Fantasia, masculinidade e autoridade no yoga contemporâneo: uma leitura psicanalítica do campo do yoga moderno
- PhD. Roberto Simões

- 14 de mar.
- 8 min de leitura

Resumo
Nas últimas décadas, o yoga tornou-se uma prática global associada à saúde, espiritualidade e bem-estar. Diversas pesquisas indicam que a prática contemporânea de yoga apresenta predominância feminina entre praticantes, ao mesmo tempo em que posições simbólicas de autoridade continuam frequentemente associadas a figuras masculinas. A pergunta central aqui consiste em compreender como determinadas fantasias masculinas podem encontrar no campo do yoga contemporâneo um espaço de reorganização simbólica. A hipótese defendida é que alguns yogares modernos podem funcionar como dispositivo cultural capaz de reconfigurar formas de reconhecimento e autoridade masculina em contextos marcados por transformações nas estruturas tradicionais de masculinidade. Argumenta-se que o campo do yoga contemporâneo pode oferecer novas posições simbólicas masculinas que reorganizam autoridade, reconhecimento social e erotização do poder espiritual.
Palavras-chave: yoga moderno; masculinidade; fantasia; psicanálise; autoridade espiritual.
1 Introdução
O yoga contemporâneo tornou-se, nas últimas décadas, uma das práticas corporais e espirituais mais difundidas globalmente. Pesquisas sobre a demografia da prática indicam que o yoga moderno apresenta forte predominância feminina entre praticantes (COWEN; ADAMS, 2005). Esse dado contrasta com a história do yoga pré-moderno na Índia, em que práticas ascéticas e yoguicas eram predominantemente masculinas (ALTER, 2004).
Apesar dessa "feminização" da prática contemporânea, muitos dos principais fundadores das linhagens modernas de yoga foram homens, entre eles Tirumalai Krishnamacharya, B. K. S. Iyengar e K. Pattabhi Jois (SINGLETON, 2010). Tal configuração levanta um paradoxo sociológico relevante: como compreender a persistência de estruturas simbólicas de autoridade masculina em um campo de prática majoritariamente feminino?
Este ensaio propõe analisar esse fenômeno a partir de uma abordagem interdisciplinar que articula três campos teóricos:
estudos históricos do yoga moderno
sociologia da masculinidade
teoria psicanalítica da fantasia
2 Problema de pesquisa
A questão que orienta esta investigação pode ser formulada da seguinte maneira: por que, em um campo de prática majoritariamente feminino, posições de autoridade simbólica no yoga contemporâneo continuam frequentemente associadas a figuras masculinas? Essa pergunta remete a um problema mais amplo relacionado às transformações contemporâneas da masculinidade.
A sociologia demonstra que modelos dominantes de masculinidade são historicamente construídos e transformados ao longo do tempo (CONNELL, 1995). O conceito de masculinidade hegemônica, desenvolvido por Raewyn Connell, descreve a configuração cultural que legitima a posição dominante dos homens na ordem de gênero (CONNELL, 1995). Essa forma idealizada de masculinidade organiza hierarquias tanto entre homens quanto entre homens e mulheres, funcionando como referência simbólica de prestígio social.
Nas sociedades contemporâneas, diversas transformações econômicas e culturais têm alterado profundamente as formas tradicionais de masculinidade, particularmente aquelas associadas ao trabalho industrial, à autoridade patriarcal e ao militarismo (KIMMEL, 2013).
3 Hipótese
A hipótese central deste ensaio não está em esgotar o assunto, mas demonstrar que o campo do yoga contemporâneo pode funcionar como um dispositivo simbólico de reorganização da masculinidade. Mais especificamente, propõe-se que o yoga moderno oferece aos homens determinadas posições fantasmáticas que reorganizam três dimensões fundamentais: autoridade simbólica, reconhecimento social e a erotização do poder espiritual Essas posições podem tornar-se particularmente atraentes em contextos sociais nos quais modelos tradicionais de identidade masculina se encontram em transformação.
4 Transformações contemporâneas da masculinidade
O sociólogo Michael Kimmel descreve esse fenômeno como “comportamento ressentido”. Em seu livro Angry White Men, ele mostra como muitos homens (especialmente aqueles que pertenciam a grupos historicamente privilegiados) experimentam mudanças sociais como perda de status e poder. Esse ressentimento não se explica apenas por mudanças econômicas. Ele também envolve transformações culturais: emancipação feminina, pluralização das identidades de gênero, transformações nas relações afetivas e mudanças na sexualidade. Para muitos homens, essas transformações são vividas como perda de lugar simbólico. O que desaparece não é apenas poder material. Desaparece também uma narrativa que dava sentido ao sofrimento masculino.
A literatura sociológica contemporânea aponta para profundas transformações nas formas de organização da masculinidade. Connell (1995) argumenta que masculinidades não constituem uma essência fixa, mas um conjunto de práticas sociais que se organizam em relações de poder dentro da ordem de gênero. O conceito de masculinidade hegemônica refere-se à forma culturalmente dominante de masculinidade que legitima a hierarquia de gênero e a autoridade masculina (CONNELL, 1995).
