A ansiedade de melhorar: o yoga sob o imperativo do bem-estar
- PhD. Roberto Simões

- há 3 dias
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O campo científico que investiga yoga e meditação na contemporaneidade revela uma curiosa convergência global, atravessada por diferenças regionais que, longe de romperem essa unidade, a modulam. Ao observar a produção acadêmica recente (especialmente a partir de títulos e resumos de artigos publicados em 2022-2024 por universidades da América Latina e da Ásia) torna-se possível delinear uma cartografia relativamente nítida das preocupações dominantes, dos silêncios e das inflexões locais.
Em primeiro lugar, há um dado incontornável: tanto na América Latina quanto na Ásia, o eixo predominante das pesquisas situa-se no campo da saúde. Yoga e meditação aparecem majoritariamente como intervenções voltadas à regulação do sofrimento psíquico e físico, com forte ênfase em ansiedade, estresse, qualidade de vida e bem-estar. Essa convergência não é trivial. Ela indica que, independentemente do contexto cultural, essas práticas foram amplamente traduzidas, nos últimos 100 anos, para uma linguagem biomédica e psicológica, tornando-se inteligíveis e legitimáveis dentro dos parâmetros da ciência biomédica. Em ambos os contextos, é raro encontrar, ao menos nos títulos dos artigos, referências a noções clássicas como libertação, iluminação ou transformação ontológica do ser. O yoga que circula na academia global é, antes de tudo, um yoga que trata, regula e intervém.
No entanto, essa semelhança estrutural não elimina diferenças significativas. Na América Latina, o campo tende a se organizar predominantemente em torno de abordagens psicológicas e psicossociais. Os estudos concentram-se em populações específicas (como estudantes universitários, profissionais da saúde ou grupos clínicos) e investigam os efeitos da prática sobre estados subjetivos, como ansiedade, estresse e percepção de bem-estar. Trata-se, em grande medida, de um yoga psicologizado, inserido em contextos institucionais como universidades, clínicas e programas de promoção da saúde. A ênfase recai menos sobre mecanismos fisiológicos e mais sobre experiências subjetivas e indicadores de qualidade de vida.
Já na Ásia, especialmente no sul-asiático, embora o eixo da saúde também seja dominante, observa-se uma inflexão mais acentuada em direção à biomedicina. Os estudos frequentemente incorporam marcadores fisiológicos (como cortisol, inflamação, parâmetros metabólicos e indicadores neurocognitivos) buscando validar os efeitos do yoga e da meditação por meio de evidências mensuráveis. Além disso, há uma produção significativamente maior em volume, o que aponta para um campo mais consolidado e institucionalizado. Em países como a Índia, o yoga não é apenas objeto de investigação, mas também parte de políticas públicas e projetos nacionais de ciência e saúde, o que lhe confere um estatuto distinto daquele observado na América Latina.
Essa diferença pode ser sintetizada da seguinte forma: enquanto a América Latina tende a psicologizar o yoga, a Ásia tende a biologizá-lo. Contudo, ambas as operações participam de um mesmo movimento mais amplo: a transformação do yoga e da meditação em tecnologias de regulação do corpo e da mente, alinhadas às demandas de sociedades do cansaço por saúde, desempenho e adaptação.
Talvez o aspecto mais revelador dessa análise não esteja apenas no que aparece com frequência, mas também no que quase não aparece. Em ambos os contextos, são minoritárias as pesquisas que abordam o yoga como problema filosófico, ontológico ou cultural. Questões relativas à tradição, à metafísica, à crítica social ou à decolonialidade (e, menos ainda, anticolonialidade) ocupam um espaço marginal, quando não ausente, na produção indexada. Isso sugere que o processo de cientifização dessas práticas implicou, em grande medida, um recorte: aquilo que não pode ser facilmente mensurado, operacionalizado ou traduzido em intervenção tende a ser deixado de lado.
Dessa forma, o que emerge não é apenas uma comparação entre regiões, mas o esboço de um fenômeno global. A América Latina não constitui uma exceção ou distorção do yoga “original”, mas participa de uma reconfiguração mais ampla, na qual o yoga deixa de ser predominantemente um caminho de transformação do ser para se tornar, sobretudo, uma ferramenta de gestão do sofrimento. A Ásia, por sua vez, longe de preservar intacta uma suposta tradição, também opera essa tradução - ainda que com maior densidade institucional e sofisticação biomédica.
Em síntese, as diferenças entre os dois contextos existem e são relevantes, mas se inscrevem dentro de uma mesma lógica: a incorporação do yoga e da meditação ao campo das ciências da saúde. O que varia é o modo dessa incorporação (mais psicológico na América Latina, mais fisiológico na Ásia), mas não o seu horizonte fundamental.
