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Maya, fantasia e gozo: o yoga entre a sustentação e a travessia da ilusão

A noção de ilusão atravessa, de modos distintos, tanto as tradições filosóficas da Índia quanto a psicanálise. No Vedānta, ela aparece sob o conceito de maya: não como simples erro perceptivo, mas um poder (siddhi?) de projeção que faz o mundo aparecer como consistente, substancial, dotado de realidade e sentido próprio. Na psicanálise, especialmente em Jacques Lacan, essa função é exercida pela fantasia: estrutura que organiza o desejo, sustenta o sujeito e, ao mesmo tempo, vela o real.


A aproximação entre maya e fantasia não é apenas analogia superficial entre “ilusão oriental” e “ilusão psíquica”. Trata-se de uma convergência estrutural mais radical: em ambos os casos, não estamos diante de um erro que poderia ser simplesmente corrigido, mas de uma condição constitutiva da experiência.


Como já indicado por leituras contemporâneas que aproximam o pensamento budista da psicanálise lacaniana, a realidade, para o sujeito, é sempre mediada por estruturas simbólicas e imaginárias que organizam a percepção e o desejo. Nesse sentido, tanto a noção de “vazio” (śūnyatā) quanto a de fantasia apontam para um mesmo problema: aquilo que aparece como realidade é sustentado por uma trama de projeções, identificações e nomeações que ocultam sua inconsistência fundamental.


Mas há uma diferença decisiva: enquanto as tradições religiosas não-duais tendem a propor a dissolução da ilusão, a psicanálise, desde Sigmund Freud, insiste que o sujeito não pode simplesmente abrir mão dela. A fantasia não é apenas aquilo que engana, é também aquilo que sustenta o gozo.


O gozo lacaniano pode ser lido por uma satisfação que vai além do prazer; por isso se repete, mesmo com sofrimento. Ou ainda, um padrão de satisfação inconsciente que se mantém - mesmo que nos faça (conscientemente) sofrer. Isso ocorre, pois há desejos "não aceitos socialmente" que podem precisar se expressar para "se/nos resolver".

É ali (fantasiando ou mayando) que a articulação com o yoga e a meditação se torna particularmente fecunda.


O yoga como cenário da fantasia

No imaginário do campo espiritual "nova era", o yoga aparece frequentemente como técnica de apaziguamento: um caminho para reduzir o sofrimento, acalmar a mente, alcançar uma forma de equilíbrio. No entanto, quando observado a partir de uma perspectiva clínica, ele pode vir a operar de modo bastante distinto: como um dispositivo que intensifica o encontro do sujeito com sua própria fantasia.


Ao suspender a ação, reduzir os estímulos externos e direcionar a atenção para o corpo e a respiração, a prática meditativa não elimina o ruído psíquico, mas (pode) o evidencia. Pensamentos recorrentes, cenas insistentes, roteiros afetivos que retornam: aquilo que, na vida cotidiana, se dispersa na ação, (potencialmente pode) reaparece no silêncio.


Esse retorno não é contingente. Ele revela o funcionamento daquilo que Sigmund Freud nomeou como compulsão à repetição, posteriormente articulada à pulsão de morte em Além do Princípio do Prazer. Trata-se de uma insistência que ultrapassa o princípio do prazer, sustentando formas de gozo que frequentemente se manifestam como sofrimento.


Parece contraditório afirmar que há um prazer no próprio sofrimento que se repete, mas isso quando se olha apenas pelo viés da consciência e do eu (instâncias ou "acontecimentos" psíquicos criados pela repressão da sociedade e sua cultura). Quando observamos por uma perspectiva que leve em conta o inconsciente (que somos nós, com sua linguagem e lógica que nos escapa do eu/consciência), revela o quanto pensamos onde não somos e somos onde não pensamos ou, que não somos senhores de nós mesmos tanto quanto imaginávamos, fantasiamos: maya!


A fantasia, nesse contexto, aparece como a forma que dá consistência a essa repetição. Ela organiza o gozo em cenas, localiza-o no corpo, articula-o ao Outro. E é precisamente isso que se intensifica na prática meditativa: não a dissolução imediata da ilusão, mas sua manifestação mais nítida. O sujeito, ao meditar, não se liberta de sua fantasia. Ele a encontra.


O corpo como lugar de inscrição da ilusão

Se maya pode ser pensado como o poder de fazer o mundo aparecer, a fantasia pode ser entendida como o modo singular pelo qual esse mundo se encarna no corpo do sujeito. Aqui, a contribuição freudiana permanece central: o corpo erógeno não é dado biologicamente, mas constituído pelas marcas da relação com o Outro: boca, ânus, olhar, voz são zonas onde a demanda incide, onde o cuidado, a interdição e o desejo se inscrevem. A fantasia, ao sexualizar a pulsão, organiza essas zonas como circuitos de gozo. E o que a prática de yoga revela, muitas vezes de forma inesperada, é justamente essa dimensão corporal da fantasia: tensões recorrentes, padrões respiratórios, micro-movimentos que acompanham certos pensamentos e afetos.


