top of page

O SILÊNCIO QUE LIBERTA E O QUE DEFENDE

O silêncio não é simplesmente um terreno comum meditantes/yogues é, antes, um campo de tensão, pois é em silêncio que os sujeitos-yogues/meditantes se desencontram dos não-meditantes/yogues - ainda que partilhem uma mesma borda: o limite da linguagem.


Entenda, entre yogas e suas técnicas contemplativas, o silêncio não é buscado. Ele irrompe. Ele não é uma técnica, nem um meio, tampouco um ideal, mas um acontecimento (nem sempre desejado) que marca o ponto onde o sujeito falha em se sustentar na cadeia significante.


Cadeia de significantes é um conceito da psicanálise que designa o encadeamento dos elementos da linguagem (significantes), em que cada termo adquire valor apenas por sua relação com outros, produzindo efeitos de sentido sempre deslocados e nunca fixos. O sujeito, nessa perspectiva, não é anterior à linguagem, mas emerge como efeito desse encadeamento, sendo “representado por um significante para outro significante”.

Exemplos: (1) “não consigo falar” → “travado” → “meu pai” → “cobrança” → “fracasso” = um significante conduz a outro, revelando uma lógica inconsciente; (2) “ansiedade” → “controle” → “perder o controle” → “vergonha” → (silêncio) = o silêncio pode marcar uma ruptura na cadeia, indicando um ponto de impossibilidade; (3) “amor” → “cuidado” → “mãe” → “falta” → “abandono” = o sentido de “amor” se transforma ao longo da cadeia); (3) “trabalho” → “dinheiro” → “sucesso” → “meu irmão” → “comparação” → “inveja” = a cadeia desloca o tema inicial para outro campo de sentido

Ali onde a palavra não vem, não por escolha, mas por impossibilidade, algo do inconsciente se apresenta sob a forma de um furo. Esse furo não é vazio: é excesso. Excesso de real, excesso de gozo, excesso de algo que não se deixa dizer.


Já nas práticas meditativas/yoguicas/contemplativas modernas, sobretudo aquelas que se disseminaram sob o signo da interioridade e da autorregulação, o silêncio é frequentemente instituído como método. Ele é produzido, cultivado, reiterado. O sujeito-contemplador moderno senta-se, fecha os olhos, observa. Há uma decisão, um gesto inaugural: “vou me calar para ver”. Esse “ver”, no entanto, carrega consigo uma hipótese silenciosa: a de que há um lugar de onde ver. Um ponto de observação relativamente estável, uma instância capaz de testemunhar sem se confundir com aquilo que observa.


É aqui que insisto uma fricção mais aguda sobre yogues/meditantes maduros: talvez não haja esse lugar estável, de uma espécie de homeostase divina. O sujeito não é o observador de seus pensamentos; ele é efeito deles.


Não há exterioridade possível em relação ao inconsciente. O que se chama de “eu que observa” pode muito bem ser apenas mais uma formação imaginária, uma ficção (maya) refinada que reorganiza o campo do sofrimento sem tocá-lo em sua estrutura. O silêncio, nesse caso, longe de expor o sujeito ao real, pode funcionar como um véu... mais sutil, mais sofisticado, mas ainda assim um véu ou maya.


Isso não significa que a meditação seja, em si, uma ilusão ou uma defesa. Significa apenas que ela comporta esse risco estrutural: o de converter o encontro com o indizível em uma experiência de domínio. O sujeito (aos dogmas das centenas de igrejas yoguicas) aprende a observar seus pensamentos, suas emoções, suas sensações corporais. Aprende a nomeá-los, a deixá-los passar, a não se identificar com eles. Mas o que permanece intocado é a própria posição daquele que observa. Esse ponto cego (o observador não analisado) pode se tornar o novo centro de uma economia psíquica que se pretende livre, mas que apenas deslocou sua forma de captura.