Tema | % estimado |
Saúde mental (ansiedade, estresse) | 50–65% |
Qualidade de vida / bem-estar | 15–25% |
Intervenções clínicas específicas | 10–15% |
Educação / universidade | 5–10% |
Filosofia / crítica / cultura | <5% |
*pesquisas na América Latina (2022-2024)
Tema | % estimado |
Saúde mental (ansiedade, estresse) | 30–45% |
Biomedicina (cortisol, inflamação, etc.) | 25–35% |
Doenças específicas (diabetes, câncer etc.) | 10–20% |
Educação / sociedade | 5–10% |
Filosofia / tradição | <5–10% |
*pesquisas na Ásia (2022-2024)
Desenvolvimento
Há algo que antecede a tudo isso, que percorre os bastidores das pesquisas. Antes mesmo do primeiro gesto, da primeira respiração orientada, já existe um campo de expectativas silenciosas que organiza o encontro. Professores e alunos não chegam “vazios” à prática em shalas e estúdios do mundo; chegam atravessados por um imaginário produzido, em grande medida, pelo modo como o yoga e a meditação vêm sendo nomeados, estudados e legitimados no discurso científico contemporâneo.
Quando a maior parte das pesquisas insiste em associar essas práticas à redução da ansiedade, ao manejo do estresse, à melhora da qualidade de vida, cria-se um horizonte de sentido bastante específico: pratica-se yoga/meditação (ao que tudo parece indicar) para (majoritariamente) funcionar melhor. Não necessariamente para se transformar, tampouco para se confrontar com aquilo que escapa à funcionalidade, mas para ajustar-se. O corpo torna-se o lugar de uma intervenção; a respiração, uma técnica de regulação; a atenção, um instrumento de estabilização. E, pouco a pouco, instala-se uma expectativa de que algo “deve melhorar”. Não é que moksa, kaivalya, sartori e samadhi deixaram de existir, mas de significado: yogues e meditantes modernos visam alcançar uma espécie de homestase divina ou sagrada.
Esse “deve” é decisivo. Ele opera de forma sutil, quase imperceptível, mas reorganiza profundamente a experiência. O aluno que chega à sala muitas vezes já traz consigo um diagnóstico difuso: “sou ansioso”, “estou estressado”, “preciso me acalmar”. Ele não busca apenas uma prática, mas uma resposta. E, mais do que isso, espera que essa resposta venha sob a forma de alívio mensurável. Se a ciência diz que funciona, então algo precisa acontecer. A experiência passa a ser acompanhada por uma espécie de vigilância interna: estou melhorando? estou mais calmo? isso está funcionando?
Nesse ponto, o que poderia ser encontro com o imprevisível torna-se, frequentemente, verificação de desempenho. O sacerdote brâmane com roupas de açafrão hoje opera sua teologia de jaleco branco, os sutras se transmutaram em papers acadêmicos.
O professor, por sua vez, não está fora dessa lógica. Também ele é atravessado por esse mesmo campo discursivo. Ao se apoiar em evidências, estudos e promessas de eficácia, ele ocupa um lugar que se aproxima cada vez mais do de um mediador de resultados. Sua fala tende a se organizar em torno de efeitos esperados: “isso vai te relaxar”, “essa técnica reduz a ansiedade”, “essa respiração regula o sistema nervoso”. Ainda que bem-intencionado, ele passa a sustentar uma promessa. E toda promessa, quando reiterada, cria um regime de expectativa - tanto para quem escuta quanto para quem enuncia.
O efeito disso é duplo. Por um lado, a prática ganha legitimidade, torna-se acessível, comunicável, justificável. Por outro, algo se estreita. Porque, ao se orientar por resultados previamente definidos, reduz-se o espaço para aquilo que não se encaixa: o desconforto, a inquietação, o excesso, o que não melhora - ou até piora. O aluno que não se sente mais calmo pode interpretar sua experiência como falha. O professor, por sua vez, pode sentir-se convocado a corrigir, ajustar, oferecer mais técnica, mais método, mais controle.
Forma-se, assim, um circuito curioso: quanto mais se busca regular, mais se reforça a necessidade de regulação.
Além disso, essa lógica tende a produzir uma relação específica com o próprio corpo e com a experiência. Em vez de um campo aberto de exploração, o corpo torna-se um indicador: relaxado ou tenso, regulado ou desregulado, melhor ou pior. A atenção, que poderia se deslocar livremente, passa a ser convocada para monitorar estados internos. A prática deixa de ser apenas vivida e passa a ser constantemente avaliada.
Não se trata, aqui, de negar os efeitos benéficos amplamente documentados. Eles existem, e são relevantes. O ponto é outro: é observar como a forma de nomear e investigar essas práticas molda, antecipadamente, aquilo que delas se espera e, portanto, aquilo que nelas se encontra.
Talvez o aspecto mais silencioso desse processo seja justamente aquilo que fica de fora. Quando o yoga e a meditação são apresentados quase exclusivamente como tecnologias de bem-estar, torna-se mais difícil sustentar experiências que não se traduzem em melhora imediata. Torna-se mais raro, também, reconhecer que nem tudo no encontro com o corpo e com a atenção se organiza como alívio. Há dimensões da experiência que não se deixam reduzir a parâmetros de eficácia e que, no entanto, podem ser centrais.