Autores como Kimmel (2013) sugerem que transformações sociais recentes (incluindo mudanças nas estruturas econômicas e nas relações de gênero) têm produzido sentimentos de deslocamento e perda de status entre determinados grupos masculinos. Esse fenômeno foi descrito por Kimmel como “comportamento ressentido”, isto é, a percepção de que privilégios historicamente associados à masculinidade teriam sido injustamente retirados.
Essas transformações não ocorrem apenas no plano econômico, mas também no plano simbólico. Narrativas tradicionais que davam sentido ao sofrimento masculino (como o trabalho industrial, o heroísmo militar ou a militância política) perderam centralidade em muitas sociedades contemporâneas. Esse é o ponto central da hipótese que discutimos. Durante muito tempo, o sofrimento masculino podia ser interpretado como: trabalho duro, sacrifício familiar, heroísmo militar e luta política. Essas narrativas davam sentido à frustração, mas com o avanço do neoliberalismo, o sofrimento tende a ser interpretado de outra maneira: fracasso individual. Se você não tem sucesso, a responsabilidade é sua. Essa lógica transforma sofrimento social em vergonha pessoal.
5 Fantasia e desejo na teoria psicanalítica
Aqui a leitura psicanalítica se torna particularmente interessante. Quando o sofrimento não encontra uma narrativa simbólica coletiva, ele tende a ser reorganizado no registro da fantasia. A fantasia responde a uma pergunta angustiante: “por que estou sofrendo?”
Movimentos como redpill ou incel oferecem uma resposta simples. Eles produzem uma fantasia política. Essa fantasia tem uma estrutura relativamente estável: o mundo foi roubado dos homens, as mulheres se tornaram manipuladoras e hipergâmicas, o feminismo destruiu a ordem natural e poucos homens despertaram para essa verdade. Essa narrativa oferece algo poderoso: uma explicação para o sofrimento.
A psicanálise lacaniana oferece um instrumento conceitual importante para compreender a dimensão subjetiva dessas transformações: o conceito de fantasia/fantasma. Para Lacan (1985), a fantasia constitui a estrutura que organiza a relação do sujeito com o desejo e com o Outro. Ela funciona como um roteiro inconsciente que permite ao sujeito sustentar sua posição diante da falta constitutiva que estrutura o desejo.
Na teoria lacaniana, o "fim de análise" é quando o analisando faz sua travessia da fantasia, i.e., momento em que o sujeito reconhece o caráter construído das narrativas que organizam sua relação com o desejo (LACAN, 1985). Esse conceito foi posteriormente mobilizado em análises da ideologia contemporânea. Žižek (1989), por exemplo, argumenta que ideologias políticas funcionam frequentemente como fantasias coletivas que organizam o gozo social.
Movimentos contemporâneos como redpill ou incel funcionam como comunidades de fantasia coletiva. Eles oferecem: pertencimento, explicação para sofrimento e identidade masculina. Nesse sentido, essas comunidades funcionam quase como grupos terapêuticos invertidos. Em vez de dissolver fantasias, elas as reforçam. Elas transformam frustrações pessoais em narrativas políticas.
6 Yoga moderno e reorganização da fantasia masculina
Aplicando esse referencial teórico ao campo do yoga atual, é possível identificar algumas posições simbólicas recorrentes associadas à masculinidade.
6.1 O guardião da tradição
No imaginário do yoga moderno, o professor masculino frequentemente aparece como transmissor de uma linhagem espiritual ancestral. Essa posição simbólica reproduz formas tradicionais de autoridade espiritual baseadas na transmissão mestre-discípulo (DE MICHELIS, 2004).
6.2 O asceta disciplinado
Outra figura recorrente é a do yogue que domina o corpo e a libido por meio de disciplina ascética. Historicamente, práticas ascéticas foram associadas à construção de identidades masculinas de autocontrole e domínio corporal (ALTER, 2004).
6.3 O terapeuta espiritual
Em contextos onde a maioria das praticantes é feminina, professores homens podem ocupar posições simbólicas de autoridade terapêutica e orientação espiritual.
6.4 O rebelde espiritual
Narrativas modernas do yoga frequentemente enfatizam trajetórias de ruptura com a vida corporativa ou com estruturas sociais convencionais, apresentando o professor de yoga como alguém que encontrou um caminho alternativo de vida (JAIN, 2015).
6.5 O mestre carismático
Em certos contextos institucionais, a autoridade espiritual pode adquirir dimensões carismáticas que mobilizam intensas relações transferenciais entre mestre e discípulos.
7 Discussão
Essas posições não devem ser interpretadas como características universais do yoga moderno. Elas representam, antes, estruturas simbólicas possíveis dentro do campo cultural do yoga moderno. A análise aqui proposta sugere que o yoga hoje pode funcionar como um espaço cultural onde certas fantasias masculinas encontram novas formas de realização simbólica num mundo que o destitui das fantasias masculinas "tradicionais": do trabalhador-provedor, o herói-guerreiro e etc. Essas figuras ofereciam narrativas simbólicas para o sofrimento masculino, como o mito do sofrimento do trabalhador já que trabalhar duro era construir uma família; o sofrimento do soldado pois acreditava-se que havia sentido em sacrificar-se pela pátria; o sofrimento do militante político na construção de sentido por lutar na transformação social. Em outras palavras, a sociedade fornecia roteiros simbólicos que davam significado ao sofrimento masculino.