Num yogar maduro (siddhizeiro), ao contrário, o silêncio não estabiliza... ele desestabiliza. Quando o meditante/yogue ou alguém em análise se cala, algo se coloca em suspensão. O analista ou o prof de yoga "maduro", por sua vez, não intervém para restaurar o fluxo, mas sustenta o silêncio como quem continente de uma borda perigosa. Não se trata de convidar o sujeito-yogue/meditante (analisando) a observar o que se passa, mas de permitir que algo se produza ali onde o saber falha. O silêncio, nesse contexto, não é uma janela para a consciência, mas uma fissura na qual o sujeito pode se perder e, nessa fresta, se perder para, talvez, se reencontrar de outra forma - mas tudo isso pode falhar, dar errado.


Entrementes, seria simplista opor radicalmente os yogares mokshianos (aqueles que visam a transcendência rumo a metafísicas) e siddhizeiros (aqueles que visam a imanência), como se uma fosse o reino da alienação e a outra o da verdade. Há momentos (raros, mas decisivos) em que certas práticas meditativas religiosas mokshianas deixam de operar como técnicas de regulação e tocam algo mais radical. Isso ocorre quando o próprio observador vacila e não há mais um “eu” que observa pensamentos, mas apenas um campo onde pensamento, corpo e afeto se confundem sem centro. O silêncio aí deixa de ser um espaço controlado por sacerdotes, livros sagrados e suas igrejas, e se torna um abismo.


Nesse ponto, algo converge.


O que emerge não é paz, nem clareza, nem presença - ao menos não necessariamente. Pode emergir angústia, desorientação, uma espécie de queda sem garantia; e o sujeito-yogue/meditante já não consegue se apoiar na narrativa que o organizava antes, mas também não encontra um novo lugar estável: suas crenças caem e as pernas vacilam. Esse momento, que muitas tradições espirituais rapidamente reabsorvem sob categorias como “vazio”, "sentimento oceânico" ou “consciência pura”, pode ser lido, a partir das feiticeiras, pajés, xamãs e tantrikas como um encontro com o real: aquilo que não se simboliza, que não se integra, que não se domestica.


A diferença está no destino dado a esse encontro.


A meditação moderna, especialmente quando capturada pela lógica neoliberal do bem-estar, tende a reintegrar rapidamente essa ruptura. O silêncio é então reinscrito como ferramenta: ele serve para acalmar, para organizar, para tornar o sujeito mais funcional, mais adaptado, mais eficiente em sua relação consigo e com o mundo. O que poderia ter sido uma abertura para o impossível torna-se um recurso para a gestão do possível.


Sigo apostando em outro caminho. Aquele yogar que não oferece ao sujeito um lugar de repouso no silêncio. Ao contrário, insiste na impossibilidade de tal repouso. O silêncio não é casa, mas passagem. Não é integração, é corte. Não é plenitude, é falta. E, por causa dessa falha, dessa incompletude que reside sua potência incomum.


Esbarrar no silêncio pode operar como uma suspensão das evidências... um intervalo onde o sujeito-yogue/meditante deixa de se reconhecer imediatamente naquilo que pensa, sente ou diz. Esse intervalo de estar à espreita não pode ser capturado e, então se torna técnica, método, instrumento por instituições que vendem métodos. Mas também pode ser atravessado para se tornar, quiçá, acontecimento, ruptura, transformação.


A questão, portanto, não é o silêncio em si, mas o que se faz com ele.


Se ele serve para confirmar uma identidade (ainda que mais sutil, mais “espiritualizada”) então ele permanece no campo da defesa. Se ele abre uma fenda na qual o sujeito não sabe mais quem é, o que quer, ou de onde fala, então ele pode operar como travessia. Nesse sentido, talvez o verdadeiro ponto de interseção entre os tantos yogares (indianos e não-indianos) e certas experiências contemplativas de outras tradições não esteja no silêncio como prática, mas no silêncio como falha. Não no silêncio que se produz e pacifica, mas naquele que sobrevém e inquieta.


Um silêncio que não diz: “agora você vê claramente”. Mas que sussurra... ou talvez nem isso: “aqui, já não há quem veja.”



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page