A hegemonia da regulação e o eclipse da escuta: corpo, respiração e sintoma nas terapêticas "nova era"
- PhD. Roberto Simões

- há 3 dias
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Resumo
O presente ensaio analisa a hegemonia da ética da regulação nas práticas contemporâneas de yoga, meditação e terapias corporais, problematizando seus efeitos clínicos e políticos. Argumenta-se que tais práticas, ao privilegiarem a estabilização emocional e a otimização do funcionamento, tendem a reduzir o sintoma a uma disfunção a ser corrigida. Em contraposição, propõe-se a retomada da ética da escuta, inspirada na psicanálise de Jacques Lacan, não como alternativa concorrente, mas como dimensão progressivamente abandonada. A partir do diálogo com a noção de biopolítica em Michel Foucault e com a psicopolítica em Byung-Chul Han, sustenta-se que a centralidade da regulação participa da produção de sujeitos adaptados e autorregulados, em detrimento da escuta da singularidade do desejo.
Palavras-chave: regulação; escuta; sintoma; yoga; biopolítica; psicanálise.
1. Introdução
Nas últimas décadas, práticas como yoga, meditação e técnicas respiratórias foram amplamente incorporadas aos campos da saúde, da educação e do bem-estar. Sua difusão, frequentemente associada à redução do estresse e à melhora da qualidade de vida, consolidou uma forma específica de abordagem do sofrimento: aquela centrada na regulação. Este ensaio parte de um deslocamento fundamental: não se trata de opor regulação e escuta como modelos concorrentes, mas de interrogar a hegemonia da primeira e o consequente abandono da segunda. A questão, portanto, não é “qual ética é melhor”, mas o que se perde quando a escuta deixa de orientar a prática clínica.
2. Problema de pesquisa
Quais são os efeitos clínicos e políticos da hegemonia da ética da regulação nas práticas holistas nova era de cuidado, e de que modo o abandono da ética da escuta impacta a relação do sujeito com seu sintoma e seu desejo?
3. Hipótese
A hipótese central é que a predominância da ética da regulação conduz a uma redução do sintoma à dimensão funcional, promovendo práticas centradas na adaptação e no ajuste, enquanto o enfraquecimento da ética da escuta compromete a possibilidade de elaboração singular do sofrimento.
4. Metodologia
Trata-se de uma investigação teórico-conceitual baseada na articulação entre: (a) literatura sobre práticas de regulação emocional; (b) a noção de biopolítica; (c) a teoria lacaniana do sintoma e do desejo. A análise privilegia uma leitura crítica das racionalidades terapêuticas nova era implícitas nas práticas clínicas atuais.
5. A hegemonia da regulação: do cuidado à normatização
Abordagens como as de Patricia L. Gerbarg e Richard P. Brown exemplificam um paradigma no qual o sofrimento é concebido como desregulação neurofisiológica. A intervenção visa restaurar equilíbrio, reduzir sintomas e promover estabilidade. Tal orientação, longe de ser apenas técnica, inscreve-se em uma racionalidade mais ampla.
Como demonstra Michel Foucault, a modernidade desenvolve formas de poder que operam pela gestão da vida. No contexto neoliberal, como argumenta Byung-Chul Han, essa gestão é interiorizada: o sujeito torna-se responsável por regular a si mesmo. Nesse cenário, práticas como yoga e meditação são frequentemente mobilizadas como dispositivos de autorregulação. O corpo torna-se objeto de monitoramento, e o sofrimento, um obstáculo a ser corrigido.
6. O eclipse da escuta: quando o sintoma deixa de falar
O efeito mais decisivo dessa hegemonia não é a presença da regulação, mas a ausência da escuta. O sintoma, que na tradição psicanalítica é compreendido como formação de compromisso, passa a ser tratado como erro funcional. Sua eliminação torna-se prioridade, e sua dimensão de linguagem é progressivamente silenciada.
Nesse cenário, observa-se uma transformação na posição do terapeuta: de alguém que escutava para orientar para alguém que não sustenta e visa regular a partir de uma idealização de uma espécie de "padrão-ouro" de corpo onde todos devem ser encaixados pela sugestão e correção. Multiplicam-se, deste modo, intervenções baseadas em conselhos, técnicas, protocolos e recomendações sobre como "viver bem". O risco clínico não está apenas na intervenção, mas na substituição da escuta por um saber antecipado sobre o outro.
7. A ética da escuta como dimensão esquecida
A ética da escuta, tal como formulada por Jacques Lacan, não constitui um método alternativo a ser aplicado, mas uma posição clínica. Ela implica em não antecipar o sentido do sintoma, não impor um ideal de funcionamento, sustentar o não-saber e permitir que o sujeito encontre, ele próprio, as vias de seu desejo.
Nesse enquadre, o corpo não é apenas organismo, mas campo de inscrição de linguagem e gozo. As terapias baseadas na respiração, por exemplo, deixa de ser apenas algo a ser regulado e se transforma quando escutada em suas falhas, repetições e intensidades.
8. Discussão: do ajuste à implicação subjetiva
A hegemonia da regulação produz um deslocamento importante: do sofrimento como questão a ser elaborada para o sofrimento como problema a ser resolvido. Isso favorece práticas que orientam o sujeito a se ajustar muitas vezes por meio de dicas, orientações e intervenções diretivas. No entanto, tal movimento pode reforçar a alienação do sujeito em relação ao próprio desejo. A ética da escuta, ao contrário, não oferece respostas prontas. Ela sustenta um espaço onde o sujeito pode, gradualmente, implicar-se em sua própria experiência.
9. Conclusão
A centralidade da regulação nas práticas terapêuticas "nova era" (como yoga) não constitui um problema em si. Seus efeitos de estabilização e alívio são inegáveis, mas o problema emerge quando essa lógica se torna hegemônica e passa a eclipsar a escuta.
O desafio clínico atual não é abandonar a regulação, mas recolocá-la em seu devido lugar, sem que ela substitua a escuta do sintoma. Pois é nesse ponto (onde o corpo falha, insiste e repete) que pode emergir não apenas o sofrimento, mas também a possibilidade de que o sujeito encontre algo de seu desejo.
Referências Bibliográficas
BROWN, Richard P.; GERBARG, Patricia L. The healing power of the breath. Boston: Shambhala, 2012.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
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