliana, introduz uma experiência de gasto/dispêndio que não se deixa inteiramente reduzir à finalidade produtiva. Não é casual, portanto, que Bataille associe erotismo, festa (o carnaval é ótimo exemplo a nós brasileiros), sacrifício, violência, êxtase e morte. Essas experiências possuem em comum a capacidade de interromper, ainda que provisoriamente, a economia ordinária na qual os indivíduos se comportam como unidades previsíveis, produtivas e autoconservadoras (BATAILLE, 1949; BATAILLE, 1957).


4. O problema da divisão e o inconsciente

É nesse ponto que a psicanálise introduz uma torção decisiva. Se o sujeito fosse simplesmente um indivíduo inteiro que, em determinado momento, sofre uma ruptura, poderíamos imaginar que a experiência de continuidade seria uma espécie de retorno a uma unidade anterior - essa é, no meu entender hoje, a principal crença entre os yogues brasileiros: o desejo de retornar a uma unidade perdida, o que os fazem mais próximos a crentes de uma religião yoga que promete essa salvação, libertação ou fim de uma ilusão. Mas a descoberta psicanalítica permite formular a questão de maneira mais radical: a divisão não é simplesmente um acidente que aconteceu ao sujeito; ela constitui o próprio sujeito.


O sujeito (este assujeitado as leis e normas de uma dada sociedade e sua cultura - que já existia quando este "chegou" nela) não coincide integralmente consigo mesmo porque aquilo que deseja não se reduz ao que sabe desejar, e porque o objeto capaz de satisfazê-lo nunca coincide definitivamente com aquilo que falta. O desejo não se organiza como uma necessidade que encontra finalmente seu objeto adequado; ele se sustenta justamente na distância que nenhum objeto consegue abolir de maneira permanente.


Por isso, a expressão “voltar a não se sentir dividido” precisa ser modificada. Ela é interessante porque reconhece que existem experiências nas quais a divisão subjetiva parece diminuir ou suspender-se, mas se torna problemática quando pressupõe que existiria uma unidade original à qual o indivíduo poderia retornar. Seria mais rigoroso falar em uma experiência momentânea de suspensão ou perturbação da divisão que constitui o sujeito - a meditação não devocional promove esse des-encontro com o estranho/estrangeiro em nós (não é coincidência savasana ou postura do morto, finalizar as práticas de yoga hoje).


A continuidade batailliana não precisa ser entendida como uma lembrança psicológica de um estado primordial efetivamente vivido pelo indivíduo. Ela designa, antes, o horizonte de uma experiência na qual a descontinuidade própria da existência individual deixa de funcionar segundo suas coordenadas habituais (BATAILLE, 1957). A literatura sobre Bataille enfatiza justamente a relação entre descontinuidade, morte, erotismo e busca de continuidade (ARAÚJO, 2020; LOPES, 2024).


5. O Tantra como problema histórico

É aqui que o encontro com o Tantra se torna intelectualmente interessante, mas somente se abandonarmos a ideia de que existe um “Tantra” único. O trabalho de Hugh Urban é particularmente útil porque não toma o Tantra como uma abstração trans-histórica. Em seu capítulo “Desire, Blood, and Power”, publicado em Negative Ecstasies: Georges Bataille and the Study of Religion, Urban coloca Bataille em diálogo com o culto da deusa Kāmākhyā, no Assam, no nordeste da Índia. Seu objetivo não é afirmar uma identidade entre Bataille e o Tantra, mas utilizar e ao mesmo tempo repensar criticamente as categorias bataillianas de erotismo, sacrifício e transgressão diante de uma tradição religiosa concreta (URBAN, 2015).


