Entre Impérios e Bárbaros: Yoga, Declínio e a Invenção de uma Arte do Corpo-Yogue
- PhD. Roberto Simões

- há 2 dias
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Resumo
Este ensaio propõe uma leitura psicanalítica e antropológica das narrativas de decadência associadas ao yogar contemporâneo (o postural moderno e outras ainda sem-nome dado por cientistas e a classe sacerdotal), frequentemente articuladas à ideia de perda de uma suposta essência espiritual e filosófica. A partir de um paralelo com o declínio do Império Romano e com reconfigurações geopolíticas atuais, argumenta-se que a figura do “bárbaro” opera como projeção do mal-estar interno de sistemas hegemônicos em crise. Mobilizando conceitos de Freud, Lacan, Pierre Clastres e Roberto Propheta Marques, o texto sugere que o chamado “declínio” pode ser lido como abertura para formas não centralizadas de prática. Ao final, propõe-se pensar o yoga como “arte do corpo”, deslocando-o de uma estrutura imperial para uma lógica de experimentação, multiplicidade e invenção.
Palavras-chave: yoga; psicanálise; antropologia; corpo; poder; barbárie.
Estado da arte
A crítica ao yoga moderno tem sido amplamente desenvolvida nas últimas décadas, especialmente no que diz respeito à sua relação com processos coloniais, biomédicos, estético, éticos e capitalistas. Autores têm apontado como o yogar contemporâneo (todos aqueles sem ou pós-linhagem)se afastou de seus contextos históricos, tornando-se uma prática globalizada, frequentemente alinhada a lógicas terapêuticas e mercadológicas. No campo da psicanálise, conceitos como o “estranho” (FREUD, 2019) e a função do Nome-do-Pai (LACAN, 1992) permitem compreender como sistemas simbólicos se organizam em torno de fantasias de unidade e pureza. Já na antropologia, Pierre Clastres (2003) introduz uma ruptura fundamental ao pensar sociedades que operam ativamente contra a centralização do poder.
No Brasil, autoras como Katz e Greiner (2005) nos auxiliam e deslocam o entendimento do corpo como dado natural, propondo-o como campo de produção de sentido. Mais recentemente, Roberto Propheta Marques (2023) sugere que o yoga pode ser compreendido como acontecimento estético-político do corpo.
Problema de pesquisa
Por que determinadas correntes do yoga contemporâneo (sem ou pós-linhagem) insistem em narrativas de decadência e perda de essência frente às transformações culturais e geopolíticas atuais?
Hipótese
A hipótese central é que tais narrativas não descrevem uma perda real, mas funcionam como formações sintomáticas diante do declínio de estruturas hegemônicas. O “bárbaro” é aqui representado por práticas híbridas, latino-americanas ou não alinhadas à tradição espiritual/filosófica hegemônica pode ser compreendido menos como agente de destruição e mais como operador que (possui o potencial) revela a inconsistência do próprio sistema que o nomeia como ameaça.
Objetivos
Objetivo geral
Analisar criticamente as narrativas de decadência no yogar sem-linhagem a partir de uma articulação entre psicanálise e antropologia.
Objetivos específicos
Investigar a função da figura do “yogue-bárbaro” como construção simbólica;
Relacionar o declínio de sistemas "yoguicos-imperialistas" com reações conservadoras no campo moderno do yoga;
Aplicar a teoria de P.Clastres para pensar o yoga fora de uma lógica centralizadora;
Pensar o conceito de “arte do corpo” como alternativa teórico-prática a um yogar sem -linhagem ou "bárbaro".
Desenvolvimento
A ideia de “invasões bárbaras” historicamente operou como narrativa de defesa. No caso do declínio do Império Romano, o que se nomeia como invasão externa pode também ser compreendido como manifestação de tensões internas (econômicas, políticas e simbólicas) que tornavam insustentável a imagem de unidade do império. O “bárbaro” surge, assim, menos como causa e mais como operador de revelação de um desequilíbrio já em curso. Freud (2019) demonstra como o estranho não é o absolutamente outro, mas aquilo que retorna após ter sido recalcado. O bárbaro, nesse sentido, pode ser lido como figura desse retorno: não aquilo que vem de fora, mas aquilo que o sistema não consegue mais integrar.
No campo do yoga atial, essa lógica pode encontrar ressonância. Certas leituras puristas dos Yoga Sutras de Patanjali constroem uma fantasia de origem pura, frequentemente associada a uma autoridade textual e a linhagens legitimadoras. Evidentemente, tais interpretações não esgotam a pluralidade histórica e das possibilidades de se yogar, mas indicam uma possível tendência recorrente de centralização simbólica. Tudo aquilo que escapa a esse eixo (especialmente práticas híbridas, como as latino-americanas ou críticas a própria hegemonia senso-comum do que é yoga) tende a ser nomeado como degeneração, por vezes articulado à noção de Kali Yuga. Tal operação pode ser compreendida como expressão de uma nostalgia do Pai. Para Lacan (1992), o Pai é uma função simbólica que organiza o desejo (não significa aqui, em absoluto, a figura do homem, mas aquele que inscreve a norma, a Lei); quando sua consistência vacila, emergem tentativas de outra reinscrição dessa autoridade, frequentemente por meio da exclusão.