O corpo, longe de ser um instrumento neutro de “presença”, aparece como arquivo vivo da fantasia. Nesse sentido, o yoga pode ser compreendido não como técnica de transcendência do corpo, mas dispositivo de sua escuta - uma escuta que, ao invés de harmonizar imediatamente, pode desvelar a cumplicidade entre corpo e gozo (aquele sofrimento que se repete, pois representamos uma personagem).


Entre sustentação e travessia

Se há uma convergência estrutural entre maya e fantasia, ela não implica uma equivalência de saída. As tradições não-duais dos yogares religiosos (ou sacerdotais: centrados na letra, no padre e sua igreja) frequentemente propõem um gesto de desidentificação radical: ver através da ilusão/maya ou fantasia, reconhecer sua vacuidade, dissolver a identificação com as formas. Já a psicanálise, sobretudo a lacaniana, propõe algo mais paradoxal: não a eliminação da fantasia, mas sua travessia.


Atravessar a fantasia não é destruí-la, mas modificar a posição do sujeito em relação a ela: inventar novas formas de atuar ali. Trata-se de um deslocamento sutil e difícil: deixar de ocupar o lugar que a fantasia prescreve, sem que ela desapareça como estrutura. É nesse ponto que o yoga pode operar como algo mais do que cenário, i.e., condição de possibilidade dessa travessia.


Não porque ofereça um método direto, mas pois introduz uma suspensão: o sujeito não responde imediatamente ao que emerge. Ele observa, sustenta, acompanha. Essa suspensão pode produzir uma pequena fenda na identificação: uma distância mínima entre o sujeito e o roteiro que o organiza - uma linha-de-fuga antes impossível.


Essa fenda, contudo, não é pacífica. Ela pode ser acompanhada de angústia, de desorganização, de um encontro mais cru com o real que a fantasia velava. É justamente por isso que tantas abordagens modernas do yoga (ou neoliberais, pois alinhadas com o Capital e suas indústria de bem-estar empregando proletários/professores de yoga alienados) tendem a recobrir esse ponto com técnicas de regulação, restabelecendo rapidamente uma forma de equilíbrio. Mas, quando esse ponto é sustentado (centro de toda práxis yoguica/meditativa madura), algo se desloca. Não a fantasia em si, mas a relação com ela.


O risco da espiritualização da fantasia

Essa articulação permite, por fim, uma crítica ao yoga postural moderno ou liberal (alinhado com seu verdadeiro deus, o Capital). Ao prometer a dissolução do eu, a superação do sofrimento ou o acesso a uma realidade “mais verdadeira”, muitas práticas podem simplesmente reorganizar a fantasia em novas formas mais sutis, mais sofisticadas, mas ainda assim operantes.


A “ilusão” não desaparece; ela se espiritualiza. O sujeito pode passar a gozar de sua própria imagem de desapego, de sua proximidade com o “real”, de sua suposta libertação: o sofrimento repete mas com ar de evolução. Nesse sentido, o yoga não escapa necessariamente à lógica da fantasia: ele pode se tornar um de seus cenários privilegiados. Isso não invalida a prática. Mas desloca sua leitura.


O yoga não é, em si, libertador. Ele é um campo; um campo (ou estádio) onde a ilusão pode ser tanto reforçada quanto atravessada.


Conclusão

A aproximação entre maya e fantasia permite pensar o yoga/meditação para além de sua captura capitalista como técnicas de bem-estar. Ela revela que o problema não é simplesmente a existência da ilusão, mas o modo como o sujeito se relaciona com ela.


Se maya designa o poder de projeção que constitui o mundo, e a fantasia organiza o modo singular de gozo nesse mundo, então a prática não pode ser reduzida à eliminação de uma ou de outra. O que está em jogo é outra coisa: a possibilidade de sustentar o ponto em que a ilusão vacila, sem imediatamente substituí-la por outra. Talvez seja nesse intervalo (entre a sustentação e a travessia da fantasia) que o yoga possa, enfim, deixar de ser apenas um dispositivo de adaptação e voltar a se tornar um espaço de transformação real do sujeito.

 
 
 

1 comentário

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Ricardo Novaes
há 9 horas
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Se "tudo" é maya, ilusões essas sem as quais a jornada humana seria insuportável, nos cabe buscar "transitar" / atravessar os mayas que nos potencializam, ao invés daqueles que nos limitam e aprisionam.

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