Do sacerdote ao feiticeiro: reconfigurações do sujeito latino-americano no campo do yoga contemporâneo
- PhD. Roberto Simões

- há 2 dias
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Resumo
O presente ensaio propõe uma análise crítica do campo do yoga contemporâneo a partir da posição do sujeito latino-americano, historicamente atravessado por dinâmicas de inferiorização simbólica diante de ideais de pureza e autoridade espiritual. Argumenta-se que o yoga globalizado opera, em muitos casos, como um dispositivo de normatização que reproduz hierarquias coloniais sob a forma de um discurso espiritual universalizante, encarnado na figura do “yogue-sacerdote”. Em contraposição, propõe-se a emergência do “yogue-feiticeiro” como operador de uma prática fundada no não-saber, na experimentação e na singularidade. A análise articula contribuições da filosofia, da crítica cultural e da clínica, sugerindo uma reconfiguração ética do yoga enquanto prática situada e descolonizada.
Palavras-chave: yoga contemporâneo; colonialidade; subjetividade; espiritualidade; clínica.
Pergunta de pesquisa
Como o campo do yoga postural moderno pode reproduzir estruturas de inferiorização simbólica no contexto latino-americano, e de que modo a imago do “yogue-feiticeiro” pode operar como alternativa ética e clínica a esse modelo?
Hipótese
A hipótese central é que o yoga postural moderno, ao se organizar em torno de um ideal de pureza, autenticidade e salvação, reproduz uma estrutura hierárquica que posiciona o sujeito latino-americano como deficitário. A substituição da imago do “yogue-sacerdote” (portador de um saber normativo) pela do “yogue-feiticeiro” (operador do não-saber) possibilita a emergência de práticas mais singulares, críticas e descolonizadas.
Objetivos
Geral:
Analisar criticamente o campo do yoga postural moderno a partir da posição do sujeito latino-americano.
Específicos:
Identificar os mecanismos de normatização presentes no discurso espiritual dominante;
Compreender os efeitos subjetivos da busca por pureza e autenticidade;
Propor uma reconfiguração ética da prática do yoga baseada na noção de não-saber;
Explorar a figura do “yogue-feiticeiro” como operador clínico e cultural.
Desenvolvimento
O processo de globalização do yoga, especialmente a partir do século XX, transformou uma pluralidade de práticas em um campo relativamente homogêneo, marcado por discursos de saúde, bem-estar e espiritualidade universal. Estudos que investigam essa perspectiva yoguica apontam que esse movimento implicou uma reconfiguração do yoga em termos biomédicos, do treinamento desportivo e psicológicos, deslocando sua função de libertação espiritual para uma lógica de gestão do mal-estar (SARBACKER, 2021; WHITE, 2012).
Paralelamente, autores vinculados aos estudos contracoloniais evidenciam como práticas culturais oriundas de contextos não-ocidentais, ao serem globalizadas, tendem a ser reapropriadas sob paradigmas eurocêntricos e estadunidense, produzindo novas formas de hierarquia simbólica (FANON, 2008; MBEMBE, 2018). No caso do yoga, essa dinâmica parece se manifestar na construção de um ideal de autenticidade frequentemente associado a corpos, vozes e narrativas que ocupam posições de autoridade no cenário global.
Nesse contexto, o sujeito yogue-latino-americano aparece como alguém que deve aprender, adaptar-se e corrigir-se. Seu corpo pode estar frequentemente sendo lido como inadequado ou "excêntrico"; sua experiência, como insuficiente; sua cultura, como secundária - e isso, quando aparece como objeto de artigos acadêmicos ou revistas de divulgação yoguica. O yoga passa, assim, a funcionar como um dispositivo de normalização que exige a conformação a padrões externos.
Essa estrutura é sustentada pela imago do “yogue-sacerdote”, que detém o monopólio da interpretação legítima da prática "indiana" - quase sempre hinduísta/védica. Ele organiza o campo a partir de uma lógica hierárquica (herdeira do sistema de castas), na qual o saber é centralizado e a experiência é regulada. A promessa de "salvação" (entendida como superação/liberação do sofrimento) pode funcionar como elemento de captura do desejo, mantendo o praticante/yogue em uma posição de constante insuficiência.