Em muitos contextos contemporâneos, figuras políticas como Donald Trump podem ser lidas como expressões desse tipo de reação à perda de centralidade, nas quais a tentativa de restaurar um centro se articula a movimentos de fechamento e rejeição do outro. É nesse ponto que a contribuição de Clastres (2003) permite uma inflexão importante. Ao pensar sociedades contra o Estado, ele demonstra que nem toda organização social tende à centralização; há formas que operam precisamente para impedir a concentração de poder.
Aplicado ao yoga, isso abre a possibilidade de pensar práticas que não se organizam em torno de um centro único de legitimação. O chamado “bárbaro” pode, nesse contexto, ser reinterpretado como operador de descentralização. Essa hipótese encontra ressonância no trabalho de Marques (2023), que sugere que o yoga pode ser compreendido como acontecimento estético-político do corpo, posteriormente atravessado por processos de sistematização e regulação. Aquilo que hoje se apresenta como tradição pode ser lido, em uma chave interpretativa específica, como resultado de processos históricos de estabilização de práticas originalmente mais heterogêneas.
Se seguirmos essa linha, torna-se possível avançar uma proposição: o yoga (e seus yogues e yogares) pode, em determinadas condições, ser pensado como uma espécie de máquina bárbara de desorganização do gozo. Trata-se aqui de uma hipótese teórica que não pretende descrever uma essência do yoga, mas indicar uma de suas possíveis operações quando não inteiramente capturada por regimes normativos. O termo “máquina” remete ao modo como Deleuze e Guattari (1995) concebem os agenciamentos como produtores de realidade e de fluxos de desejo. Já o “bárbaro” designa aquilo que escapa à captura por um centro organizador.
Na leitura de Lacan (1985), o gozo tende a ser organizado por uma lógica fálica. Uma prática que o desorganiza não o elimina, mas o desloca, introduzindo uma lógica do não-todo. Nesse ponto, o paralelo com Clastres se radicaliza: assim como há sociedades contra o Estado, poderíamos pensar também em yogares contra um “Estado do corpo”; isto é, contra sua normalização e captura por regimes fixos de sentido. Essa perspectiva converge com a noção de corpo desenvolvida por Katz e Greiner (2005), para quem o corpo não é dado natural, mas campo de produção de sentido. Pensar yogas como artes do corpo implica deslocá-los de um sistema normativo para um campo de experimentação.
Evidentemente, o campo do yoga é historicamente plural e atravessado por múltiplas tradições, muitas vezes divergentes entre si, o que impede qualquer leitura totalizante. Ainda assim, é possível sustentar que, no interior dessa pluralidade, há uma tensão constante entre captura e invenção. Não há garantia de que a desorganização do gozo produza efeitos emancipatórios. Ela pode engendrar novas formas de captura; mas é apenas nesse campo instável que algo diferente pode emergir.
Considerações finais
Este ensaio buscou demonstrar que as narrativas de decadência no campo yoguico contemporâneo podem ser compreendidas como sintoma de estruturas que enfrentam a perda de sua centralidade simbólica. Os “yogues bárbaros” (estes yogues sem-linhagem), longe de serem apenas uma ameaças externas, podem ser lidos como operadores que revelam tal inconsistência.
A articulação entre psicanálise e antropologia permitiu deslocar o problema da perda de essência para a questão da invenção de formas - e novas forças libidinais yoguicas. Nesse sentido, o yoga pode ser pensado como campo aberto de práticas, estéticas e éticas, atravessado por disputas, capturas e experimentações. A contribuição de Marques (2023) reforça que o que está em jogo não é o resgate de uma origem, mas a reativação de potências frequentemente tensionadas por processos de normatização. Se há um “declínio”, ele pode não indicar o fim de algo, mas a transformação de suas condições de existência. E fica uma questão sem resposta (dentre tantas outras): quais estéticas de yoga ainda não existem por insistirmos em apenas proteger aquilo que talvez nunca tenha sido um centro estável, mas uma fantasia (maya) de yogues impotentes?
Referências
BRYANT, Edwin F. The Yoga Sutras of Patañjali: a new edition, translation, and commentary. New York: North Point Press, 2009.
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 1. São Paulo: Editora 34, 1995.
FREUD, Sigmund. O estranho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
KATZ, Helena. Um, dois, três: a dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005.
KATZ, Helena; GREINER, Christine. Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969–1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972–1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
MARQUES, Roberto Propheta. Uma fabulação do Yoga: a dimensão política do corpo como acontecimento estético. 2023. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2023.
PATAÑJALI. The Yoga Sutras of Patañjali. Tradução e comentário de Edwin F. Bryant. New York: North Point Press, 2009.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002.




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