Kāmākhyā pertence ao universo Śākta, no qual Śakti, a potência divina associada à Deusa, ocupa uma posição central desta comunidade religiosa do campo hinduísta. O templo de Kāmākhyā, localizado em Nilachal Hill, na atual Guwahati, constitui um importante centro de culto e peregrinação associado a tradições tântricas de Kāmarūpa. A literatura relacionada ao culto inclui textos como o Kālikā Purāṇa, o Yoginī Tantra, o Kāmākhyā Tantra e o Kāmarūpa Tantra, entre outros, e a tradição textual não deve ser tratada como se constituísse um único corpus homogêneo ou tivesse sido produzido por um fundador individual (URBAN, 2015).


Esse ponto é essencial porque modifica radicalmente o significado da palavra “Tantra”. Não estamos diante de uma religião fundada por um mestre chamado Tantra, nem de uma doutrina única que possa ser resumida em algumas práticas sexuais. Estamos diante de um conjunto histórico de tradições religiosas, linhagens, especialistas rituais, textos, cosmologias e formas de prática que se desenvolveram em diferentes regiões do sul da Ásia. O caso de Kāmākhyā é particularmente significativo porque articula culto à Deusa, geografia sagrada, ritual, sangue, fertilidade, poder e práticas tântricas dentro de uma formação histórica específica (URBAN, 2015).


6. Kāmākhyā, Śakti, sangue e potência

A centralidade da yoni em Kāmākhyā ajuda a perceber o quanto seria inadequado traduzir esse universo diretamente para o vocabulário moderno da “sexualidade espiritual”. O centro do santuário é associado à yoni da Deusa, e a própria materialidade do lugar participa da experiência religiosa. O culto não transforma simplesmente um símbolo sexual em alegoria espiritual; a corporeidade, a fertilidade e a potência da Deusa pertencem à própria estrutura cosmológica do culto. O Ambubachi, festival religioso popular (como o carnaval, no sentido que pertence ao calendário espiritual de uma dada comunidade e não a uma religião em específica - mesmo que seja) associado à menstruação anual da Deusa, torna esse aspecto particularmente evidente. O sangue menstrual, em vez de ser tratado simplesmente como aquilo que deve ser excluído da esfera religiosa, é integrado à economia ritual do sagrado (URBAN, 2015; DAS, 2025).


Yoni (योनि) é uma palavra sânscrita que significa, em sentido literal, “útero”, “vulva” ou “órgão sexual feminino”, mas seu campo semântico é mais amplo: pode significar também fonte, origem, lugar de nascimento, matriz ou receptáculo.


É precisamente aqui que Bataille se torna uma ferramenta comparativa poderosa. Sua reflexão sobre a relação entre interdito, impureza, sacrifício e transgressão oferece uma linguagem capaz de iluminar aquilo que ocorre quando uma categoria considerada liminar ou impura é convertida em lugar de potência religiosa. Urban, entretanto, é cuidadoso em não simplesmente confirmar Bataille. O caso de Kāmākhyā também revela limitações de sua teoria, sobretudo porque a sexualidade feminina e a agência das mulheres possuem uma importância que não pode ser inteiramente acomodada às formulações bataillianas (URBAN, 2015).


7. Urban e o encontro entre Bataille e o Tantra

A diferença é fundamental. Em Bataille, a transgressão interessa como experiência-limite que coloca o sujeito diante daquilo que excede a ordem ordinária. No Tantra de Kāmākhyā, por outro lado, a transgressão não precisa ser uma ruptura espontânea da ordem: ela pode estar inscrita em uma ordem ritual que define quem pode fazer o quê, em quais condições, em que lugar, em que momento e mediante quais procedimentos.


A transgressão pode, portanto, ser produzida pela própria disciplina. Essa é uma das razões pelas quais a fórmula meio senso-comum que o “Yoga pensa a disciplina; Tantra combina os dois” precisa ser refinada. O problema não é simplesmente que o Tantra coloque ordem e transgressão lado a lado, mas que determinadas tradições tântricas possam construir uma ordem ritual capaz de incorporar aquilo que a ordem social ordinária exclui.