Em contraposição, tradições marginalizadas dentro do próprio campo do yoga (frequentemente associadas a algumas práticas tantrikas e não-ortodoxas ou, mais recentemente, sem ou pós-linhagem) valorizam a experimentação, a corporeidade e a multiplicidade de experiências. Nelas, a noção de siddhi (potência ou aquisição e manipulação das forças da natureza/corporais) não é necessariamente subordinada a um ideal de libertação final (moksa), abrindo espaço para outras formas de relação com o corpo e o desejo (WHITE, 2012). É nesse ponto que se torna possível pensar a imago do “yogue-feiticeiro” como operador de uma prática não normativa, que desloca o eixo da verdade para a experimentação - ao invés da busca de moksa ou kaivalya, siddhis.
Discussão
A distinção entre “yogue-sacerdote” e “yogue-feiticeiro” não é meramente tipológica, mas estrutural. Ela diz respeito a dois modos distintos de organização do campo experiencial yoguico contemporâneo. O primeiro opera a partir da verdade e da norma, pressupõe que há um caminho correto, um estado ideal e uma forma legítima de prática. Sua função está em orientar, corrigir e conduzir o sujeito-yogue em direção a esse ideal. Nesse modelo, o mal-estar (dukkha e maya) é concebido como um obstáculo a ser eliminado.
O segundo opera a partir do não-saber. Ele não parte de um ideal prévio, mas da singularidade da experiência. Sua função não é conduzir, mas intervir, sobretudo, por meio de operações que deslocam, intensificam ou reconfiguram a relação do sujeito com seu próprio processo em relação ao mundo (imanência) - nuca fora dele (transcendência).
Os três serviços atribuídos ao “yogue-feiticeiro” (oráculos, encantamentos/maldições e cura) podem ser compreendidos como modos de intervenção:
Oráculos: produzem cortes na narrativa do sujeito, abrindo espaço para o inesperado;
Encantamentos e maldições: operam na linguagem, alterando padrões de repetição;
Terapia/"Cura": não elimina ou arrefece sintomas, mas transformam sua função.
Essa perspectiva implica uma ética sem garantias, na qual não há promessa de salvação, mas abertura para a invenção - opera-se aqui sob a lógica da arte como episteme. Trata-se de deslocar o yoga de uma prática de adaptação a um ideal para uma práxis ou ato yoguico de experimentação situada.
Considerações finais
O campo do yoga postural moderno, ao se organizar em torno de ideais de pureza, autenticidade e salvação/liberação, tende a reproduzir estruturas de inferiorização simbólica, especialmente no contexto latino-americano. A crítica a esse modelo não implica a rejeição do yoga, mas sua reconfiguração. A figura do “yogue-feiticeiro” emerge como uma possibilidade ética e clínica de deslocamento, ao introduzir o não-saber, a experimentação e a singularidade como princípios organizadores da práxis yoguica. Essa transição implica abandonar a busca por garantias e assumir a responsabilidade pela própria experiência.
Um yogar contracolonial não é aquele que retorna a uma origem pura, mas que se reinventa a partir das condições concretas de sua prática. Nesse sentido, a tarefa não é alcançar um estado ideal, mas sustentar um processo vivo, aberto e situado.
Referências Bibliográficas
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SARBACKER, Stuart Ray. Reclaiming the Spirit through the Body: The Nascent Spirituality of Modern Postural Yoga. Albany: SUNY Press, 2021.
WHITE, David Gordon. The Yoga Sutra of Patañjali: A Biography. Princeton: Princeton University Press, 2014.
WHITE, David Gordon. Sinister Yogis. Chicago: University of Chicago Press, 2012.
MALLINSON, James; SINGLETON, Mark. Roots of Yoga. London: Penguin Classics, 2017.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
SIMÕES, Roberto. IN SEARCH OF THE AUTHENTICITY OF CONTEMPORARY YOGAS OF NON-INDIAN MATRIX. PMC, 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8919906/.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.




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