O risco, então, não é o de que o yoga/meditação “deixe de funcionar”, mas o de que ele passe a funcionar apenas dentro de um horizonte estreito: o da adaptação, da regulação e do desempenho subjetivo. E, nesse processo, tanto professores quanto alunos podem, sem perceber, passar a habitar a prática como quem busca confirmar uma promessa: em vez de se abrir a um encontro cujo resultado não está previamente dado.
É nesse desvio sutil (entre o que se espera e o que pode emergir) que se joga, talvez, a questão mais decisiva do campo contemporâneo.
Considerações iniciais
A questão não se resolve com um simples “não caia nisso”. Porque aquilo que hoje se chama de “yoga do bem-estar” não é apenas uma escolha individual equivocada, mas um campo inteiro que atravessa a linguagem, a formação, os cursos, os alunos e o próprio modo como a prática é legitimada. Mesmo quem percebe a armadilha já está, de algum modo, dentro dela. Por isso, talvez a pergunta mais honesta não seja como sair completamente, mas como permanecer sem se deixar capturar por completo (pelas igrejas do yoga ou pelas cientificidades biomédicas dele).
Um dos primeiros deslocamentos possíveis está naquilo que se diz ou, mais precisamente, naquilo que se promete. A prática yoguica hoje (tradicional ou não), invariavelmente, está saturada de garantias: “isso vai te acalmar”, “essa técnica reduz a ansiedade”, “essa respiração regula”. Aos poucos, instala-se uma espécie de contrato silencioso: pratica-se esperando um resultado. Suspender essa promessa não significa abandonar a prática, mas retirar dela o lugar de garantia. Em vez de assegurar efeitos, talvez seja mais preciso abrir espaço para a experiência: nem sempre será confortável, nem sempre será bom, nem sempre produzirá aquilo que se espera. E isso não é um desvio - é parte do encontro. Lá atrás se esperava o fim do sofrimento em metafísicas, hoje em resultados mensuráveis pela biomedicina.
Esse gesto, aparentemente simples, tem consequências profundas. Porque junto com a promessa desaparece também a urgência de corrigir. O desconforto, que hoje tende a ser rapidamente tratado como algo a ser eliminado, pode voltar a existir como parte legítima da experiência. Inquietação, tédio, irritação, a sensação de que “não está funcionando”: tudo aquilo que costuma acionar imediatamente uma técnica de regulação pode, em vez disso, ser sustentado por um tempo. Não se trata de glorificar o sofrimento, mas de não reduzi-lo automaticamente a algo que precisa ser resolvido. Há experiências que só podem se transformar se não forem interrompidas cedo demais.
Isso exige também uma mudança mais sutil, mas decisiva: deslocar o eixo da prática. Em vez de se perguntar o tempo todo “isso está funcionando?”, talvez seja necessário sustentar outra pergunta, menos ansiosa por resposta: “o que está acontecendo aqui?”. A primeira organiza a experiência em torno de um ideal de melhora; a segunda abre um campo onde algo pode aparecer sem precisar imediatamente se justificar. É uma passagem do controle para a atenção... e essa passagem não é trivial.
Para quem ensina, esse deslocamento implica ainda uma torção no próprio lugar que se ocupa. O professor de yoga/meditação, hoje, é frequentemente convocado a funcionar como um especialista do equilíbrio, alguém que orienta, regula, oferece soluções. Há uma sedução nesse lugar que confere autoridade, reconhecimento, utilidade. Mas sustentá-lo sem fissuras significa, muitas vezes, assumir que se sabe o que é melhor para o outro. Recusar completamente esse lugar talvez seja impossível, mas é possível habitá-lo de forma menos rígida: falando menos em termos prescritivos, abrindo mais perguntas do que respostas, evitando fechar rapidamente a experiência do aluno com interpretações ou correções. Às vezes, o gesto mais radical não é oferecer uma técnica, mas não interromper o que está se passando.
Há ainda um ponto que costuma passar despercebido, mas que é fundamental: a tendência de transformar sofrimentos que têm dimensão social em problemas exclusivamente individuais. O cansaço, a sobrecarga, a sensação de esgotamento são frequentemente traduzidos como falta de regulação interna, como se tudo pudesse ser resolvido com mais respiração, mais atenção, mais prática. Uma posição menos capturada por essa lógica não precisa transformar a aula em militância, mas pode, ao menos, não reforçar essa redução. Nem todo mal-estar é um problema interno a ser corrigido. Há algo do mundo que insiste, e que não pode ser simplesmente respirado para fora.
Talvez, no fim, o gesto mais difícil seja aceitar que nem tudo precisa funcionar. Em um contexto em que tudo deve ser eficaz, mensurável e justificável, sustentar práticas que não produzem melhora imediata (ou que sequer produzem algo nomeável) torna-se quase um ato de resistência. Isso não significa abandonar os efeitos possíveis do yoga, mas recusar que eles sejam o único critério de valor.
O problema, afinal, não é que o yoga tenha se tornado uma prática de bem-estar. O problema é quando ele só pode existir como isso. E talvez seja nesse estreitamento (quase imperceptível, mas profundamente operante) que se decide o que ainda pode acontecer dentro de uma sala de prática.
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