Nesse sentido, a disciplina deixa de ser simplesmente o contrário da transgressão (não se perde aqui). Ela pode ser a condição de sua realização ritual, pois o praticante/yogue/tantrika não é autorizado a fazer qualquer coisa em nome da transcendência; ele entra em uma tradição, recebe uma iniciação, aprende procedimentos, utiliza mantras, realiza práticas específicas e se insere em uma relação de transmissão. Quando práticas transgressivas aparecem, elas não são necessariamente a expressão espontânea do desejo individual, mas elementos de uma tecnologia ritual inscrita em uma cosmologia e em uma tradição (leia de novo essa sentença com atenção). É precisamente essa diferença que impede que o Tantra seja reduzido à ideia contemporânea de “liberação sexual”.


8. Meditação e transformação da experiência

A comparação se torna ainda mais interessante quando deslocamos o olhar para outras tradições tântricas. O Vijñānabhairava, associado ao Śaivismo não-dual da Caxemira, constitui um exemplo muito diferente do universo de Kāmākhyā, mas importante para a questão da meditação. O texto apresenta 112 formas de dhāraṇā, práticas destinadas a transformar a experiência da consciência, e sua importância dentro das tradições do Śaivismo da Caxemira é amplamente reconhecida. Estudos recentes ressaltam que essas práticas abrangem diferentes modalidades de atenção, incluindo métodos relacionados à respiração e à suspensão ou transformação da atividade conceitual (KIM, 2024).


Isso permite evitar outro erro frequente: supor que o Tantra seja necessariamente sexual (coito). O Vijñānabhairava mostra que a meditação, a respiração, a atenção e a transformação da consciência podem ocupar lugar central em uma tradição tântrica sem que a sexualidade seja reduzida à sua finalidade. Ao mesmo tempo, o fato de existirem textos e tradições com forte presença de práticas sexuais ou transgressivas não significa que essas dimensões possam ser generalizadas para todo o Tantra - pois estamos nos referindo aqui ao erótico como essa experiência-limite que toca o Real. A comparação entre Kāmākhyā e o Vijñānabhairava é justamente útil porque evidencia a pluralidade interna do campo tântrico.


9. Disciplina e transgressão

É nesse ponto que a hipótese sobre a disciplina do impossível ganha força. Uma determinada prática pode ser extremamente ordenada, precisa e repetitiva e, no entanto, ter como horizonte uma experiência na qual as coordenadas ordinárias dessa ordem deixam de funcionar da mesma maneira. A prática meditativa regula a atenção, o corpo e a respiração, mas aquilo que ela busca em determinadas tradições não é simplesmente produzir um indivíduo mais controlado. O objetivo pode ser transformar a própria estrutura através da qual sujeito e mundo são experimentados.


O paradoxo consiste em utilizar uma técnica para alcançar uma experiência que não se deixa reduzir à técnica. Essa estrutura permite aproximar, sem confundir, Yoga, Tantra e Bataille. Em determinados contextos yogues, a disciplina do corpo, da respiração e da atenção constitui o próprio caminho para uma transformação radical da experiência. Em determinadas tradições tântricas, práticas altamente reguladas podem incorporar elementos que a ordem ordinária classificaria como impuros ou transgressivos. Em Bataille, a transgressão atravessa o interdito e produz uma experiência-limite. Em todos esses casos, encontramos uma estrutura paradoxal: uma ordem pode ser construída para alcançar aquilo que está além da ordem.


10. O desejo e a impossibilidade da completude

Esse paradoxo não é estranho à psicanálise. O sujeito pode organizar cuidadosamente sua vida para alcançar aquilo que acredita que finalmente o fará completo, mas a própria estrutura do desejo faz com que a completude permaneça deslocada. Quanto mais se aproxima do objeto que deveria preencher a falta, mais evidente pode tornar-se que o objeto não era aquilo que realmente sustentava o desejo.


A busca de uma experiência de unidade pode, assim, ser interminável precisamente porque aquilo que ela tenta alcançar não existe como objeto disponível. O sujeito não deseja simplesmente uma coisa; deseja aquilo que imagina que a coisa lhe proporcionará, e essa promessa excede qualquer objeto particular.


