Mokṣa e a estrutura da fantasia: uma leitura a partir de “bate-se numa criança”
- PhD. Roberto Simões

- há 2 dias
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Resumo
Este ensaio propõe uma leitura do conceito de mokṣa (tradicionalmente entendido como libertação espiritual) como uma formação fantasmática estruturada, e não como um destino ontológico. A partir da articulação com a lógica dos três tempos da fantasia descrita por Sigmund Freud em Bate-se numa criança, e relida por Jacques Lacan, argumenta-se que o percurso espiritual no yoga postural moderno pode ser compreendido como uma metamorfose da fantasia fundamental do sujeito-yogue. Longe de indicar um progresso rumo à libertação do sofrimento (e do próprio maya, fantasia ou ilusão), essas fases podem revelar diferentes modos de relação com o desejo, a lei e o gozo yoguico atual. A noção de libertação, nesse contexto, é deslocada: não mais como um estado (ou estágio) a ser atingido, mas como a queda da crença em sua própria necessidade.
Introdução
A ideia de libertação atravessa o campo do yoga como seu horizonte último. Mokṣa aparece como promessa, como destino, como resolução final de uma condição marcada pela ignorância (avidya), pelo sofrimento (dukkha) e pela repetição (vasanas). No entanto, quando esse conceito é deslocado para uma escuta que leva em conta a estrutura do sujeito, algo se desestabiliza: e se a libertação não for o fim de um percurso, mas o nome de uma fantasia/maya que organiza esse próprio percurso (yoguico)?
Essa hipótese não visa desqualificar o campo do yoga, mas radicalizá-lo. Ao invés de tomar suas narrativas míticas literalmente, trata-se de interrogá-las como formações simbólicas que sustentam o desejo e o gozo dos praticantes de yoga/meditação modernos. Nesse sentido, a teoria da fantasia oferece uma ferramenta decisiva. Em especial, o pequeno texto freudiano “bate-se numa criança” (posteriormente relido por Lacan) permite compreender como uma fantasia não é um conteúdo imaginário qualquer, mas uma estrutura que se transforma, se desloca e se refina, sem jamais desaparecer completamente.
A fantasia como estrutura
Freud descreve três tempos lógicos da fantasia “bate-se numa criança”. Em um primeiro momento, a cena é claramente estruturada: “meu pai bate na criança que eu odeio”. Há um agente, um alvo e um espectador implicado. Em um segundo tempo, recalcado, ocorre uma inversão: “eu sou espancado pelo meu pai”. Aqui, o sujeito se inclui na cena como objeto da ação. Por fim, a fantasia assume uma forma impessoal: “bate-se numa criança”. Os sujeitos desaparecem, restando apenas a estrutura da ação.
Lacan lê essa sequência não como um desenvolvimento cronológico, mas a formalização de uma lógica da fantasia. O que está em jogo não é o conteúdo da cena, entrementes, a posição do sujeito em relação ao desejo e ao gozo. Cada tempo da fantasia corresponde a uma maneira distinta de sustentar essa relação.
Mokṣa como metamorfose da fantasia
Se deslocarmos essa estrutura para o campo do yoga moderno, podemos ler o percurso espiritual não como um caminho progressivo rumo à libertação, mas uma série de reorganizações da fantasia fundamental.
No primeiro tempo, encontramos a figura clássica do praticante que se orienta por uma oposição clara entre ignorância e verdade. O ego, o desejo, a mente são tomados como obstáculos a serem eliminados. Surge então a figura do mestre/guru, da técnica e/ou da tradição como agentes dessa purificação. “Eu preciso destruir meu ego”, “o desejo é o inimigo”, “a prática me libertará”: essas formulações revelam uma estrutura em que a violência necessária à transformação é delegada a um Outro. Tal como na fantasia freudiana, o sujeito se posiciona como espectador de uma operação que recai sobre um terceiro: o “eu ignorante”.
No segundo tempo, essa distância se rompe. O sujeito já não pode sustentar a ideia de que a transformação ocorre fora dele. Ele próprio se torna o alvo da operação. Surge então a experiência da insuficiência, da culpa e da exigência interminável. Nunca se medita o suficiente, nunca se é puro o bastante, nunca se está verdadeiramente presente. A prática se intensifica, mas junto com ela cresce a dívida. O ideal de libertação se torna um imperativo superegóico: quanto mais se tenta alcançá-lo, mais ele se afasta. Aqui, o gozo não está mais na punição do outro, mas no sofrimento do próprio sujeito, capturado em uma lógica de autoaperfeiçoamento infinito - algo que o capitalismo (e outras religiões) compreendeu tão bem e estabelece seus aparelhos-de-captura.