A partir dos anos 1970 e 1980 ocorre uma transformação profunda nas economias capitalistas, frequentemente descrita como neoliberalismo. Essa transformação inclui: desindustrialização, precarização do trabalho, enfraquecimento de sindicatos e a individualização da responsabilidade social. O neoliberalismo, portanto, teria promovido uma visão de mundo profundamente individualista, em que a sociedade é interpretada como um mercado de indivíduos competidores. Nesse contexto, a identidade masculina também se transforma. Pesquisas apontam que a masculinidade moderna esteve historicamente ligada ao trabalho e ao papel de provedor e quando a estrutura do trabalho se transforma (com desemprego, precarização e instabilidade) essa identidade entra em crise. A figura clássica do provedor perde estabilidade, gerando uma sensação difusa de deslocamento social (FORBES, 2022).
Esse enquadramento ajuda a compreender fenômenos aparentemente paradoxais, como: (1) a persistência de autoridades masculinas em um campo de prática majoritariamente feminino; (2) a recorrência de figuras carismáticas masculinas na história recente do yoga global; e (3) a centralidade de narrativas de disciplina e transcendência na construção de identidades masculinas espirituais.
8 Considerações finais
Esse debate também tem implicações para campos aparentemente distantes, como espiritualidade e yoga contemporâneo. Práticas espirituais frequentemente prometem transformação moral. Mas a história mostra algo diferente. Assim como a psicanálise não produz automaticamente sujeitos virtuosos, a experiência espiritual também não garante ética. Isso ajuda a explicar fenômenos aparentemente paradoxais: gurus espirituais abusadores, espiritualidades alinhadas ao neoliberalismo e comunidades espirituais autoritárias. A transformação subjetiva não garante transformação política. E talvez essa seja uma das lições mais desconfortáveis (mas também mais honestas) que a psicanálise oferece.
Assim como um sujeito analisado, aquele que atravessou a sua fantasia/fantasma, pode não ter desmontado sua ideologia como misoginia ou fascismo, yogues que alcançaram moksa (a Realização) também podem ainda sustentarem (e dependerem) de suas fantasias (ou mayas) paranoicas sobre o Outro; pois, se essas fantasias colapsarem, a ideologia de sua tradição espiritual - por exemplo - perde sustentação. Assim, nem a psicanálise ou os yogas podem garantirem transformações morais ou políticas. De novo, um sujeito pode atravessar certas fantasias neuróticas e ainda sustentar identificações ideológicas; do mesmo modo que um alguém pode adquirir o status de guru ou mestre de yoga, e ainda ser um fascista, racista e misógino. A análise ou o yoga/meditação não produz automaticamente ética. Elas produzem algo mais modesto - e talvez mais radical:
a possibilidade de reconhecer a própria falta sem recorrer à fantasia do inimigo.
Este pequeno ensaio buscou analisar o paradoxo sociológico presente no yoga contemporâneo: uma prática majoritariamente feminina que frequentemente mantém estruturas simbólicas de autoridade masculina. A partir de um diálogo entre psicanálise, sociologia da masculinidade e estudos históricos do yoga moderno, argumentou-se que o yoga pode funcionar (também) como um dispositivo cultural de reorganização da masculinidade.
Mais do que oferecer respostas definitivas, a análise apresentada busca abrir novas linhas de investigação sobre as relações entre espiritualidade, gênero e poder nas sociedades contemporâneas yoguicas. Pesquisas futuras podem aprofundar empiricamente essa hipótese por meio de estudos etnográficos, análises institucionais e investigações comparativas entre diferentes tradições de yoga.
Referências Bibliográficas
ALTER, Joseph. Yoga in modern India: the body between science and philosophy. Princeton: Princeton University Press, 2004.
CONNELL, Raewyn. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.
COWEN, Virginia S.; ADAMS, Thomas B. Physical and perceptual benefits of yoga asana practice: results of a national survey. Journal of Bodywork and Movement Therapies, v. 9, n. 3, p. 211-219, 2005.
DE MICHELIS, Elizabeth. A history of modern yoga: Patanjali and Western esotericism. London: Continuum, 2004.
FORBES, D. Neoliberal Hegemonic Masculinity and McMindfulness: The Need for Buddhist Values and Principles in Mindful Masculinity Programs. Religions. 2022; 13(6):544
JAIN, Andrea. Selling yoga: from counterculture to pop culture. Oxford: Oxford University Press, 2015.
KIMMEL, Michael. Angry white men: American masculinity at the end of an era. New York: Nation Books, 2013.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
SINGLETON, Mark. Yoga body: the origins of modern posture practice. Oxford: Oxford University Press, 2010.
ŽIŽEK, Slavoj. O sublime objeto da ideologia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.




Comentários