É possível, então, formular uma hipótese comum entre Bataille e determinadas formas de prática tântrica e yogue sem afirmar que suas tradições sejam equivalentes: o ser humano produz técnicas, rituais e experiências para se aproximar de uma experiência que não pode ser transformada em posse definitiva.


Bataille chega a essa fronteira através do erotismo, do sacrifício e da transgressão; determinadas tradições tântricas chegam através da manipulação ritual da potência; certas formas de Yoga e meditação chegam através da disciplina da atenção, do corpo e da consciência. A psicanálise acrescentaria que o próprio desejo de alcançar essa experiência já é marcado por uma impossibilidade estrutural.


11. Erotismo, espiritualidade e captura contemporânea

Isso também permite compreender melhor por que o erotismo possui para Bataille uma relação tão estreita com a morte. A morte é o limite absoluto da descontinuidade individual, enquanto o erotismo permite experimentar, sem produzir necessariamente a morte, uma perturbação dos limites que separam os indivíduos. A continuidade batailliana não é, portanto, um estado psicológico de bem-estar. Ela é precisamente aquilo que ameaça a segurança do indivíduo. A experiência de continuidade envolve perda de soberania sobre si, exposição, risco e proximidade com aquilo que o sujeito não consegue controlar (BATAILLE, 1957).


É aqui que começa a aparecer o problema político da espiritualidade contemporânea. Se o erotismo, a meditação ou a prática tântrica podem colocar em questão a forma ordinária do sujeito, o que acontece quando essas experiências são transformadas em técnicas destinadas justamente a aperfeiçoar esse sujeito?


A pergunta não é meramente moral e não exige supor que toda prática contemporânea seja falsa ou corrompida. Trata-se de observar uma mudança possível de função: uma prática que, em determinado contexto, poderia confrontar o indivíduo com a instabilidade de sua identidade pode, em outro contexto, ser mobilizada para produzir um indivíduo mais eficiente, mais adaptado, mais produtivo e mais capaz de administrar suas emoções.


A meditação pode ser apresentada como instrumento de concentração e desempenho; o Yoga, como método de construção de um corpo saudável e desejável; práticas tântricas, como técnicas para melhorar a vida sexual; retiros, como mecanismos de recuperação subjetiva para retornar ao trabalho. Nesse deslocamento, a experiência espiritual não desaparece, mas pode ser subordinada a uma nova finalidade: não mais transformar radicalmente a relação do sujeito com sua divisão, mas ajudá-lo a funcionar melhor dentro dela.


12. O mestre, a técnica e a promessa de completude

Talvez seja nesse ponto que a aproximação com a psicanálise se torne mais incômoda. O problema não está simplesmente em saber se o sujeito encontra ou não a iluminação, o êxtase ou a unidade. A questão é saber o que ele espera encontrar nesses estados. Se a promessa é a eliminação definitiva da divisão, pode-se suspeitar que a prática esteja sendo organizada em torno de uma fantasia de completude. Quanto mais o sujeito acredita que existe um estado final no qual finalmente deixará de faltar alguma coisa, mais sua falta pode ser transformada em motor de acumulação: mais prática, mais retiro, mais iniciação, mais conhecimento, mais experiências, mais estados especiais de consciência.


É possível, assim, produzir uma curiosa forma de sujeito espiritual: alguém que busca dissolver o ego e, ao mesmo tempo, constrói uma identidade cada vez mais sofisticada em torno dessa busca. A pessoa pode acumular experiências, linhagens, certificados, conhecimentos, retiros e discursos sobre transcendência, enquanto permanece submetida à mesma lógica de identificação que pretendia ultrapassar. Não há aqui uma acusação contra o praticante; há uma questão estrutural sobre o modo como o desejo pode ser capturado por uma promessa de completude.