No terceiro tempo, algo muda novamente. A cena perde seus personagens definidos. Já não há um eu que pratica, nem um mestre que conduz, nem um obstáculo a ser eliminado. “Não há eu”, “tudo já é”, “a libertação está sempre presente” - essas formulações indicam uma dessubjetivação da fantasia. A estrutura permanece, mas seus elementos se tornam impessoais. A violência que atravessava as fases anteriores desaparece da cena, dando lugar a uma aparente pacificação.
No entanto, essa pacificação pode ser enganosa, pois longe de representar uma saída da fantasia, essa forma impessoal pode constituir sua versão mais refinada. Ao eliminar o conflito, a falta e a divisão do sujeito, certos discursos não-duais operam como uma defesa sofisticada contra o real do desejo. O que se apresenta como libertação pode, assim, funcionar como neutralização - como o mito yoguico tão comum de yogues/meditantes modernos sonharem em se retirar da sociedade como futuro ideal.
A travessia da fantasia e o impasse da libertação
A leitura lacaniana introduz aqui um ponto decisivo: a travessia da fantasia não coincide com sua última forma. Não se trata de alcançar uma versão mais elevada ou mais sutil da fantasia, mas de modificar a relação do sujeito com ela. Isso implica não mais acreditar na cena que organiza o desejo, ainda que ela continue operando.
Aplicado ao campo do yoga, isso significa que a libertação não pode ser pensada como um estado final que resolveria a divisão subjetiva. Nem a purificação do ego, nem a intensificação da disciplina, nem a dissolução impessoal (não-dual) dão conta do que está em jogo. Cada uma dessas posições corresponde a uma maneira de sustentar a fantasia ou maya.
A verdadeira inflexão ocorre quando a própria ideia de um estado final perde sua consistência. Quando o sujeito já não precisa mais acreditar que existe algo a ser alcançado que colocaria fim ao mal-estar. Nesse ponto, mokṣa deixa de ser um objetivo e se torna um significante vazio, cuja função era sustentar o movimento do desejo.
Consequências para o yoga contemporâneo
Essa leitura permite iluminar certas dinâmicas do yoga contemporâneo. Muitos praticantes permanecem capturados na segunda fase, submetidos a uma lógica de autoaperfeiçoamento que se articula perfeitamente com as exigências do neoliberalismo: produtividade, disciplina, responsabilização individual. Outros migram para discursos não-duais que prometem uma libertação imediata, mas que frequentemente operam como uma forma de evitar o confronto com o desejo.
Em ambos os casos, o que está em jogo não é a eficácia das técnicas (e suas igrejas de yoga), mas a posição subjetiva que as sustenta. O mesmo gesto (respirar, meditar, sustentar uma postura) pode funcionar como encenação da fantasia ou como dispositivo de sua travessia. A diferença não está na forma, insistiria, mas na relação de força com o impossível que atravessa o sujeito.
Considerações finais
Tomar mokṣa como fantasia não é reduzi-lo a uma ilusão, mas reconhecer sua função estrutural. A promessa de libertação organiza o campo do yoga, orienta práticas, sustenta comunidades e mobiliza afetos. No entanto, quando essa promessa é tomada como um dado, ela pode aprisionar tanto quanto libertar.
A partir da lógica da fantasia, a questão se desloca: não mais “como alcançar a libertação?”, mas “o que sustenta a necessidade de acreditarmos nela?”. Nesse deslocamento, o yoga pode deixar de ser uma técnica (ou método, escola) de salvação para se tornar um campo de experimentação onde o sujeito se confronta com aquilo que nenhuma prática pode eliminar: a falta, o desejo, o real.
E talvez seja justamente aí, nesse ponto sem garantias, que algo como uma outra forma de liberdade (sem promessa, sem ideal e sem fim) possa emergir.
Referências Bibliográficas
FINK, Bruce. Dialética do desejo. In: Introdução clínica à psicanálise lacaniana: teoria e técnica. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. p.132-182.
FREUD, Sigmund. Bate-se numa criança: contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais (1919). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.




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