Esse problema também permite reconsiderar a figura do mestre. Em determinadas configurações religiosas, o mestre não é simplesmente um professor que transmite informações. Ele ocupa uma posição de transmissão e autoridade dentro de uma tradição. O problema aparece quando, na espiritualidade contemporânea, essa posição é reorganizada pela lógica do consumo e da promessa. O mestre passa a ser aquele que supostamente possui aquilo que falta ao praticante, e a técnica torna-se o caminho pelo qual o indivíduo poderia adquirir esse estado.


13. Quando a transgressão vira tecnologia

Isso nos permite retornar à crítica de Bataille à utilidade. Se o erotismo é uma experiência ligada ao excesso e ao gasto, sua transformação em mercadoria produz um paradoxo: aquilo que deveria interromper a lógica da utilidade passa a ser vendido como instrumento útil. O excesso torna-se serviço; o êxtase torna-se produto; a transgressão torna-se experiência programada; a espiritualidade torna-se tecnologia de autogerenciamento.


Essa transformação não precisa ser entendida como uma simples falsificação do passado, porque as tradições históricas sempre foram atravessadas por instituições, autoridades, mercados e formas de poder. O que muda é a forma específica pela qual essas experiências são enquadradas na contemporaneidade.


A transgressão não precisa ser proibida para ser neutralizada; basta que seja transformada em técnica. O excesso não precisa desaparecer para ser domesticado; basta que adquira uma função útil. Assim, talvez seja possível formular uma das perguntas mais importantes para o nosso estudo: o que acontece com o erotismo quando aquilo que antes ameaçava a ordem passa a ser utilizado para reproduzi-la?


14. Uma hipótese sobre o impossível

É possível agora retornar à formulação que deu origem a todo esse percurso: Bataille pensa a transgressão, o Yoga pensa a disciplina e determinadas formas de Tantra articulam disciplina e transgressão.


A formulação ainda precisa de uma última correção. O que interessa não é simplesmente que essas tradições ofereçam diferentes caminhos para alcançar uma experiência de unidade. O ponto mais interessante é que elas nos colocam diante de uma experiência que, por sua própria natureza, não pode ser inteiramente convertida em objeto de posse. Em determinadas tradições tântricas, a disciplina ritual pode organizar uma experiência que pretende ultrapassar as classificações ordinárias; em determinadas tradições yogues, a disciplina pode orientar o praticante para uma transformação radical da experiência; em Bataille, a transgressão atravessa o interdito para produzir uma experiência-limite.


A diferença é que Bataille não oferece uma técnica sistemática de salvação. Seu interesse está na experiência do limite, no excesso e na soberania que emerge quando o indivíduo é colocado diante daquilo que não pode controlar. O Tantra, em suas diferentes formações, possui tradições rituais, cosmologias e soteriologias próprias; o Yoga possui suas próprias genealogias disciplinares e seus próprios objetivos de libertação. Não devemos transformar essas diferenças em detalhes secundários, porque é justamente delas que depende a possibilidade de uma comparação intelectualmente séria.


15. Conclusão: aprender a não ser inteiro

A comparação, portanto, não deveria concluir que Bataille “descobriu” o Tantra ou que o Tantra antecipou Bataille. Ela deveria perguntar o que acontece quando duas formações intelectuais e religiosas muito diferentes são colocadas diante de um problema semelhante: como o sujeito pode experimentar algo que excede as fronteiras através das quais ele próprio se constitui?


Bataille responde privilegiando o erotismo, a transgressão, o excesso e a experiência interior; certas tradições tântricas respondem através da transformação ritual da potência, inclusive incorporando elementos considerados impuros ou transgressivos; tradições yogues e meditativas respondem por meio de disciplinas destinadas a modificar a relação com o corpo, a mente, a atenção e a consciência.


A psicanálise acrescenta que talvez o erro esteja em imaginar que a experiência final deveria abolir a divisão. O sujeito deseja a completude porque é dividido, mas isso não significa que exista uma completude disponível em algum lugar. O desejo de não ser dividido pode ser justamente uma das formas pelas quais a própria divisão se manifesta.


Essa hipótese modifica também o sentido de uma espiritualidade transgressora. Talvez uma prática seja verdadeiramente transgressora não quando promete ao indivíduo que ele finalmente se tornará inteiro, mas quando o confronta com aquilo que sua fantasia de completude procura evitar. Uma prática pode produzir êxtase, silêncio, prazer, dissolução dos limites ou experiências de continuidade; mas sua potência crítica talvez dependa menos da intensidade dessas experiências do que daquilo que elas fazem com a posição do sujeito diante de seu próprio desejo.


A questão contemporânea, insistiria, não seria simplesmente saber se o erotismo sobreviveu ou desapareceu. A questão mais radical é saber o que acontece quando uma experiência originalmente associada ao risco de perder a forma ordinária do sujeito é transformada em tecnologia destinada a aperfeiçoá-la. O erotismo pode continuar existindo, mas já não necessariamente como transgressão; a meditação pode continuar produzindo estados alterados de experiência, mas pode ser utilizada para tornar o indivíduo mais produtivo; o Tantra pode continuar mobilizando linguagens de potência e transformação, mas pode ser convertido em técnica de consumo sexual; o Yoga pode continuar carregando tradições de libertação, mas pode ser reorganizado como prática de autogerenciamento.


É nesse ponto que Bataille deixa de ser apenas um autor sobre erotismo e passa a oferecer uma ferramenta para pensar criticamente a espiritualidade contemporânea. Sua pergunta não é simplesmente como podemos sentir mais prazer, mas o que acontece quando aquilo que excede a economia ordinária é capturado por uma economia que transforma tudo em recurso. A psicanálise permite acrescentar outra pergunta: o que acontece quando o sujeito transforma sua própria falta em projeto interminável de aperfeiçoamento?


Talvez seja nesse cruzamento que a expressão “tecnologia psíquica das massas” encontre seu sentido mais forte. Não se trata simplesmente de afirmar que a meditação, o Yoga ou o Tantra foram cooptados pelo capitalismo. Isso seria historicamente pobre e teoricamente previsível. O problema mais interessante é compreender como uma prática que originalmente podia colocar em questão a forma do sujeito pode ser reorganizada para produzir sujeitos ainda mais adequados às exigências de seu tempo.


A questão não seria retornar a uma suposta pureza perdida do Tantra, do Yoga ou do erotismo. Não houve uma época histórica na qual essas tradições existissem fora das relações de poder, das instituições, das hierarquias e das disputas de interpretação. Tampouco seria possível transformar Bataille em profeta de uma espiritualidade libertária. O que podemos fazer é preservar a tensão que atravessa essas tradições e que a contemporaneidade tende a neutralizar: a tensão entre disciplina e excesso, entre ordem e transgressão, entre desejo e impossibilidade, entre a necessidade de constituir um sujeito e o desejo de ultrapassar sua forma ordinária.


Pensando nisso, a verdadeira experiência de não divisão não seja aquela na qual o sujeito finalmente deixa de ser dividido, mas aquela na qual ele pode experimentar, sem imediatamente convertê-la em mercadoria, doutrina ou identidade, a instabilidade dessa divisão. Nesse sentido, o impossível não precisa ser aquilo que fracassamos em alcançar. Pode ser aquilo que sustenta o próprio desejo de ultrapassar nossos limites.


E talvez seja precisamente aí que Bataille e certas tradições do Yoga e do Tantra possam conversar de maneira intelectualmente produtiva: não porque ofereçam a mesma resposta, mas porque nos permitem perguntar por que precisamos de tanta disciplina para tocar aquilo que nenhuma disciplina pode garantir, por que transgredimos justamente aquilo que nos constitui e por que continuamos buscando, através do corpo, do erotismo, da meditação e do sagrado, uma experiência de continuidade que talvez só possa existir enquanto experiência fugaz de algo que não podemos possuir.


Referências bibliográficas

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